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Aula ao vivo: Classes Gramaticais – Palavras Variáveis

Hoje você vai aprender tudo sobre Classes Gramaticais – Palavras Variáveis com o professor Rafael Cunha e Eduardo Valladares! 😀 Para continuar por dentro dos horários das aulas e do material de apoio, é só continuar lendo esse post! 😛

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Português: Classes Gramaticais – Palavras Variáveis
26/05 TERÇA-FEIRA
Turma da Manhã: 10:15 às 11:15, com o professor Rafael Cunha
29/05 SEXTA-FEIRA
Turma da Noite: 18:30 às 19:30, com o professor Eduardo Valladares

Baixe o material de apoio, é só clicar aqui embaixo icon razz Aula ao Vivo: Anabolismo Nuclear e Síntese Proteica

Material de Aula ao Vivo
Lista de Exercícios

 MATERIAL DE AULA AO VIVO

O Adjetivo

Conceito
– Caracteriza um substantivo ou equivalente, de forma impessoal (neutra) ou pessoal (emotiva).
– Flexiona-se em gênero e número, além de assumir a categoria de grau.
Ex.: Os bons /maus / velhos hábitos devem ser analisados.

Locução adjetiva
Trata-se de uma expressão formada por duas ou mais palavras cujo sentido equivale a um adjetivo (mas não necessariamente apresenta um equivalente). Veja:
amor de mãe = amor materno
ocorrências da noite = ocorrências noturnas
prato do dia
brincadeira sem graça

O Grau
Os adjetivos admitem a variação no grau. Com ela, a caracterização dada ao substantivo é indicada com maior ou menor intensidade. São dois os graus dos adjetivos: comparativo e superlativo.

• Grau Comparativo
Pode ser usado entre dois seres ou duas características de um mesmo ser:
Ex.: Ana é mais bonita (do) que Julia.
João é mais inteligente (do) que estudioso.

Existem três níveis de comparação:
– de superioridade – mais calmo que
– de igualdade – tão calmo como (ou quanto)
– de inferioridade – menos calmo que

• Grau Superlativo
Relativo – indica que um ser possui uma qualificação em grau superior ou inferior ao dos demais detentores de uma mesma característica.
– de superioridade:
Ex.: Moysés é o mais delicado do grupo.
– de inferioridade:
Ex.: João é o menos esperto de todos.

Absoluto – indica que um ser apresenta uma qualificação em grau elevado.
– Sintético – fortíssimo
– Analítico – muito esperto
Observação: Formação dos superlativos absolutos sintéticos
– Quando o adjetivo terminar em RE ou RO, o superlativo absoluto sintético se findará em ÉRRIMO.
Ex.: pobre – paupérrimo
magro – macérrimo
acre – acérrimo
negro – nigérrimo
Exceção: nobre – nobilíssimo

– Quando o adjetivo terminar em IO, o superlativo absoluto sintético se findará em IÍSSIMO.
Ex.: macio – maciíssimo
feio – feiíssimo
Exceções: sábio – sapientíssimo
frio – frigidíssimo
Obs. Está consagrada na linguagem jurídica a expressão “sumaríssimo”, apesar de a gramática prever “sumariíssimo”.

– Quando o adjetivo terminar em Z, o superlativo absoluto sintético se findará em CÍSSIMO.
Ex.: loquaz – loquacíssimo
atroz – atrocíssimo
feliz – felicíssimo
feroz – ferocíssimo

– Quando o adjetivo terminar em VEL, o superlativo absoluto sintético se findará em BILÍSSIMO.
Ex.: amável – amabilíssimo
terrível – terribilíssimo
imóvel – imobilíssimo

– Quando o adjetivo terminar em SOM NASAL, o superlativo absoluto sintético se findará em NÍSSIMO.
Ex.: pagão – paganíssimo
cristão – cristianíssimo
são – saníssimo
comum – comuníssimo

Casos estilísticos
Cuidado com a anteposição do adjetivo ao substantivo:
Ex.: homem pobre = homem sem posses
pobre homem = homem desafortunado
Questão Comentada
A cadeira azul parecia muito confortável.
Explique a diferença semântica entre os dois adjetivos destacados.

Resposta:
O primeiro adjetivo é neutro e caracteriza objetivamente a cadeira. O segundo adjetivo, por sua vez, é expressivo – e qualifica a cadeira de modo subjetivo.
O Numeral

Conceito
– Possuem uma significação numérica: indicam os números ou a ordem de sua sucessão.
– Aparecem sozinhos ou acompanhados de um substantivo.
– Podem flexionar-se em gênero e em número.
Ex.: Seis meses de economias não permitirão que eu compre duas passagens; somente uma.

Classificações
• Cardinais: referem-se a quantidades determinadas.
Ex.: Dez, cem, ambos

• Ordinais: representam o posicionamento numérico (ou a ordem do numeral em uma sucessão).
Ex.: Quinto, vigésimo, ducentésimo

• Fracionários: representam as partes em que se divide um todo.
Ex.: meio, dois terços, um quinto

• Multiplicativos: indicam o produto de uma multiplicação.
Ex.: Triplo, quíntuplo, sêxtuplo

Aspectos Relevantes
– Não confunda o numeral “um” com o artigo indefinido “um”: eles representam uma quantidade e uma indefinição, respectivamente.
Ex.: Conheci uma moça muito simpática ontem. (artigo indefinido – uma moça “qualquer”)
Só havia uma moça simpática na festa ontem. (numeral – poderia haver “duas” moças)

– Vocábulos como dezena, centena, milhar são numerais.

– Os numerais possuem função expressiva bastante acentuada em determinados contextos.
Ex.: Já repeti mil vezes!
É certo que não houve um número tão grande de repetições; nesse caso, o numeral “mil” foi utilizado em um tom hiperbólico.
Descobrimento

Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De sopetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.

Não vê que me lembrei lá no norte, meu Deus! muito longe de mim,
Na escuridão ativa da noite que caiu,
Um homem pálido, magro de cabelo escorrendo nos olhos
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.

Esse homem é brasileiro que nem eu…

ANDRADE, Mário de. Poesias completas. Belo Horizonte: Villa Rica, 1993, p.203.

1. No poema “Descobrimento”, certos substantivos encontram-se qualificados por adjetivos inusitados. Retire do texto uma dessas combinações incomuns, explicando por que tem um efeito especial.

São Paulo 10 de Novembro, 1924

Meu caro Carlos Drummond
(…) Eu sempre gostei muito de viver, de maneira que nenhuma manifestação da vida me é indiferente. Eu tanto aprecio uma boa caminhada a pé até o alto da Lapa como uma tocata de Bach e ponho tanto entusiasmo e carinho no escrever um dístico que vai figurar nas paredes dum bailarico e morrer no lixo depois como um romance a que darei a impassível eternidade da impressão. Eu acho, Drummond, pensando
bem, que o que falta pra certos moços de tendência modernista brasileiros é isso: gostarem de verdade da vida. Como não atinaram com o verdadeiro jeito de gostar da vida, cansam-se, ficam tristes ou então fingem alegria o que ainda é mais idiota do que ser sinceramente triste. Eu não posso compreender um homem de gabinete e vocês todos, do Rio, de Minas, do Norte me parecem um pouco de gabinete demais. Meu Deus! se eu estivesse nessas terras admiráveis em que vocês vivem, com que gosto, com que religião eu
caminharia sempre pelo mesmo caminho (não há mesmo caminho pros amantes da Terra) em longas caminhadas! Que diabo! estudar é bom e eu também estudo. Mas depois do estudo do livro e do gozo do livro, ou antes vem o estudo e gozo da ação corporal. (…) E então parar e puxar conversa com gente chamada baixa e ignorante! Como é gostoso! Fique sabendo duma coisa, se não sabe ainda: é com essa gente que se aprende a sentir e não com a inteligência e a erudição livresca. Eles é que conservam o espírito
religioso da vida e fazem tudo sublimemente num ritual esclarecido de religião. Eu conto no meu “Carnaval carioca” um fato a que assisti em plena Avenida Rio Branco. Uns negros dançando o samba. Mas havia uma negra moça que dançava melhor que os outros. Os jeitos eram os mesmos, mesma habilidade, mesma sensualidade mas ela era melhor. Só porque os outros faziam aquilo um pouco decorado, maquinizado, olhando o povo em volta deles, um automóvel que passava. Ela, não. Dançava com religião. Não olhava pra
lado nenhum. Vivia a dança. E era sublime. Este é um caso em que tenho pensado muitas vezes. Aquela negra me ensinou o que milhões, milhões é exagero, muitos livros não me ensinaram. Ela me ensinou a felicidade.

ANDRADE, Mário de. A lição do amigo: cartas de Mário de Andrade a Carlos Drummond de Andrade.

Rio de Janeiro: J. Olympio, 1982, pp. 3-5.
Texto VI
“Inúmeros são os casos de troca de correspondência entre artistas, escritores, músicos, cineastas, teatrólogos e homens comuns em nossa tradição literária. Mário de Andrade, por exemplo, foi talvez o maior de nossos missivistas. Escreveu e recebeu cartas de Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Tarsila do Amaral, Câmara Cascudo, Pedro Nava, Fernando Sabino, só para citar alguns. O conjunto de sua correspondência não só nos ajuda a conhecer o seu pensamento, seus valores e sua própria vida, como também entender boa parte da história e da cultura brasileira do século XX.”

DINIZ, Júlio. “Cartas: narrativas do eu e do mundo” In Leituras compartilhadas – cartas. Fascículo especial 2, ano 4.Rio de Janeiro: Leia Brasil / Petrobras, 2004, p.10.

2. Mário de Andrade, ao comentar um trecho de seu poema “Carnaval Carioca”, demonstra encanto por uma moça que, segundo ele, “dançava com religião”. Explique, com suas palavras, o que seria, na visão do autor, “dançar com religião”.
3. Retirado do contexto, o trecho “(não há mesmo caminho pros amantes da Terra)” pode ser interpretado de duas maneiras distintas, considerando-se diferentes acepções atribuídas à palavra mesmo.
a) Quais são as interpretações possíveis?
b) Qual é interpretação mais adequada à carta de Mário de Andrade? Justifique a sua resposta.
4. Responda:
a) Segundo o autor, do fato de certas pessoas não terem gosto verdadeiro pela vida decorrem algumas consequências. Quais são elas?
b) Observando a concordância nominal empregada em cada um dos enunciados abaixo, aponte as diferenças de significado existentes entre eles.
I – moços de tendência modernista brasileiros
II – moços de tendência modernista brasileira
5. Responda:
a) Na carta a Drummond, Mário de Andrade utiliza uma linguagem mais coloquial, trazendo a impressão, algumas vezes, de que a interação está ocorrendo na modalidade oral da língua. Transcreva do texto dois exemplos dessa manifestação da oralidade na escrita.
b) No texto, a subjetividade é marcada pelo emprego de pronomes e verbos em 1ª pessoa. No entanto, em determinado trecho, entre as linhas 6 e 14, o autor faz uso repetidamente de um outro recurso de linguagem para expressar sua emoção. Que recurso é esse?
6. Para CEM, a língua só tem uma forma de ordinal, CENTÉSIMO, usado pelo Autor. Assinale o item, em que o ordinal correspondente ao cardinal admite duas formas:
a) 100
b) 90
c) 13
d) 7
e) 600
7. Os ordinais referentes aos números 80, 300, 700 e 90 são, respectivamente:
a) octagésimo, trecentésimo, septingentésimo, nongentésimo
b) octogésimo, trecentésimo, septingentésimo, nonagésimo
c) octingentésimo, tricentésimo, septuagésimo, nonagésimo
d) octogésimo, tricentésimo, septuagésimo, nongentésimo
e) nenhuma das respostas anteriores.
8. Marque o emprego incorreto do numeral.
a) século III (três)
b) página 102 (cento e dois)
c) 80º (octogésimo)
d) capítulo XI (onze)
e) X tomo (décimo)
9. Indique o item em que os numerais estão corretamente empregados:
a) Ao papa Paulo Seis sucedeu João Paulo primeiro.
b) Após o parágrafo nono, virá o parágrafo décimo.
c) Depois do capítulo sexto, li o capítulo décimo primeiro.
d) Antes do artigo dez vem o artigo nono.
e) O artigo vigésimo segundo foi revogado.

 

Gabarito

1. Uma combinação inusitada seria “livro palerma”. O efeito especial aqui decorre do fato de que o adjetivo palerma, embora sintaticamente associado a “livro” é, semanticamente, ligado ao eu-lírico.
2. Segundo o autor, “dançar com religião” é dançar de forma espontânea, intensa e prazerosa.
3. a) uma interpretação possível é “não há, de jeito nenhum, caminho para os amantes da Terra”. Outra interpretação é de que “não há caminho idêntico para os amantes da Terra”.
b) a interpretação mais adequada é “não há caminho idêntico para os amantes da Terra” pois, de acordo com o texto, como as terras do Rio, de Minas e do Norte são admiráveis, longas caminhadas por esses caminhos seriam sempre interessantes. Já a interpretação de que “não há, de jeito nenhum, caminho para os amantes da Terra” torna o texto sem sentido.
4. a) Cansaço, tristeza e, o que seria ainda pior, alegria fingida.
b) No enunciado A, trata-se de moços brasileiros com tendência modernista; no enunciado B, trata-se de moços cuja tendência modernista é brasileira.
5. a) “pensando bem”, “dum”; “duma”, “(…)o que milhões, milhões é exagero, muitos(…)”.
b) O recurso é o ponto de exclamação.
6. E
7. B
8. A
9. B

LISTA DE EXERCÍCIOS

1. Deus quer otimismo
Procópio acordava cedinho, abria a janela, exclamava: – Que dia maravilhoso! O dia mais belo da minha vida!
Às vezes, realmente, a manhã estava lindíssima, porém outras vezes a natureza mostrava-se carrancuda. Procópio nem reparava. Sua exclamação podia variar de forma, conservando a essência:
– Estupendo! Sol glorioso! Delícia de vida!
Choveu o mês inteiro e Procópio saudou as trinta e uma cordas-d’água com a jovialidade de sempre. Para ele não havia mau tempo.
A família protestava contra a sua disposição fagueira e inalterável. A população erguia preces ao Senhor, rogando que parasse com o dilúvio. Um dia Procópio abriu a janela e foi levado pelas águas. Ia exclamando:
– Sublime! Agora é que sinto realmente a beleza do bom tempo integral! O azul é de Sèvres! Chove ouro líquido! Sou feliz!
Os outros, que não acreditavam nisto, submergiram, mas Procópio foi depositado na crista de um pico mais alto que o da Neblina, onde faz sol para sempre. Merecia.

(ANDRADE, Carlos Drummond de. Prosa seleta.Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2003.)

Observe a seguinte afirmativa:
“(…) Sua exclamação podia variar de forma, conservando a essência: – Estupendo! Sol glorioso! Delícia de vida!”
Identifique a “essência” a que se refere o narrador e descreva cada uma das diferentes estruturas gramaticais que concretizam a variação “de forma”.
2. Infância
Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala – e nunca se esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.

Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
– Psiu… Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro… que fundo!

Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE.
Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2002.

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala – e nunca se esqueceu (v. 7-8)
Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda. (v. 18-19)

Classifique gramaticalmente as palavras sublinhadas e aponte a diferença de sentido entre elas.
3. Em pouco tempo, deixando de dormir sobre a primeira árvore, ou de se refugiar em cavernas, [o homem] encontrou algumas espécies de machados de pedras duras e afiadas que serviram para cortar madeira, escavar a terra, e fazer cabanas de folhagens, que em seguida logo foram entremeadas de argila e de lama. Essa foi a época de uma primeira revolução, que consolidou o estabelecimento e a distinção das famílias e que estabeleceu uma espécie de propriedade, a qual já deu margem a uma série de querelas e conflitos.
(…)
Eis precisamente o nível a que chegou a maior parte dos povos selvagens que conhecemos; e é por não ter distinguido suficientemente as ideias, e observado como esses povos já estavam longe do primeiro estado de natureza, que muitos se precipitaram em concluir que o homem é naturalmente cruel e que precisa de uma organização social e política para domá-lo; ao passo que nada é tão manso como ele em seu estado primitivo, quando, afastado pela natureza tanto da estupidez dos brutos como das luzes funestas do homem civil, e coagido tanto pelo instinto quanto pela razão a se resguardar do mal que o ameaça, é impedido pela piedade natural de fazer ele próprio mal a alguém, sem ser levado a isso por algo, mesmo depois de ser agredido.

[Rousseau, Jean-Jacques. Discurso sobre a desigualdade – A origem da sociedade, In: Marcondes, D. (org.) Textos básicos em filosofia, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, p. 96]

a) No texto 3, o filósofo Jean-Jacques Rousseau se manifesta contrário a uma determinada ideia. Qual?
b) Explique o que é a piedade natural de acordo com o texto 3.
c) Todas as palavras sublinhadas abaixo pertencem a uma mesma classe gramatical, exceto uma. Diga qual, justificando a sua resposta:
…[o homem] encontrou algumas espécies de machados de pedras duras e afiadas que serviram para cortar madeira, escavar a terra, e fazer cabanas de folhagens, que em seguida logo foram entremeadas de argila e de lama… é impedido pela piedade natural de fazer ele próprio mal a alguém, sem ser levado a isso por algo, mesmo depois de ser agredido.
4. Tempo da camisolinha
Toda a gente apreciava os meus cabelos cacheados, tão lentos! e eu me envaidecia deles, mais que isso, os adorava por causa dos elogios. Foi por uma tarde, me lembro bem, que meu pai suavemente murmurou uma daquelas suas decisões irrevogáveis: “É preciso cortar os cabelos desse menino.” Olhei de um lado, de outro, procurando um apoio, um jeito de fugir daquela ordem, muito aflito. Preferi o instinto e fixei os olhos já lacrimosos em mamãe. Ela quis me olhar compassiva, mas me lembro como si fosse hoje, não aguentou meus últimos olhos de inocência perfeita, baixou os dela, oscilando entre a piedade por mim e a razão possível que estivesse no mando do chefe. Hoje, imagino um egoísmo grande da parte dela, não reagindo. As camisolinhas, ela as conservaria ainda por mais de ano, até que se acabassem feitas trapos. Mas ninguém percebeu a delicadeza da minha vaidade infantil. Deixassem que eu sentisse por mim, me incutissem aos poucos a necessidade de cortar os cabelos, nada: uma decisão à antiga, brutal, impiedosa, castigo sem culpa, primeiro convite às revoltas íntimas: “é preciso cortar os cabelos desse menino”.
Tudo o mais são memórias confusas ritmadas por gritos horríveis, cabeça sacudida com violência, mãos enérgicas me agarrando, palavras aflitas me mandando com raiva entre piedades infecundas, dificuldades irritadas do cabeleireiro que se esforçava em ter paciência e me dava terror. E o pranto, afinal. E no último e prolongado fim, o chorinho doloridíssimo, convulsivo, cheio de visagens próximas atrozes, um desespero desprendido de tudo, uma fixação emperrada em não querer aceitar o consumado.
Me davam presentes. Era razão pra mais choro. Caçoavam de mim: choro. Beijos de mamãe: choro. Recusava os espelhos em que me diziam bonito. Os cadáveres de meus cabelos guardados naquela caixa de sapatos: choro. Choro e recusa. Um não conformismo navalhante que de um momento pra outro me virava homem-feito, cheio de desilusões, de revoltas, fácil para todas as ruindades. De noite fiz questão de não rezar; e minha mãe, depois de várias tentativas, olhou o lindo quadro de Nossa Senhora do Carmo, com mais de século na família dela, gente empobrecida mas diz-que nobre, o olhou com olhos de imploração. Mas eu estava com raiva da minha madrinha do Carmo.
E o meu passado se acabou pela primeira vez. Só ficavam como demonstrações desagradáveis dele, as camisolinhas. Foi dentro delas, camisolas de fazendinha barata (a gloriosa, de veludo, era só para as grandes ocasiões), foi dentro ainda das camisolinhas que parti com os meus pra Santos, aproveitar as férias do Totó sempre fraquinho, um junho.

MÁRIO DE ANDRADE
Contos novos. São Paulo: Martins; Belo Horizonte: Itatiaia, 1980.

Mário de Andrade é um escritor conhecido pela adjetivação expressiva e original que utiliza em seus textos, como nos exemplos sublinhados abaixo:
Toda a gente apreciava os meus cabelos cacheados, tão lentos! (l. 1)
palavras aflitas me mandando com raiva entre piedades infecundas, (l. 15-16)
Descreva o valor expressivo dos dois adjetivos e explique por que o emprego de cada um deles é peculiar.

5. A propaganda ao lado explora a expressão idiomática ‘não leve gato por lebre’ para construir a imagem de seu produto:

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a) Explique a expressão idiomática por meio de duas paráfrases.
b) Mostre como a dupla ocorrência de BOM BRIL no slogan ‘SÓ BOM BRIL É BOM BRIL’, aliada à expressão idiomática, constrói a imagem do produto anunciado.
6. Estes índios são de cor baça, e cabelo corredio; têm o rosto amassado e algumas feições dele à maneira de chinês. Pela maior parte são bem dispostos, rijos e de boa estatura; gente mui esforçada, e que estima pouco morrer, temerária na guerra, e de muito pouca consideração: são desagradecidos em grande maneira, e mui desumanos e cruéis, inclinados a pelejar, e vingativos por extremo. Vivem todos mui descansados sem terem outros pensamentos senão de comer, beber, e matar gente, e por isso engordam muito, mas com qualquer desgosto pelo conseguinte tornam a emagrecer, e muitas vezes pode deles tanto a imaginação que se algum deseja a morte, ou alguém lhe mete em cabeça que há de morrer tal dia ou tal noite não passa daquele termo que não morra. São mui inconstantes e mudáveis: crêem de ligeiro tudo aquilo que lhes
persuadem por dificultoso e impossível que seja, e com qualquer dissuasão facilmente o tornam logo a negar. São mui desonestos e dados à sensualidade, e assim se entregam aos vícios como se neles não houvera razão de homens: ainda que todavia em seu ajuntamento os machos e fêmeas têm o devido resguardo, e nisto mostram ter alguma vergonha.

GÂNDAVO, Pero de Magalhães. In Cronistas e viajantes. Literatura comentada.

São Paulo: Abril Cultural, 1982, p. 33.

Firmo, o atual amante de Rita Baiana, era um mulato pachola, delgado de corpo e ágil como um cabrito; capadócio de marca, pernóstico, só de maçadas e todo ele se quebrando nos seus movimentos de capoeira. Teria seus trinta e tantos anos, mas não parecia ter mais de vinte e poucos. (…)
Era oficial de torneiro; oficial perito e vadio; ganhava uma semana para gastar num dia; às vezes, porém, os dados ou a roleta multiplicavam-lhe o dinheiro, e então, ele fazia como naqueles últimos três meses: afogava-se numa boa pândega com a Rita Baiana. A Rita ou outra. “O que não faltava por aí eram saias para ajudar um homem a cuspir o cobre na boca do diabo!” Nascera no Rio de Janeiro, na Corte; militara dos doze aos vinte anos em diversas maltas de capoeiras; chegara a decidir eleições nos tempos do voto indireto. Deixou nome em várias freguesias e mereceu abraços, presentes e palavras de gratidão de alguns importantes chefes de partido. Chamava a isso a sua época de paixão política; mas depois desgostou-se com o sistema de governo e renunciou às lutas eleitorais, pois não conseguira nunca o lugar de contínuo numa repartição pública — o seu ideal! — Setenta mil-réis mensais: trabalho das nove às três.

AZEVEDO, Aluísio de. O cortiço. São Paulo: Martins, 1972, p.76.

a) No texto 5, as ações e ambições de Firmo representam um padrão de comportamento reconhecível em nossa cultura. Explique a crítica social implícita na descrição de seu interesse pela política.
b) Observe os usos de mui e muito nos seguintes exemplos do texto 4: mui esforçada, mui desumanos, mui descansados, mui inconstantes, mui desonestos e engordam muito. Comparando esses usos, identifique em que contextos morfossintáticos cada um deles é empregado.
7. Entre as folhas do verde O¹
(…) O príncipe acordou contente. Era dia de caçada. Os cachorros latiam no pátio do castelo. (…)
Lá embaixo parecia uma festa. (…) Brilhavam os dentes abertos em risadas, as armas, as trompas que deram o sinal de partida.
Na floresta também ouviram a trompa e o alarido. (…) E cada um se escondeu como pôde.
Só a moça não se escondeu. Acordou com o som da tropa, e estava debruçada no regato quando os caçadores chegaram.
Foi assim que o príncipe a viu. Metade mulher, metade corça, bebendo no regato. A mulher tão linda. A corça tão ágil. A mulher ele queria amar, a corça ele queria matar. Se chegasse perto será que ela fugia? Mexeu num galho, ela levantou a cabeça ouvindo. Então o príncipe botou a flecha no arco, retesou a corda, atirou bem na pata direita. E quando a corça-mulher dobrou os joelhos tentando arrancar a flecha, ele correu e a segurou, chamando homens e cães.
Levaram a corça para o castelo. Veio o médico, trataram do ferimento. Puseram a corça num quarto de porta trancada.
Todos os dias o príncipe ia visitá-la. Só ele tinha a chave. E cada vez se apaixonava mais. Mas corça-mulher só falava a língua da floresta e o príncipe só sabia ouvir a língua do palácio.
Então ficavam horas se olhando calados, com tanta coisa para dizer.
Ele queria dizer que a amava tanto, que queria casar com ela e tê-la para sempre no castelo, que a cobriria de roupas e jóias, que chamaria o melhor feiticeiro do reino para fazê-la virar toda mulher.
Ela queria dizer que o amava tanto, que queria casar com ele e levá-lo para a floresta, que lhe ensinaria a gostar dos pássaros e das flores e que pediria à Rainha das Corças para dar-lhe quatro patas ágeis e um belo pêlo castanho.
Mas o príncipe tinha a chave da porta. E ela não tinha o segredo da palavra.
(…) E no dia em que a primeira lágrima rolou dos olhos dela, o príncipe pensou ter entendido e mandou chamar o feiticeiro.
Quando a corça acordou, já não era mais corça. Duas pernas só e compridas, um corpo branco. Tentou levantar, não conseguiu. O príncipe lhe deu a mão. Vieram as costureiras e a cobriram de roupas. Vieram os joalheiros e a cobriram de jóias. (…) Só não tinha a palavra. E o desejo de ser mulher.
Sete dias ela levou para aprender sete passos. E na manhã do oitavo dia, quando acordou e viu a porta aberta, juntou sete passos e mais sete, atravessou o corredor, desceu a escada, cruzou o pátio e correu para a floresta à procura da sua Rainha.
O sol ainda brilhava quando a corça saiu da floresta, só corça, não mais mulher. E se pôs a pastar sob as janelas do palácio.

(COLASANTI, Marina. Uma idéia toda azul. São Paulo: Global, 1999.)
¹TÍTULO retirado de um verso de uma canção popular da Idade Média.

Em um texto, existem estruturas que, iniciadas por conectivos, têm a função de qualificar termos anteriores.
Um exemplo dessas estruturas está sublinhado em:
a) “Puseram a corça num quarto de porta trancada.” (l. 22 – 23)
b) “que lhe ensinaria a gostar dos pássaros e das flores” (l. 36 – 37)
c) “E no dia em que a primeira lágrima rolou dos olhos dela,” (l. 42 – 43)
d) “e correu para a floresta à procura da sua Rainha.” (l. 56 – 57)

Gabarito

1. A essência a que se refere o narrador corresponde a uma visão positiva diante dos fatos. Quanto à variação de forma, a primeira expressão é constituída de um adjetivo (“estupendo”), a segunda, de um substantivo e um adjetivo (“sol glorioso”), e a terceira, de um substantivo mais locução adjetiva – preposição e substantivo (“delícia de vida”).

2. Longes: substantivo comum
Longe: advérbio de lugar
Longes: tempos distantes
Longe: espacialmente distante, longínquo, afastado

3. a) Rousseau se contrapõe à ideia de que “o homem é naturalmente cruel e que precisa de uma organização social e política para domá-lo”.
b) Gabarito: De acordo com o texto 3, a piedade natural é uma virtude do homem primitivo que o impede de fazer mal aos demais.

4. Lentos: dá destaque ao movimento dos cabelos. Porque normalmente é empregado para qualificar a duração de algo, que não é o caso dos cabelos.
Infecundas: enfatiza a ideia de que as piedades foram inúteis, não tiveram efeito.
Porque não costuma ser empregado para caracterizar um sentimento, mas a terra, os animais, os homens.

5. a) Considerando que a carne de gato é bastante semelhante à de lebre, mas de qualidade inferior, duas paráfrases possíveis seriam: “Não adquira um produto de qualidade inferior crendo que é superior” ou “não adquira um produto guiando-se apenas pela aparência”.
b) A expressão idiomática “Não leve gato por lebre” alerta para o risco de o consumidor se deixar iludir e adquirir um produto que aparenta ser de qualidade superior, mas na verdade não é. Ao afirmar que “Só Bom Bril é Bom Bril”, a propaganda manifesta que nenhum outro produto se iguala a “Bom Bril” (lebre), sendo os demais de qualidade inferior (gatos).
Pode-se considerar também que o termo “Bom Bril” — por um processo metonímico em que o nome de uma marca é usado para designar o produto, tal qual em Gillete, por exemplo — é comumente usado para referir-se ao produto “palha de aço”, qualquer que seja sua marca. Assim, a propaganda também lembra o consumidor de que imitações (gatos), apesar de comumente chamadas de “Bom Bril”, não têm a qualidade do verdadeiro Bom Bril (lebre).

6. a) Firmo representa aqueles que fazem uso da carreira na política ou no funcionalismo público para obter vantagens pessoais e buscar estabilidade econômico-financeira sem esforço.
b) Nos exemplos destacados, mui é empregado modificando adjetivos, e muito, modificando um verbo.

7. Letra A
A função qualificadora é exercida por adjetivos ou termos equivalentes. Assim, a expressão “de porta trancada” relaciona-se com o substantivo “quarto”, caracterizando-o. Tal relação permite-nos, inclusive, a seguinte leitura: quarto trancado.
Já na opção “d”, embora “da sua Rainha” relacione-se com o substantivo “procura”, não o caracteriza, cumprindo apenas o papel de completá-lo sintaticamente.