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A Segunda Fase do Modernismo – O Romance de 30

Saiba tudo sobre A Segunda Fase do Modernismo e O Romance de 30 com este resumo que vai te ajudar a entender tudo sobre literatura!

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Na década de 1930, enquanto o rádio – o mais moderno meio de comunicação de massa da época – encurtava as distâncias, aproximando o país de ponta a ponta, nossa prosa de ficção, com renovada força criadora, nos punha em contato com um Brasil pouco conhecido.

Por meio da obra de autores como Rachel de Queiroz, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Érico Veríssimo, Dionélio Machado, desponta um Brasil multifacetado, apresentado em sua diversidade regional e cultural, mas com problemas semelhantes em quase todas as regiões: a miséria, a ignorância, a opressão nas relações de trabalho, as forças da natureza sobre o homem desprotegido.

Herdeiros dos modernistas de 1922, os modernistas da segunda geração (1930-45) também se voltam para a realidade brasileira, mas agora com uma intenção clara de denúncia social e engajamento político. Unindo ideologia e análise sociológica e psicológica a novas técnicas narrativas, o romance de 30 constitui um dos melhores momentos da ficção brasileira.

 

Você vai tomar contato com a ficção de 1930 por meio da leitura de um fragmento de uma das mais importantes obras da época: Vidas Secas (1938), de Graciliano Ramos.

Adaptação cinematográfica da obra "Vidas Secas", por Nelson Pereira dos Santos (1963).

Adaptação cinematográfica da obra “Vidas Secas”, por Nelson Pereira dos Santos (1963).

Fabiano ia satisfeito. Sim senhor, arrumara-se. Chegara naquele estado, com a família morrendo de fome, comendo raízes. Caíra no fim do pátio, debaixo de um juazeiro, depois tomara conta da casa deserta. Ele, a mulher e os filhos tinham-se habituado à camarinha escura, pareciam ratos – e a lembrança dos sofrimentos passados esmorecera.

Pisou com firmeza no chão gretado, puxou a faca de ponta, esgaravatou as unhas sujas. Tirou do aió um pedaço de fumo, picou-o, fez um cigarro com palha de milho, acendeu-o ao binga, pôs-se a fumar regalado.

– Fabiano, você é um homem, exclamou em voz alta.

Conteve-se, notou que os meninos estavam perto, com certeza iam admirar-se ouvindo-o falar só. E, pensando bem, ele não era homem: era apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos outros. Vermelho, queimado, tinha os olhos azuis, a barba e os cabelos ruivos; mas como vivia em terra alheia, cuidava de animais alheios, descobria-se, encolhia-se na presença dos brancos e julgava-se cabra.

Olhou em torno, com receio de que, fora os meninos, alguém tivesse percebido a frase imprudente. Corrigiu-a, murmurando:

– Você é um bicho, Fabiano.

Isto para ele era motivo de orgulho. Sim senhor, um bicho, capaz de vencer dificuldades.

Chegara naquela situação medonha – e ali estava, forte, até gordo, fumando o seu cigarro de palha.

Era. Apossara-se da casa porque não tinha onde cair morto, passara uns dias mastigando raiz de imbu e semente de mucunã. Viera a trovoada. E, com ela, o fazendeiro, que o expulsara. Fabiano fizera-se desentendido e oferecera os seus préstimos, resmungando, coçando os cotovelos, sorrindo aflito. O jeito que tinha era ficar. E o patrão aceitara-o, entregara-lhe as marcas de ferro.

Agora Fabiano era vaqueiro, e ninguém o tiraria dali. Aparecera como um bicho, entocara-se como um bicho, mas criara raízes, estava plantado. Olhou as quipás, os mandacarus e os xique-xiques. Era mais forte que tudo isso, era como as catingueiras e as baraúnas. Ele, Sinhá Vitória, os dois filhos e a cachorra Baleia estavam agarrados à terra.

Chape-chape. As alpercatas batiam no chão rachado. O corpo do vaqueiro derreava-se, as pernas faziam dois arcos, os braços moviam-se desengonçados. Parecia um macaco.

Entristeceu. Considerar-se plantado em terra alheia! Engano. A sina dele era correr mundo, andar para cima e para baixo, à toa, como judeu errante. Um vagabundo empurrado pela seca. Achava-se ali de passagem, era hóspede. Sim senhor, hóspede que demorava demais, tomava amizade à casa, ao curral, ao chiqueiro das cabras, ao juazeiro que os tinha abrigado uma noite.

(Vidas secas. 27. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1970. p. 53-5.)

 

Aió: bolsa usada na caça.

Binga: isqueiro.

Camarinha: quarto de dormir.

Derrear-se: vergar-se, inclinar-se.

Gretado: rachado, com fendas.

Mucunã: trepadeira de grande porte, comum nas Guianas e em alguns Estados brasileiros.

Quipá: planta brasileira da família dos cactos.

Regalado: com prazer, satisfeito.

 

Romance de 30: A Estética do Compromisso

Figura 1Cena do filme "Árido Movie", de Líria Ferreira, cineasta brasileira que tem retomado em seus filmes os temas da violência, da miséria e do messianismo no sertão nordestino.

Cena do filme “Árido Movie”, de Líria Ferreira, cineasta brasileira que tem retomado em seus filmes os temas da violência, da miséria e do messianismo no sertão nordestino.

Desde a década de 1920, a literatura brasileira vinha ganhando matizes cada vez mais ideológicos. Foram ideológicos, por exemplo, os debates nascidos em torno da questão da nacionalidade, liderados, de um lado, por Oswald de Andrade e, de outro, por Plínio Salgado.

Na década de 1930, o quadro político-econômico-brasileiro e internacional – composto por reflexos da crise de 1929 na Bolsa de Nova Iorque, pela crise cafeeira, Revolução de 30, Intentona Comunista (de 1935), Estado Novo (1937-45), ascensão do nazismo e do fascismo e combate ao socialismo, Segunda Guerra Mundial (1939-45) – exigia dos artistas e intelectuais uma tomada de posição ideológica. Dessa exigência resultou uma arte engajada, de clara militância política, como se observa em muitos romances de Jorge Amado, ou de engajamento espiritual, como se verifica nas obras de Jorge de Lima e Murilo Mendes.

 

Caminhos da Ficção de 30

O romance de 30 trilhou diferentes caminhos, dos quais o regionalismo, especialmente o nordestino, é o mais importante. A tradição da ficção regionalista nordestina já contava com nomes como Franklin Távora, Rodolpho Teófilo e Domingos Olímpio. Mas, com a publicação de A bagaceira (1928), de José Américo de Almeida, e, em seguida, O Quinze (1930), de Rachel de Queiroz, o romance nordestino entrou numa fase nova, de denúncia das agruras da seca e da migração, dos problemas do trabalhador rural, da miséria, da ignorância.

Observe como José Américo de Almeida, em A bagaceira, retrata o drama coletivo da degradação humana na descrição que faz da chegada dos retirantes ao engenho Marzagão.

Era o êxodo da seca de 1898. Uma ressurreição de cemitérios antigos – esqueletos redivivos, com o aspecto terroso e o fedor das covas podres.

Os fantasmas estropiados como que iam dançando, de tão trôpegos e trêmulos, num passo arrastado de quem leva as pernas, em vez de ser levado por elas.

Andavam devagar, olhando para trás, como quem quer voltar. Não tinham pressa em chegar, porque não sabiam onde iam. Expulsos do seu paraíso por espadas de fogo, iam ao acaso, em descaminhos, no arrastão dos maus fados.

Fugiam do sol e o sol guiava-os nesse forçado nomadismo.

Adelgaçados na magreira cômica, cresciam, como se o vento os levantasse. E os braços afinados desciam-lhes aos joelhos, de mãos abanando.

Vinham escoteiros. Menos os hidrópicos – doentes da alimentação tóxica – com os fardos das barrigas alarmantes.

Não tinham sexo, nem idade, nem condição nenhuma. Eram os retirantes, nada mais.

 

Nos anos seguintes, esse veio literário foi explorado por muitos outros autores, como Amando Fontes, Jorge Amado, José Lins do Rego e Graciliano Ramos, cujas obras trazem temas novos, como o cangaço, o fanatismo religioso, o coronelismo, a luta pela terra, a crise dos engenhos. O regionalismo também se manifestou no Sul do país, na ficção histórica e épica de O tempo e o vento, de Érico Veríssimo, ou no romance de fazenda de Ivan Pedro de Martins, com Fronteira agreste. Nessas obras é ressaltado o homem hostilizado pelo ambiente, pela terra, pela cidade, pelos poderosos, o homem sendo devorado pelos problemas que o meio lhe impõe. Em algumas delas, o romance alcança um perfeito equilíbrio entre a abordagem sociológica e a introspecção psicológica.

Além do regionalismo, os anos 1930 viram florescer outras linhas temáticas no romance. No Rio de Janeiro, surgiu o romance urbano e psicológico, representado por Marques Rebelo, Cornélio Pena, Octávio de Faria. Em Minas Gerais teve vez o romance poético-metafísico de Lúcio Cardoso. No Rio Grande do Sul, o romance urbano e psicológico, também cultivado por Érico Veríssimo, alcançou um momento de rara introspecção em Os ratos, de Dionélio Machado. Jorge de Lima, escritor católico militante, publicou no Rio de Janeiro O anjo, uma narrativa surrealista com matizes ideológicos cristãos e claras referências a reformas sociais.

 

Rachel de Queiroz: A Saga da Seca

Rachel de Queiroz.

Rachel de Queiroz.

Rachel de Queiroz (1910-2003) nasceu em Fortaleza, Ceará. A instabilidade decorrente da seca de 1915 fez com que ela e a família migrassem para o Rio de Janeiro, em 1917. Logo em seguida retornaram para o Nordeste, passando por Belém, no Pará, antes de se estabelecerem novamente em Fortaleza.

Em 1927, além de atuar como professora primária, começou a colaborar no jornal O Ceará, com poemas e crônicas. Tornou-se conhecida, entretanto, com a publicação de O Quinze, em 1930, quando tinha apenas 20 anos. Nos anos seguintes militou no Partido Comunista Brasileiro e em 1937 foi presa por defender ideais esquerdistas. Publicou nesse período os romances João Miguel, Caminho de pedras e As três Marias. Dedicou-se depois ao teatro e à crônica jornalística. Foi a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras.

No conjunto, a prosa de Rachel de Queiroz é enxuta e dinâmica, sobretudo pelos efeitos que extrai da técnica do discurso direto, o que associa sua forma de narrar à tradição da novelística popular. Como consequência, seu texto ganha agilidade. Aproxima os fatos narrados e se torna mais saboroso, ao gosto do grande público.

Os quatro romances iniciais de Rachel revelam intensa preocupação social. Os dois primeiros – O Quinze e João Miguel – aprofundam o tema da seca, já introduzido por José Américo em A bagaceira, e ampliam a abordagem ao tratar também do coronelismo e dos impulsos passionais do sertanejo. Além disso, as obras de Rachel de Queiroz introduzem um elemento novo, o enfoque psicológico, que dá às personagens uma dimensão mais humana e completa.

Caminho de pedras (1937), cuja redação coincide com o período de militância política da autora, é uma obra de nítida inspiração ideológica. Conciliando a história de um relacionamento amoroso com abordagem psicológica e ideias socialistas, a obra não tem o mesmo vigor de O Quinze. Seu narrador parece ver os fatos de fora, sem vivê-los, e os conflitos se resolvem no plano sentimental.

Em As três Marias (1939), verifica-se o aprofundamento da abordagem psicológica, já notada nas obras anteriores. Embora tenha o Nordeste como cenário – tal como Caminho de pedras –, as narrativas que constituem a obra não se propõem a analisar sua estrutura social, econômica e política.

Nas décadas subsequentes, publicou ainda Dora, Doralina (1975) e muitos livros de crônica, gênero a que se dedicou nos últimos anos de vida, em que escreveu para jornais do Rio de Janeiro, onde vivia, e de São Paulo. Também cultivou o teatro e a literatura infantil, em que se destaca a obra Andira.

Depois de quase vinte anos sem se dedicar ao gênero romance, Rachel surpreendeu o público com uma nova produção, Memorial de Maria Moura (1992), que foi adaptada pela Rede Globo para um seriado na tevê e consagrou a autora junto ao grande público.

 

O Nordeste no Romance de 30. Graciliano Ramos, José Lins do Rego e Jorge Amado.

Retirante (1958), de Portinari.

Retirante (1958), de Portinari.

A principal expressão do romance de 30 encontra-se no regionalismo nordestino representado por escritores como Graciliano Ramos, José Lins do Rego e Jorge Amado, além de Rachel de Queiroz.

Abordando temas como a seca, o coronelismo, o cangaço, a disputa por terras e o fanatismo religioso, entre outros, essa produção representa um momento de maturidade de nossa ficção.

 

Graciliano Ramos: A Prosa Nua

Graciliano Ramos.

Graciliano Ramos.

Graciliano Ramos (1892-1953) é o principal romancista da geração de 1930. Nasceu em Quebrângulo, Alagoas, e viveu em várias cidades nordestinas, como Buíque, Viçosa, Maceió e Palmeira dos Índios, da qual seria prefeito em 1927. Além de ter se dedicado à literatura, o escritor também exerceu atividades ligadas ao jornalismo, à vida pública e à política.

Em 1936, durante o governo de Vargas, foi preso sob a acusação de subversão e, depois de passar por várias prisões, foi levado para a Ilha Grande, no Estado do Rio de Janeiro, onde permaneceu dez meses encarcerado. Dessa experiência, nasceria Memórias do cárcere, obra que ultrapassa os limites do pessoal para se tornar um importante depoimento da realidade brasileira da época e uma denúncia do atraso cultural e do autoritarismo da era Vargas.

Libertado, Graciliano Ramos mudou-se para o Rio de janeiro. Em 1945, ingressou no Partido Comunista Brasileiro; em 1951, então reconhecido como o principal romancista brasileiro depois de Machado de Assis, foi eleito presidente da Associação Brasileira de Escritores. Da viagem que fez para a Rússia, no ano seguinte, nasceria a obra Viagem.

Como romancista, Graciliano Ramos alcançou raro equilíbrio ao reunir análise sociológica e psicológica. Como poucos, retratou o universo do sertanejo nordestino, tanto na figura do fazendeiro autoritário quanto na do caboclo comum, o homem de inteligência limitada, vítima das condições do meio natural e social, sem iniciativa, sem consciência de classe, passivo diante dos poderosos.

Contudo, em Graciliano, o regional não caminha na direção do específico, do particular ou do pitoresco; ao contrário, as especificidades do regional são um meio para alcançar o universal. Suas personagens, em vez de traduzir experiências isoladas, revelam uma condição coletiva: a do homem explorado socialmente ou brutalizado pelo meio.

Sua primeira obra, Caetés (1933), ao fazer uma narrativa da vida provinciana de Palmeira dos Índios, constitui um exercício de técnica literária com características naturalistas, como severamente o próprio autor reconhecia. No livro seguinte, São Bernardo (1934), verdadeira obra-prima da literatura brasileira, Graciliano apresenta uma notável evolução em técnica e estilo e um significativo aprofundamento na análise psicológica das personagens, cujo resultado é a criação de Paulo Honório, uma das mais marcantes personagens brasileiras.

A São Bernardo seguiram-se Angústia (1936), em que o romancista acentua a preocupação psicológica, servindo-se de aprimorados recursos expressivos, e Vidas secas (1938), seu único romance em 3ª pessoa, uma grande obra pelo poder de fixar figuras subumanas vivendo o fatalismo das secas da região Nordeste.

Graciliano Ramos não foi apenas romancista; escreveu, ainda, contos (Histórias incompletas, Insônia, Alexandre e outros heróis), crônicas (Linhas tortas, Viventes das Alagoas) e impressões de viagens (Viagem).

O autor de Vidas secas sobressai entre os demais de sua época, não só pelas qualidades universalistas que apresenta, mas sobretudo pela linguagem enxuta, rigorosa e conscientemente trabalhada, no que se mostra o legítimo continuador de Machado de Assis na trajetória do romance brasileiro.

 

São Bernardo

O romance São Bernardo é narrado em 1ª pessoa por Paulo Honório, que se propõe a contar sua dura vida, dos tempos de guia de cego até a situação de proprietário da Fazenda São Bernardo.

Dotado de muita vontade e ambição, depois de uma vida de lutas e brutalidades, Paulo Honório realiza seu sonho de se tornar fazendeiro, adquirindo a propriedade São Bernardo, onde fora trabalhar de enxada. Casa-se aos 45 anos com a professora Madalena, que, boa e compassiva por índole, passa a se interessar pela vida de miséria e agruras dos empregados da fazenda e a interceder por eles junto a Paulo Honório. Iniciam-se os desentendimentos entre eles. As discussões se intensificam. Nem a gravidez de Madalena nem o nascimento do filho põem fim àquela situação. Angustiada pelo despotismo e pelo ciúme doentio de Paulo Honório, Madalena suicida-se.

 

José Lins do Rego: Memória e Ficção no Engenho

José Lins do Rego.

José Lins do Rego.

A decadência da estrutura social e econômica dos latifúndio e engenhos da zona açucareira da Paraíba e de Pernambuco, bem como o início da modernização, com a chegada das usinas, encontra sua maior expressão literária na prosa de José Lins do Rego.

José Lins do Rego (1901-1957) nasceu no município de Pilar, Paraíba. Fez Direito em Recife, onde teve contato com o grupo modernista que ali surgia, formado por Gilberto Freyre e José Américo de Almeida, entre outros. Atuou como promotor em Maceió, onde escreveu seus primeiros livros e conviveu com Graciliano Ramos, Jorge de Lima e Rachel de Queiroz. Atuou na imprensa, na vida diplomática e foi eleito para a Academia Brasileira de Letras pouco antes de morrer.

Muito da obra do escritor concilia ficção com as recordações dos tempos de menino e adolescente, quando vivia na fazendo do avô paterno, juntamente com tios e primos. Numa linguagem fluida, solta, popular, o escritor capta a vida nordestina por dentro e registra-a num momento em que se operavam no Nordeste transformações de ordem social e econômica profundas, fruto da decadência do engenho, logo substituído pela usina moderna.

Oriundo de uma família rica, neto do então importante coronel José Paulino (transformado em personagem de algumas de suas obras), José Lins não tem a envergadura ideológica nem a capacidade de análise e de crítica social de Graciliano Ramos; contudo, como poucos, capta e transpõe para a literatura o imaginário do povo nordestino, antes dele expresso apenas nas narrativas orais, nos romances cantados e na literatura de cordel.

Segundo o próprio autor, sua obra pode ser dividida em ciclos. São eles:

 

  • Ciclo da cana-de-açúcar: Menino de engenho, Doidinho, Banguê, Fogo morto e Usina;
  • Ciclo do cangaço, misticismo e seca: Pedra Bonita e Cangaceiros;
  • Obras independentes: romances vinculados aos dois ciclos: Moleque Ricardo, Pureza, Riacho doce; romances desvinculados dos ciclos: Água-mãe e Eurídice.

 

A obra Riacho doce, depois de ser adaptada pela Rede Globo para a linguagem televisiva, foi também transposta para o cinema pelo cineasta Fábio Barreto.

 

Fogo Morto e o Ciclo da Cana-de-Açúcar

Ilustração de Luís Jardim para Fogo Morto.

Ilustração de Luís Jardim para Fogo Morto.

Em sua primeira obra, Menino de engenho, José Lins do Rego pretendia escrever a biografia de seu avô José Paulino, uma das mais representativas figuras da tradição fundamentada no sistema patriarcalista, escravocrata e latifundiário. A obra deveria, também, conter cenas autobiográficas da infância do escritor. Entretanto, o José Lins biógrafo foi superado pela imaginação criadora do José Lins romancista. Desse modo, Menino de engenho inicia em torno da figura do garoto Carlos de Melo uma trilogia em que se incluem também Doidinho e Banguê. As tensões socioeconômicas do engenho de açúcar apontadas pelo narrador-personagem dessas obras têm continuidade nos outros romances que integram o ciclo d cana-de-açúcar, principalmente em Fogo morto, romance-síntese do ciclo, que marca a parte mais significativa das produções do autor.

Fogo morto é a mais madura das obras de José Lins do Rego. Nela, o autor consegue captar, na paisagem e no elemento humano, não só as imagens oriundas de suas lembranças pessoais, mas principalmente a bruta realidade de uma estrutura social em decomposição.

Fogo morto se divide em três partes. Na primeira, “O mestre José Amaro”, José Lins enfatiza o destino e o drama humano de uma personagem que se orgulha de ser seleiro, de ter uma profissão independente, passada de pai para filho. A segunda, “O engenho de seu Lula”, é a história da ascensão, do apogeu e da decadência do engenho Santa Fé, arruinado no final por seu proprietário, o Coronel Lula de Holanda, autoritário, prepotente e incapaz. Na terceira, “O Capitão Vitorino”, o autor dá ênfase à figura dessa personagem, alvo das chacotas da molecada e até dos adultos, uma espécie de D. Quixote nacional que anda de engenho em engenho em defesa dos injustiçados, grandes ou pequenos.

As relações que se estabelecem entre as personagens funcionam como fios que costuram as três partes da narrativa, ao mesmo tempo que ajudam a construir um grande painel da zona açucareira, retratada num momento de profunda transformação social e econômica, que pões fim às centenárias estruturas fundiárias e se abre para a modernização.

A visão nostálgica do autor, marca principal dos outros romances que integram o ciclo da cana-de-açúcar, cede lugar em Fogo morto a um profundo sentimento de tristeza e de inconformismo social.

 

Jorge Amado: Lirismo e Militância na Bahia

Jorge Amado e Zélia Gattai.

Jorge Amado e Zélia Gattai.

Jorge Amado (1912-2001) nasceu em Pirangi, no Estado da Bahia. Trabalhou na imprensa e estudou Direito. Em 1931, mudou-se para o Rio de Janeiro e se tornou conhecido com a publicação do romance O país do carnaval. Alcançou notoriedade, entretanto, com dois romances publicados logo em seguida: Cacau e Suor.

Politicamente comprometido com ideias socialistas, participou da Aliança Nacional Libertador, movimento de frente popular, e foi preso em 1936. Libertado em 1937, morou em Buenos Aires, onde publicou a biografia de Prestes. De volta ao Brasil, em 1945, foi eleito deputado federal, mas teve cassado seu mandato político. Deixou novamente o país e residiu na França, na União Soviética e em países das chamadas democracias populares até 1952, quando retornou ao Brasil. Nessa ocasião já se tornara mundialmente conhecido. Em 1959, ingressou na Academia Brasileira de Letras. Seus livros estão hoje traduzidos para mais de trinta línguas.

A maior parte das obras do escritor, principalmente as primeiras que publicou, apresenta preocupação político-social, denunciando, num tom direto, lírico e participante, a miséria e a opressão do trabalhador rural e das classes populares.

Conforme o autor foi amadurecendo, sua força poética voltou-se para os pobres, para a infância abandonada e delinquente, para a miséria do negro, para o cais e os pescadores de sua terra natal, para a seca, o cangaço, a exploração do trabalhador urbano e rural e para a denúncia do coronelismo latifundiário.

Autor de obras de cunho regionalista e de denúncia social no início de sua carreira de escritor, Jorge Amado passou por diferentes fases até chegar à última delas, voltada para a crônica de costumes.

Parte da crítica literária vê pouco valor na obra de Jorge Amado, principalmente nos romances da última fase. Certos críticos rejeitam o caráter militante de algumas de suas obras, acusando-as de panfletárias; outros rejeitam sua linguagem despretensiosa e popular, acusando-o de escrever mal; outros rejeitam o apimentado de suas histórias mais populares, recheadas de erotismo; outros o consideram repetitivo em relação a personagens e enredos. Independentemente da opinião da crítica, porém, Jorge Amado tornou-se um dos mais prestigiados escritores brasileiros no Brasil e no exterior. Suas obras foram traduzidas em 55 países e, no Brasil, venderam 20 milhões de exemplares.

 

Tieta do Agreste

Tieta do Agreste, obra publicada em 1977, situa-se no grupo das obras de Jorge Amado que o crítico Alfredo Bosi chamou de “crônicas amaneiradas de costumes provincianos”.

Segundo as tradições da literatura popular nordestina, especialmente do cordel, a obra se organiza em vários capítulos e, em cada um deles, o narrador faz uma apresentação.

A narrativa se passa na pequena cidade de Sant’Ana do Agreste, na região litorânea do Mangue Seco, norte da Bahia. Conta a história de Tieta, ou Antonieta Esteves Cantarelli, jovem que, expulsa de casa pelo pai, o criador de cabras Zé Esteves, sai pelo mundo até chegar à capital paulista. Depois de vários anos, Tieta dá notícias, informando que se casara com um industrial paulista, o milionário Comendador Felippe Cantarelli, e todos os meses manda dinheiro e presentes aos familiares. Na verdade, Tieta era dona de um bordel em São Paulo, o que vai ser revelado apenas no final da história.

Um dia, chega uma carta de Tieta, informando que está viúva e deseja voltar a Sant’Ana do Agreste na companhia de sua enteada, na verdade uma das moças do bordel. A família e toda a cidade – o padre, o poeta, o representante do prefeito, as beatas – se preparam para receber sua filha mais ilustre.

 

O Sul no Romance de 30: Érico Veríssimo e Dionélio Machado

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No Sul do país, pelas mãos dos gaúchos Érico Veríssimo e Dionélio Machado, o romance de 30 percorre caminhos diferentes daqueles trilhados pelos escritores nordestinos. O primeiro empenha-se na reconstituição da história de formação de seu Estado; o segundo avança em outra direção: a do romance urbano e psicológico.

 

Érico Veríssimo: Resgate Histórico e Crítica

Érico Veríssimo (1905-1975)

Érico Veríssimo (1905-1975)

Érico Veríssimo é gaúcho de Cruz Alta. Embora não tenha cursado universidade, iniciou-se no jornalismo em 1930 e tornou-se professor de literatura nos Estados Unidos. Também dirigiu um dos departamentos culturais da Organização dos Estados Americanos – experiência que registrou nos livros Gato preto em campo de neve e A volta do gato preto.

Sua estreia na literatura ocorreu com Fantoches, uma coletânea de contos. O marco inicial de sua popularidade, entretanto, foi a publicação do romance Clarissa, no ano seguinte.

A obra do autor costuma ser dividida em três fases. A primeira inicia-se com a publicação de Clarissa (1933), que acaba sendo a primeira de uma série de romances – Caminhos cruzados, Música ao longe, Um lugar ao sol, Saga – que têm como traço de união a presença constante de certas personagens, principalmente os pares Vasco e Clarissa e Fernanda e Noel, e completa-se com Olhai os lírios do campo e O resto é silêncio. Essa primeira fase do romancista caracteriza-se pelo registro do cotidiano da vida urbana de Porto Alegre e pela apresentação de certos problemas morais, sociais e humanos decorrentes da vigência de valores degradados. Verdadeiros best-sellers, suas obras foram vertidas para diversas línguas.

A segunda fase do escritor corresponde a O tempo e o vento, obra cíclica que trata da formação do Rio Grande do Sul. Nessa obra de envergadura épica, Érico Veríssimo demonstra pleno amadurecimento de processos técnicos e expressivos e se firma como um legítimo retratista do povo gaúcho, embora, do ponto de vista do crítico José Hildebrando Dacanal, a obra expresse a ideologia das elites dirigentes que historicamente se instalam no poder.

Pode-se reconhecer na obra do romancista ainda uma terceira fase, representada por O prisioneiro, O senhor embaixador e Incidente em Antares, caracterizada por uma postura mais universalista, mais crítica e de engajamento social.

Érico Veríssimo dedicou-se também à ficção didática (Viagem à aurora do mundo, Aventuras no mundo da higiene), à literatura infantil (Os três porquinhos pobres) e obras de caráter memorialista (Solo de clarineta).

Da mesma forma que Jorge Amado, Érico Veríssimo tornou-se um escritor consagrado em seu tempo, sendo aceito por públicos de diferentes estratos culturais. Parte da crítica, entretanto, considera sua obra superficial em relação à análise social e tímida quanto às inovações de linguagem. De qualquer modo, ainda se espera um estudo mais aprofundado do conjunto da obra por parte de pesquisadores e críticos.

 

O tempo e o vento

O tempo e o vendo, obra-prima de Érico Veríssimo, é constituída de três partes: “O Continente”, “O retrato” e “O arquipélago”. Nela é narrada a saga da formação socioeconômica e política do Rio Grande do Sul, desde as suas origens, no século XVIII, até o ano de 1946.

O palco em que se dá o desenrolar dos fatos e das situações é a região de Santa Fé, onde o poder econômico e político local é disputado por duas famílias: os Amaral e os Terra Cambará. O ponto de partida do desenvolvimento da intriga é a luta entre os federalistas e os republicanos, em 1893, suporte das rivalidades entre as duas famílias.

 

Dionélio Machado: Do Banal ao Universal

Dionélio Machado.

Dionélio Machado.

Dionélio Machado (1895-1985), gaúcho de Quaraí, formou-se em Medicina, especializando-se em psiquiatria. Foi também jornalista do Correio do Povo e chegou a se eleger deputado.

Quase esquecido pela crítica e pelos historiadores da literatura durante décadas, só mais recentemente sua obra começou a ganhar a devida atenção.

Dionélio situa-se entre os autores intimistas e urbanos da geração de 1930 que trabalharam na linha da exploração psicológica. Ao lado de Angústia, de Graciliano Ramos, talvez a obra Os ratos (1935) seja uma das mais profundas experiências de introspecção na literatura brasileira.

Tendo sido Dionélio homem de esquerda, era de esperar que sua análise dos problemas humanos fosse feita sob o ângulo das relações de exploração social. Contudo, o escritor surpreende. Em suas narrativas, a análise dos problemas humanos é feita a partir das pequenas coisas massacrantes que envolvem o dia a dia das pessoas comuns e as anulam. O social, embora em permanente tensão com o individual, nunca se sobrepõe a este, de modo que a obra jamais cai no panfletário ou na propaganda partidária. O leitor é quem, costurando os fatos banais da existência, extrais sua conclusão a respeito dos efeitos do sistema capitalista sobre o indivíduo comum, assalariado, impotente na engrenagem social.

Dionélio Machado escreveu romances, contos e ensaios. Além de Os ratos, é também autor, entre outros, de O louco do Cati (1942), Desolação (1944) e Deuses econômicos (1966).

 

Os ratos

Os ratos é a obra mais importante de Dionélio Machado. Segundo o crítico Davi Arrigucci Jr., “trata-se de um romance breve, concentrado, surpreendente pela originalidade saída do mais prosaico, com perfeito equilíbrio entre os elementos psicológicos e sociais, explorados em profundidade, numa forma simbólica de longo alcance.”

A obra narra o percurso de 24 horas de desespero do funcionário público Naziazeno, um cidadão comum que, certa manhã, desperta com um sério problema: o leiteiro ameaça cortar-lhe o fornecimento de leite se ele não pagar, na manhã seguinte, a dívida de 53 mil-réis. No final do dia, enfim, consegue o dinheiro. E volta para casa levando também comida e um brinquedo para o filho.

 

Exercício

1. Sobre a prosa na segunda geração do modernismo, é correto afirmar, exceto:

a) O romance brasileiro produzido nas décadas de 1930 e 1940, período em que o país e o mundo viveram profundas crises, colocou-se a serviço da análise crítica de nossa realidade e teve na obra de Graciliano Ramos a principal expressão desse momento.

b) Ainda que distantes do experimentalismo estético proposto pelos modernistas de 1922, os romancistas de 1930 consideravam irreversíveis muitas de suas conquistas, tais como o interesse por temas nacionais, a busca de uma linguagem mais brasileira e o interesse pela vida cotidiana.

c) O romance de 1930 trilhou diferentes caminhos, sendo o regionalismo, especialmente o nordestino, o mais importante entre todos. Entre seus principais nomes estão Graciliano Ramos e Rachel de Queiroz.

d) A prosa na segunda geração do modernismo foi marcada pela preocupação com a descoberta e com a exploração de novas técnicas narrativas, além da sondagem do universo social e psicológico do ser humano. Entre suas principais obras, está Macunaíma, de Mário de Andrade.

 

Gabarito

1. D)

Comentário: A alternativa “d” faz referência à primeira geração do modernismo brasileiro sobretudo à obra de Mário de Andrade, que, ao lado de Oswald de Andrade e Manuel Bandeira, integrou a chamada “tríade modernista”.