Exigida como leitura obrigatória de muitos vestibulares, e também muito mencionada no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), Clarice Lispector se tornou uma das principais escritoras da literatura brasileira, fazendo parte da terceira fase do Modernismo (ou também chamado de período “Pós-Moderno”).

Criadora de uma linguagem intimista e única, suas obras percorrem as temáticas da feminilidade e do mais íntimo do ser, fato que trouxe para os principais historiadores literários verdadeira inquietação e necessidade de compreendê-la. Abaixo, vamos conhecer um pouco mais sobre a vida de Clarice Lispector, assim como obras mais importantes e curiosidades de sua trajetória.

1 - Chaya Pinkhasovna Lispector - a garota ucraniana

Nascida em 10 de dezembro de 1920 em Chechelnyk, República Popular da Ucrânia, Chaya Pinkhasovna Lispector era filha de judeus russos e pouco viveu em seu país de origem. Seu nascimento conturbado ocorreu pouco tempo antes dos preparativos de fuga de sua família, uma vez que o antissemitismo que acontecia por conta da Guerra Civil Russa se alastrava no cenário europeu.

Assim, ao planejarem a fuga, com o intuito de emigrar para as américas, sua família chegou ao Brasil. No país, seus nomes foram substituídos e modificados para a língua portuguesa, de modo que Chaya se tornara Clarice, futuramente um dos maiores nomes da literatura brasileira.

Instalaram-se inicialmente em Maceió, em condições precárias devido às dificuldades socioeconômicas decorrentes da grande mudança. Após 3 anos na cidade Alagoana mudam-se para o Recife em busca de ascensão social e, somente quase 11 anos depois, migraram para o Rio de Janeiro, local em que seu pai esperava progredir com o comércio e garantir melhoria de vida para Clarice e suas irmãs.

Foi na cidade maravilhosa, então, que a jovem Clarice Lispector deu início a sua jornada como contista, cronista e romancista do século XX. Embora tenha falecido em 1977, vítima de um câncer no ovário na véspera de seu aniversário de 57 anos de idade, deixou grandes obras e reflexões a serem analisadas até a atualidade.

2 - Escritora jovem, jovem escritora

Segundo Clarice, “eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada… porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro…”.

É com essa declaração que sua forma de “desabrochar” começou ainda na juventude, com a obra Perto do Coração Selvagem (1942), romance que descreve a jovem Joana e seus conflitos internos relacionados ao crescimento, família e o próprio eu. Anos mais tarde escreve a obra O Lustre (1946) e A Cidade Sitiada (1949).

Somente depois de uma década sua escrita ganha espaço à maturidade e ao prazer do descobrimento, principalmente demonstrados nas obras Laços de Família (1960), A Paixão Segundo GH (1964) e Água Viva (1973).

Como mencionou uma vez em uma entrevista concedida ao jornalista Júlio Lerner, em 1977 “quando me comunico com adulto, na verdade estou me comunicando com o mais secreto de mim mesma”. Desse modo, é possível perceber em sua literatura as mudanças decorrentes das experiências vividas por Clarice, assim como sua capacidade ímpar de enxergar o mundo. É por essa razão que A Hora da Estrela (1977), sua última produção escrita, se tornou não só uma de suas maiores análises intimistas, como também sintetizou sua mutável e desconstrutiva visão sobre o universo.

3 - O poder feminino em Clarice Lispector

Embora não se considerasse uma autora pertencente ao movimento feminista, inclusive pelo fato da temática não ser tão abrangente entre meados do século XX, a condição da mulher é um dos traços mais recorrentes nas obras de Clarice Lispector.

Revolucionária na questão do gênero, trouxe para a literatura uma demonstração de como eram construídos os papéis na sociedade, e como essas relações poderiam em si sufocar a simples existência da mulher em meio a um ambiente patriarcal. Tais reflexões, apesar de terem enorme espaço em seus romances, também foi cenário principal de seus contos, tais como A Menor Mulher do Mundo, Amor e O Ovo e a Galinha.

A autora ucraniana, então, nada mais é do que si própria em uma imagem que remete ao mistério feminino em suas obras. Bonita, atraente e charmosa, mas também como a força de um campo magnético ainda não desbravado, como demonstra no trecho abaixo:

Ao mesmo tempo que imaginário — era um mundo de se comer com os dentes, um mundo de volumosas dálias e tulipas. Os troncos eram percorridos por parasitas folhudas, o abraço era macio, colado. Como a repulsa que precedesse uma entrega — era fascinante, a mulher tinha nojo, e era fascinante.

Trecho do conto Amor, de Clarice Lispector.

4 - Escrita atemporal: o universalismo da autora

Não somente voltada para a escrita feminina, Clarice Lispector atrai leitores curiosos e faz parte de listas obrigatórias de vestibulares da atualidade por conta de sua escrita atemporal. Isso porque a busca interior que ainda resguarda suas obras instigam análises, a fim de desvendá-los seja por meio de pesquisas, adaptações em novelas ou filmes, entre outras demonstrações.

Considerada a “autora das transformações”, sua linguagem de fácil entendimento, porém de grande complexidade interpretativa faz com que sua leitura seja simples como o cotidiano, mas intragável como as dificuldades da vida contemporânea: fragmentada, inconclusiva e passageira.

Como mencionado na obra do escritor Alfredo Bosi, História Concisa da Literatura Brasileira (1970), “enfim, o que a escritura de Clarice Lispector anuncia na esfera da ficção introspectiva dá-se também na do romance voltado para o horizonte social. Serão as vicissitudes do regionalismo em nossos dias”. Dessa maneira, ao trabalhar personagens e situações tão voltadas para o íntimo de sua pessoa, Lispector desenvolve uma relação fiel e leal com o leitor, pessoa que também convive neste cotidiano intenso com as dúvidas e insatisfações do ser, estabelecendo com ele um diálogo fiel na busca por respostas.

Não à toa ela tenha sido uma das poucas autoras mulheres a ganhar renome nacional e internacional. Sua primeira conquista foi o prêmio Graça Aranha, em 1943; Prêmio Carmen Dolores Barbosa (1961) e, por fim, conquistou um dos prêmios literários mais importantes do Brasil, idealizado por Edgard Cavalheiro durante seu mandato como presidente da Câmara Brasileira do Livro, prêmio Jabuti, em 1978, com a obra A Hora da Estrela.

Assinatura de Clarice Lispector
Assinatura de Clarice Lispector

5 - Clarice Lispector: frases mais importantes

Como pôde ser visto, a autora ucraniana, porém brasileira, instiga e desenvolve uma relação importantíssima com os leitores da atualidade, tendo sido muito utilizada no Exame Nacional do Ensino Médio, assim como fazendo parte da leitura obrigatória de diversos vestibulares. Separamos, então, frases dos trechos mais importantes e conhecidos desta incrível e única mulher escritora:

Além do mais a “psicologia” nunca me interessou. O olhar psicológico me impacientava e me impacienta, é um instrumento que só transpassa. Acho que desde a adolescência eu havia saído do estágio psicológico.

A Paixão Segundo GH, p. 26

Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou para sair discretamente pela saída da porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só queria ter o que eu tivesse sido e não fui.

A Hora da Estrela, p. 21

Sei que são primárias as minhas frases, escrevo com amor demais por elas e esse amor supre as faltas, mas amor demais prejudica os trabalhos


A invenção do hoje é o meu único meio de instaurar o futuro.

Quero escrever-te como quem aprende. Fotografo cada instante, aprofundo as palavras como se pintasse, mais do que um objeto, a sua sombra.

Trechos da obra: Água Viva

Minha liberdade é escrever. A palavra é o meu domínio sobre o mundo.

Citação de Clarice Lispector

Eu nunca assumi a carreira de escritora. Eu não sou uma profissional, eu só escrevo quando quero. Eu sou uma amadora e faço questão de ser uma amadora. Profissional é aquele que tem uma obrigação consigo mesmo de escrever, ou então com o outro, em relação ao outro, agora eu faço questão de não ser uma profissional para manter a minha liberdade.

Clarice Lispector para a entrevista de Júlio Lerner, 1977.

Mesmo que sua vontade fosse nunca ter o reconhecimento de uma escritora profissional, a vontade ilimitada de Clarice Lispector por ser livre encantou o século XX e ainda instiga a atualidade, sendo hoje reconhecida como uma das maiores representantes do Pós-Modernismo do Brasil.

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