Verbo em acordo
A concordância verbal aparece em praticamente todo exercício de gramática normativa, mas sua lógica vai muito além de “decorar terminações”. Em provas, o que costuma ser cobrado é a relação entre o verbo e o núcleo do sujeito, além de casos específicos em que a frase pede atenção extra, como sujeitos compostos, expressões partitivas e construções impessoais. Quando você entende a estrutura da oração, fica mais fácil reconhecer o padrão correto e evitar alternativas que parecem certas, mas quebram o acordo exigido pela norma-padrão.
Segundo Evanildo Bechara, na Moderna Gramática Portuguesa, a concordância verbal se organiza a partir das relações sintáticas da oração, especialmente entre verbo e sujeito. Já Celso Cunha e Lindley Cintra, na Nova Gramática do Português Contemporâneo, mostram que a análise depende de observar o núcleo do sujeito e as construções que podem alterar o comportamento verbal. Em vez de tentar decorar listas soltas, vale treinar a leitura da frase como um sistema de relações.
O que é concordância verbal
Concordância verbal é a adequação da forma do verbo ao número e à pessoa do sujeito. Em linhas gerais, se o sujeito está no singular, o verbo tende ao singular; se o sujeito está no plural, o verbo tende ao plural. Parece simples, mas as bancas adoram testar situações em que essa regra precisa ser aplicada com atenção ao núcleo do sujeito e ao sentido da frase.
Exemplo básico: Os alunos estudam para a prova. Aqui, o sujeito é Os alunos, no plural, então o verbo fica no plural. Já em O aluno estuda para a prova, o sujeito está no singular e o verbo acompanha essa forma.
Como achar o sujeito primeiro
Antes de olhar para o verbo, procure o sujeito. Pergunte: quem pratica a ação? ou de quem se fala? Essa estratégia evita um erro comum: concordar com um termo que não é o núcleo do sujeito. Em muitas questões, o verbo fica distante do sujeito, o que exige paciência na leitura.
Veja a frase: Grande parte dos candidatos erra a questão. O núcleo do sujeito é parte, que está no singular. Por isso, o verbo pode aparecer no singular, mesmo com a presença de dos candidatos, que é um complemento de sentido plural. Em gramáticas tradicionais, esse tipo de estrutura é tratado com atenção especial porque o núcleo é quem manda na concordância.
Casos que mais caem
Sujeito composto
Quando há mais de um núcleo no sujeito, o verbo costuma ir para o plural: Maria e João chegaram cedo. Porém, o contexto pode permitir variações de estilo em alguns casos, especialmente quando os núcleos são sinônimos, proximamente relacionados ou quando a frase enfatiza apenas um deles. Em prova, o mais seguro é reconhecer o núcleo composto e observar o sentido pedido pelo enunciado.
Se o sujeito composto vem depois do verbo, ainda assim a concordância precisa ser observada: Chegaram Maria e João. Essa inversão é muito comum em questões de análise sintática, porque o verbo aparece primeiro e pode confundir quem lê com pressa.
Expressões partitivas
Expressões como maioria de, parte de, grande número de e um grupo de exigem atenção ao núcleo. A concordância pode variar entre singular e plural conforme o foco da frase. Em A maioria dos alunos aprovou a proposta, o verbo concorda com maioria. Em A maioria dos alunos aprovaram a proposta, a ideia recai sobre alunos. Em provas mais tradicionais, a preferência normativa costuma privilegiar a concordância com o núcleo singular, mas a leitura do enunciado é decisiva.
Verbos impessoais
Há verbos que não têm sujeito e, por isso, ficam sempre na terceira pessoa do singular. É o caso de haver no sentido de existir e de fazer indicando tempo decorrido. Assim, dizemos Há muitos livros na mesa e Faz dois anos que estudo português. Aqui, o verbo não concorda com livros nem com anos, porque não há sujeito nesses casos.
Esse ponto é recorrente em itens objetivos, sobretudo porque a banca pode oferecer alternativas com concordância atraente visualmente, mas gramaticalmente incorreta. A regra é estável e muito útil para eliminar opções.
Verbo ser
O verbo ser tem comportamento especial quando aparece em construções com pronomes, horas, datas e expressões de medida. Em frases como São duas horas ou Hoje são dez de maio, o verbo pode concordar com o termo que exprime quantidade ou tempo. Já em O problema é as faltas, a estrutura pode variar conforme a organização da frase e o foco semântico, mas em texto formal e em prova é importante reconhecer a lógica da construção.
Erros comuns em questões
Um erro muito frequente é concordar com o termo mais próximo, e não com o núcleo do sujeito. Outro é achar que toda palavra plural ao lado do verbo obriga plural no verbo. Não funciona assim. A concordância depende da estrutura sintática, não apenas da aparência da frase.
Também é comum confundir sujeito com complemento. Em Faltam argumentos para convencer, o sujeito é argumentos, então o verbo vai ao plural. Já em Falta argumento para convencer, o sujeito continua sendo argumento, agora no singular. Mudar a quantidade do núcleo muda a forma verbal.
Outro ponto importante é não tratar a variação de uso como se fosse “erro” em qualquer contexto. A norma-padrão é a exigida em muitas provas, mas isso não significa que outras variedades da língua sejam inferiores. Como discute Marcos Bagno em Preconceito Linguístico, a avaliação de usos linguísticos precisa considerar contexto, situação comunicativa e desigualdade social, sem confundir variedade com defeito. Para o ENEM, isso é especialmente relevante porque a prova valoriza análise de linguagem em contexto, não apenas memorização de regra.
Como estudar de forma eficiente
Uma forma prática de aprender concordância verbal é organizar o conteúdo por blocos:
- Bloco 1: sujeito simples e sujeito composto.
- Bloco 2: expressões partitivas e coletivas.
- Bloco 3: verbos impessoais.
- Bloco 4: verbo ser em construções especiais.
Esse tipo de organização favorece a aprendizagem significativa, conceito associado a David Ausubel: você aprende melhor quando relaciona o novo conteúdo a estruturas já conhecidas. Em vez de decorar frases soltas, monte uma tabela com três colunas: sujeito, verbo correto e motivo da concordância. Isso ajuda a transformar regra em reconhecimento rápido.
Pela lógica da taxonomia de Bloom, vale avançar em etapas: primeiro lembrar as regras básicas; depois compreender por que o verbo concorda com o sujeito; em seguida aplicar em exercícios; por fim, analisar por que uma alternativa está errada. Esse caminho reduz a chance de chute e melhora a leitura de enunciados longos.
Outra técnica eficiente é reescrever frases trocando o sujeito de número. Por exemplo, transforme O estudante resolve a questão em Os estudantes resolvem a questão. Depois, troque a estrutura por casos mais complexos, como Grande parte dos estudantes resolve e Grande parte dos estudantes resolve ou resolvem. Esse treino revela como o núcleo do sujeito orienta o verbo.
Segundo o Manual do Participante do ENEM do INEP, a leitura de texto e a análise de recursos linguísticos fazem parte da competência esperada em Linguagens. Isso significa que concordância verbal não é apenas assunto de gramática isolada: ela aparece dentro da interpretação, da reescrita e da revisão textual. Em outras palavras, dominar o tema ajuda tanto em questões específicas quanto em leitura de textos mais amplos.
Estratégia para resolver questões
Quando encontrar uma pergunta sobre concordância verbal, siga este roteiro:
- localize o verbo principal;
- identifique o sujeito e o núcleo;
- verifique se o verbo é impessoal;
- observe se há sujeito composto ou expressão partitiva;
- confira se a frase exige concordância especial com ser;
- elimine alternativas em que o verbo não acompanha a estrutura sintática.
Esse procedimento é rápido e funciona bem em prova, especialmente quando o enunciado mistura várias informações. Em vez de depender da memória pura, você passa a ler a frase com método.
Se você quiser avançar, faça uma lista dos tipos de sujeito que mais geram dúvida e treine com frases curtas e depois com períodos maiores. A concordância verbal deixa de ser um ponto de insegurança quando você aprende a enxergar a arquitetura da oração com calma e consistência.


