IA puxa US$3,4 bi e dispara corrida por data centers, nuvem e satélites LEO
Um estudo da ABES, com dados da IDC, mostra que a inteligência artificial deixou de ser promessa e já reorganiza a cadeia de tecnologia da informação no Brasil. Em 2025 o país contava com 41.613 empresas de software e serviços e US$ 67,8 bilhões em investimentos totais em TI. IA, nuvem e infraestrutura digital passaram a figurar entre as prioridades estratégicas das organizações brasileiras.
Cenário e significado dos números
Os dados deixam claro que o Brasil é o principal mercado de tecnologia da América Latina e ocupa a décima posição no ranking mundial de investimentos em TI. Ainda que os valores sejam expressivos, a composição desses investimentos revela um mercado em transição: em 2025 o hardware respondeu por 47,9% dos investimentos, enquanto software representou 32,1% e serviços 20%.
Essa configuração indica que há espaço para agregar mais valor por meio de software e serviços especializados. À medida que a IA se consolida, a tendência é que a participação de software e serviços aumente, gerando demanda por profissionais qualificados e por modelos de negócio baseados em inteligência aplicada.
Por que agentes de IA viraram prioridade
Inteligência Artificial Generativa e agentes de IA aparecem como prioridade para 53% dos executivos em 2026. Hoje, 40% das empresas já investem em agentes inteligentes e outras 33% planejam iniciar projetos nos próximos 12 meses — ou seja, mais de sete em cada dez organizações estão, de alguma forma, na jornada de adoção.
Agentes de IA são sistemas autônomos ou semi-autônomos que executam tarefas, integram processos e tomam decisões com base em modelos e regras de negócio. Na prática, isso inclui assistentes que automatizam atendimento, co-pilotos para desenvolvedores, automações para cadeia de suprimentos e ferramentas que otimizam operações internas. O impacto imediato é ganho de produtividade e a possibilidade de criar novas propostas de valor centradas em automação inteligente.
Corrida por infraestrutura: data centers e nuvem híbrida
A adoção em escala de IA exige potência de processamento, armazenamento e redes mais robustas. A IDC projeta crescimento do mercado de Hosting & Infrastructure Services para US$ 1,7 bilhão em 2026, com expansão de 18,1%. A preferência por arquiteturas híbridas — combinação de nuvem pública, infraestrutura própria, colocation e hosting — deve se intensificar para balancear custo, performance e requisitos regulatórios.
No entanto, o relatório aponta três gargalos que podem limitar a expansão: a crise global de componentes e memórias, a pressão por capacidade energética (racks de IA já operam em densidades superiores a 50 kW) e a concentração da infraestrutura digital em grandes fornecedores globais. Esses fatores exigem planejamento cuidadoso por parte de empresas que pretendem escalar aplicações de IA.
Nuvem, telecom e satélites LEO
A nuvem assume papel central: 69% dos líderes de TI brasileiros consideram-na o ambiente preferencial para aplicações de IA generativa. Espera-se que quase 38% dos gastos nacionais com IA sejam direcionados à nuvem, o que reforça a necessidade de estratégias multinuvem e de governança para controlar custos e localidade dos dados.
Nas telecomunicações, a IA deixa de ser só ferramenta de gestão e passa a integrar a própria infraestrutura das redes — em automação, manutenção preditiva e gestão dinâmica de tráfego. A previsão é que os gastos com IA no setor de telecom na América Latina superem US$ 617 milhões em 2026, com o Brasil respondendo por cerca de metade.
Outra tendência relevante é a ascensão dos satélites de baixa órbita (LEO). Redes híbridas que combinam infraestrutura terrestre e LEO ampliam cobertura em áreas remotas — agricultura, mineração e localidades de difícil acesso. A projeção é de crescimento superior a 65% no mercado brasileiro de LEO até o fim de 2026, com mais de um milhão de acessos contínuos.
Desafios estratégicos: soberania digital e concentração
O avanço simultâneo de nuvem, data centers e agentes autônomos reacende o debate sobre soberania digital. A concentração da infraestrutura em um pequeno número de hyperscalers aumenta riscos de dependência tecnológica, exposição a mudanças contratuais e desafios na proteção de dados estratégicos. Governos, empresas e reguladores precisam coordenar políticas que equilibrem incentivo a investimento e proteção de ativos sensíveis.
Medidas como regimes que estimulem investimentos locais, contratos que assegurem localidade de dados e estratégias multinuvem podem mitigar parte desses riscos. Ao mesmo tempo, há espaço para provedores regionais ganharem mercado oferecendo serviços integrados e soluções adaptadas às necessidades locais.
Conectividade terrestre e descentralização
Na infraestrutura terrestre, provedores regionais já respondem por mais de 60% dos novos investimentos em fibra óptica. A expectativa é que a cobertura FTTH ultrapasse 85% dos domicílios até 2027, o que ajuda a descentralizar o acesso e melhora a qualidade de conexões para aplicações sensíveis a latência. Além disso, a desconcentração geográfica dos investimentos, embora gradual, indica maior penetração em regiões além do Sudeste.
O que isso significa para profissionais e empresas
Profissionais devem priorizar atualização em áreas como MLOps, engenharia de dados, arquitetura de nuvem, segurança para modelos e práticas de observabilidade. Habilidades que conectem modelos generativos a sistemas legados e que garantam governança e qualidade em pipelines de IA se tornarão diferenciais no mercado.
Empresas precisam desenhar estratégias de infraestrutura híbrida, planejar consumo energético e mitigar vendor lock-in. Para micro e pequenas empresas, que representam 94,3% do setor, há oportunidades em nichos: produtos e serviços setoriais com IA, integração com plataformas maiores e oferta de serviços gerenciados regionais.
Conclusão
O Brasil vive um ponto de inflexão: IA deixou de ser projeto-piloto e virou motor de investimentos em nuvem, data centers e conectividade. As oportunidades são grandes para quem se prepara — profissionais, provedores regionais e empresas inovadoras —, mas os desafios são igualmente reais, especialmente em energia, cadeia de suprimentos e soberania digital. Planejamento, governança e políticas públicas alinhadas serão cruciais para transformar esse impulso em desenvolvimento sustentável.
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Revisão editorial: Bruno Quintela - LinkedIn

