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Crédito privado travado? Tokenização promete liquidez e venda mais fácil

Crédito privado enfrenta falta de liquidez; tokenização promete fracionar ativos e facilitar venda, reduzindo barreiras para investidores.

por Bruno QuintelaPublicado em

Crédito privado travado? Tokenização promete liquidez e venda mais fácil

O problema central: falta de liquidez

A falta de liquidez é apontada como o principal bloqueio para o crescimento do mercado de crédito privado: 70% dos investidores dizem que não conseguem vender posições com facilidade. Esse problema reduz a atratividade desses ativos, mesmo quando oferecem yield acima do mercado público. O Brazil Tokenization Report 2026, da Nexa Finance, traz esse dado e aponta a tokenização como uma solução com potencial para transformar esse cenário — mas a transição ainda está no começo.

Por que investidores evitam crédito privado

O relatório sintetiza as principais dores dos investidores: além da dificuldade em vender ativos (70%), aparecem altas taxas de gestão (56%), desalinhamento entre risco e retorno (43%), risco de inadimplência em crises (42%) e menor transparência e regulação em relação a mercados públicos (38%). Esses números vêm de pesquisas e estudos de mercado (Coalition Greenwich, S&P Global Ratings e 451 Research) citados pelo relatório.

Em termos práticos, crédito privado sofre de duas limitações estruturais: ausência de mercado secundário amplo e processos manuais com custódia centralizada. Muitas negociações passam por reconciliações e intermediários, o que encarece e atrasa transferências, tornando a precificação menos transparente e mais volátil.

O que é tokenização e por que importa

Tokenização é o processo de representar direitos sobre um ativo real (como um título de crédito) por meio de tokens digitais em uma blockchain. Dois pontos-chave explicam o potencial da tokenização:

  • Fracionamento: um ativo grande pode ser dividido em milhares de tokens, permitindo que mais investidores comprem parcelas menores e aumentando a base de compradores.
  • Registro distribuído: operações registradas em blockchain melhoram rastreabilidade e reduzem a necessidade de reconciliação manual — potencialmente acelerando liquidação e criando preços mais visíveis.

Além disso, tokens possibilitam automação por smart contracts, transparência das transferências e integração com plataformas secundárias que podem criar liquidez. Esses ganhos podem reduzir spreads de liquidez e tornar o mercado mais acessível.

Avanços e limitações atuais

O relatório mostra sinais claros de interesse: 67% dos fundos consultados disseram ter investido em tokenização ou ativos do mundo real (RWA) — contra 40% em 2024 — e 55% citaram tokenização entre os segmentos que receberam aportes. Ainda assim, há limites práticos hoje.

Uma das principais limitações é o uso de estruturas do tipo "wrapper": 77% dos ativos de crédito privado tokenizados analisados utilizam esse modelo. Nesse arranjo, o token funciona como uma representação digital de um ativo mantido fora da blockchain, e o registro do custodiante continua prevalecendo. Na prática, isso preserva dependência de intermediários e parte dos riscos jurídicos e operacionais.

Riscos que permanecem

Mesmo com tokenização, o risco de crédito do ativo subjacente não desaparece. Além disso, investidores precisam considerar:

  • Risco jurídico e de governança: a natureza legal do token e a prioridade em disputas ainda variam por jurisdição.
  • Contraparte e custódia: quando o ativo continua off-chain, quem garante o cumprimento das obrigações?
  • Liquidez efetiva: ter um token não garante compradores ativos no mercado secundário.
  • Risco operacional: bugs em smart contracts, falhas de plataformas ou problemas de integração entre registros on-chain e off-chain.

O que é necessário para escalar a liquidez

Para que a tokenização cumpra a promessa de destravar liquidez é preciso avanço coordenado em quatro frentes:

  • Regulação clara: regras que definam a natureza legal dos tokens e as responsabilidades de custodiante e emissores;
  • Infraestrutura robusta: plataformas que combinem registros on-chain com garantias off-chain transparentes e auditáveis;
  • Padrões de mercado: formatos padronizados para emissão, negociação e divulgação de informações;
  • Formação de mercado secundário: provedores de liquidez, market makers e integração com investidores institucionais.

Se essas peças forem alinhadas, o fracionamento aliado à negociação mais ágil pode reduzir descontos por liquidez e atrair uma base mais ampla de investidores, incluindo pessoas físicas com menor capital inicial.

Conclusão

A tokenização tem argumentos técnicos e econômicos relevantes para reduzir a principal barreira ao crédito privado — a falta de liquidez — e para aumentar transparência e fracionamento. Ainda assim, a maioria dos projetos segue em formatos intermediários (wrappers) e dependem de avanços regulatórios, infraestrutura e confiança do mercado para cumprir a promessa.

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Revisão editorial: Bruno Quintela - LinkedIn