Tokenização é hype sem utilidade, diz CEO — FIDCs estão dominando o crédito
O mapa do crédito no Brasil está mudando rapidamente. Fundos estruturados, especialmente os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), deixaram de ser instrumentos de nicho para se tornar uma via relevante de financiamento. A Ouro Preto Investimentos, que administra cerca de R$ 17 bilhões em ativos distribuídos em 129 fundos — 101 deles FIDCs — e registrou crescimento superior a 33% em 2025, é exemplo dessa transição. Nesta reportagem, analisamos por que os FIDCs ganham força, quais nichos são promissores, por que a tokenização ainda enfrenta limites práticos e como a inteligência artificial deve redesenhar a análise de crédito.
Por que os FIDCs crescem
Os FIDCs compram recebíveis — contratos, duplicatas, prestações e outros direitos a receber — e transformam esses fluxos em ativos negociáveis. Esse processo, conhecido como securitização, permite que originadores captem recursos no mercado de capitais em vez de depender exclusivamente dos bancos. A migração parcial do crédito dos bancos para o mercado de capitais reduz concentração e amplia fontes de financiamento.
Ao operar com estruturas mais enxutas e especializadas, as gestoras conseguem adaptar garantias, políticas de cobrança e pricing ao risco específico de cada carteira. Isso cria espaço para capturar prêmios de risco que bancos padronizados, por sua escala, tendem a não explorar. Com mais gestoras e FIDCs, o mercado ganha diversidade de originação e alternativas de investimento para cotistas com diferentes perfis de risco.
Especialização: onde está o valor
Uma tendência clara é a especialização por nicho. Fundos voltados a crédito condominial, recebíveis de saúde, antecipação de cartão, precatórios e crédito consignado privado são exemplos de segmentos que atraem atenção. O crédito consignado privado, em particular, se destacou após mudanças regulatórias que ampliaram o universo de originação sem a necessidade de convênios com empregadores.
Para viabilizar operações, muitos FIDCs se apoiam em modelos de Bank-as-a-Service (BaaS), que assumem a infraestrutura operacional e a interface com os mutuários. Assim, a gestora foca em estruturação, análise de risco e distribuição. Na prática, a vantagem competitiva surge da capacidade de conhecer a origem dos recebíveis, ajustar estruturas e monitorar performance com precisão.
Tokenização: promessa com obstáculos
A tokenização propõe representar ativos por meio de tokens digitais, com potencial para fragmentação, liquidez e negociação mais ágil. No entanto, a visão mais otimista de um registro distribuído e sem intermediários esbarra em exigências regulatórias e de segurança jurídica. Quando direitos creditórios são transformados em valores mobiliários, eles entram na esfera de supervisão da CVM e do Banco Central e normalmente exigem registro em centrais depositárias autorizadas.
- Regulação e registro centralizado: a necessidade de centrais depositárias reconhecidas cria tensão com modelos puramente descentralizados.
- Segurança jurídica e fiscalização: investidores e reguladores priorizam rastreabilidade e custódia claras, o que favorece estruturas com registro formal.
Por isso, muitos gestores classificam a tokenização hoje como uma tecnologia ainda em busca de utilidade prática em mercados regulados. Soluções híbridas — que combinam tokens com infraestrutura regulada — podem avançar, mas a adoção ampla depende de compatibilizar eficiência técnica com requisitos de custódia e compliance.
Inteligência artificial: ganho de velocidade e novos riscos
Ao contrário da tokenização, a inteligência artificial já tem impacto concreto nas operações de crédito. Modelos de IA permitem analisar carteiras em grande escala, identificar padrões de inadimplência, mapear concentrações e reconstruir, em minutos, a composição de um fundo. Para investidores, isso reduz assimetrias de informação e torna possível uma due diligence mais rápida e precisa.
No entanto, a adoção da IA traz desafios: vulnerabilidades de cibersegurança, dependência de provedores de dados, riscos de vieses nos modelos e problemas de explicabilidade. A governança de modelos, auditoria contínua e políticas robustas de segurança são pré-requisitos para que a tecnologia agregue valor sem introduzir fragilidades sistêmicas.
O que esperar das gestoras
Gestoras como a Ouro Preto miram crescimento entre as maiores casas independentes, mantendo o foco em fundos de crédito enquanto diversificam portfólios com fundos imobiliários, multimercado, previdenciários e de ações. O diferencial competitivo deve combinar originação qualificada, especialização por nicho, investimento em tecnologia e forte governança.
Para investidores, isso significa mais alternativas e potencial para retornos ajustados a riscos específicos; para o mercado financeiro, indica uma migração gradual do crédito para o mercado de capitais e menor concentração bancária ao longo do tempo.
Conclusão
A transformação do crédito no Brasil já está em curso: FIDCs consolidam-se como vetor de descentralização e especialização, a inteligência artificial acelera a transparência das análises e a tokenização ainda precisa demonstrar utilidade prática frente a exigências regulatórias. A receita para gestores é clara: especialização, investimento em tecnologia e governança rigorosa. Para quem acompanha ou participa do mercado, é hora de entender como essas tendências se traduzem em oportunidades e riscos.
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Revisão editorial: Bruno Quintela - LinkedIn

