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Fim da 6×1? Ipea diz que mercado aguenta e emprego não cai

Ipea aponta que o mercado pode absorver o fim da escala 6x1; impacto nos custos em grandes setores fica abaixo de 1%.

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Fim da 6×1? Ipea diz que mercado aguenta e emprego não cai

Uma nota técnica do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) avaliou o impacto de reduzir a jornada semanal de 44 para 40 horas — medida que, na prática, extingue a conhecida escala 6×1. A conclusão principal dos pesquisadores é que o mercado de trabalho brasileiro tem capacidade para absorver essa mudança sem provocar um choque generalizado nos custos operacionais dos grandes setores, como indústria e comércio.

Como o Ipea chegou a essa conclusão

O estudo utilizou microdados da RAIS 2023 e tratou a redução da jornada como um aumento do custo da hora trabalhada: mantendo a mesma remuneração semanal, a divisão do salário pelo número menor de horas eleva o custo/hora. Na simulação do Ipea, a transição para 40 horas aumentaria o custo médio do trabalho em regime CLT em cerca de 7,84%.

No entanto, esse efeito não se traduz automaticamente em aumento proporcional dos custos operacionais. Quando o aumento do custo/hora é ponderado pelo peso da mão de obra na estrutura de custos de cada setor, o impacto sobre o custo total tende a ser bastante reduzido em segmentos intensivos em capital ou insumos.

Impactos por setor: quem sente mais

Os efeitos são heterogêneos. Nos grandes setores empregadores — indústria e comércio — o impacto estimado é inferior a 1% do custo operacional. Esses setores concentram mais de 13 milhões de trabalhadores, parcela que ajuda a explicar a diluição do choque.

Em contrapartida, atividades com elevada participação de mão de obra na composição de custos, como vigilância, segurança e investigação, serviços para edifícios e agenciamento de trabalhadores, podem enfrentar aumentos de custo operacional mais relevantes — chegando a aproximadamente 6,6% em alguns casos. Para esses segmentos, os autores recomendam estudos setoriais detalhados e a consideração de medidas públicas de mitigação.

Números que orientam a medida

  • 44 milhões de trabalhadores CLT com jornada informada na RAIS 2023;
  • 31.779.457 (74%) cumprem 44 horas semanais;
  • Em 31 dos 87 setores analisados, mais de 90% dos trabalhadores têm jornadas acima de 40 horas;
  • Cerca de 6,5 milhões de vínculos em setores com impacto estimado inferior a 1%;
  • Aproximadamente 10 milhões de vínculos em setores onde o aumento do custo da mão de obra supera 3% do custo total;
  • Cerca de 3 milhões de vínculos em setores com impacto superior a 5%.

O que a experiência histórica sugere

O Ipea lembra que o Brasil já passou por choques no custo do trabalho sem ruptura massiva do emprego formal. Aumentos reais do salário mínimo em anos como 2001, 2012 e 2024 não provocaram redução generalizada do emprego formal. A limitação da jornada introduzida pela Constituição de 1988 também não gerou um colapso do mercado de trabalho. Esses antecedentes indicam que empresas e trabalhadores conseguem ajustar-se por diferentes caminhos.

Empresas podem reagir reduzindo produção, mas também podem aumentar produtividade, reorganizar turnos, contratar mais trabalhadores para suprir horas remanescentes ou repassar parte do custo aos preços, dependendo da estrutura competitiva de cada setor.

Recomendações práticas para RH e gestores

Para profissionais de Recursos Humanos e gestores, a nota técnica sinaliza a necessidade de diagnóstico e planejamento. Abaixo, passos práticos que ajudam a reduzir riscos e transformar o ajuste em oportunidade:

  • Mapear jornadas: identifique funções e unidades com maior incidência de 44 horas ou mais.
  • Mensurar exposição: calcule a participação da folha nos custos por centro de custo; onde a folha é >30–40% há maior vulnerabilidade.
  • Simular cenários: reproduza internamente o cálculo do aumento do custo/hora e avalie impactos por unidade, com e sem medidas mitigadoras.
  • Planejar mitigação: combine ganho de produtividade (treinamento, tecnologia), reorganização de turnos, contratações estratégicas e negociações coletivas.
  • Dialogar cedo: envolva sindicatos e representantes dos trabalhadores para construir transições menos conflituosas.
  • Focar equidade: priorize apoio a trabalhadores em ocupações de baixa remuneração e alta rotatividade para reduzir desigualdades.

Implicações sociais

Além do lado econômico, a redução da jornada carrega ganhos sociais relevantes. O Ipea ressalta que jornadas extensas são mais comuns em empregos de baixa remuneração e maior rotatividade; reduzir a máxima pode contribuir para diminuir desigualdades no mercado formal. Assim, políticas públicas de transição e medidas de apoio setorial podem ser necessárias para compatibilizar ganhos sociais e viabilidade econômica.

Conclusão

O diagnóstico do Ipea é prudente: a transição para 40 horas parece viável para a economia brasileira como um todo, sem causar um choque operacional generalizado, mas com distribuição desigual de impactos. Serviços intensivos em mão de obra serão os mais afetados e demandam estudos e políticas específicas.

Se você atua em Gestão ou Recursos Humanos, comece agora pelo mapeamento das jornadas e pela simulação de cenários locais. Preparação e diálogo social são fundamentais para transformar esse ajuste em oportunidade para reduzir sobrecarga e melhorar a qualidade de vida no trabalho.

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