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Carnaval rende mais que fábricas — por que governo ignora a cultura?

Entrevista mostra que investimento em carnaval gera mais retorno econômico que setores industriais e beneficia comunidades.

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Carnaval rende mais que fábricas — por que governo ignora a cultura?

A economista Mariana Mazzucato defende que, para cada real investido, cultura e artes — incluindo o Carnaval — podem gerar retorno econômico maior do que setores tradicionais da indústria, como a automobilística. Além do impacto direto sobre consumo e turismo, Mazzucato destaca benefícios sociais como formação de habilidades, coesão comunitária e bem‑estar em comunidades vulneráveis. Sua proposta: tratar o Carnaval como uma plataforma estratégica da economia criativa, com indicadores claros para orientar políticas públicas.

Mariana Mazzucato: Carnaval como investimento

Autora de O Estado Empreendedor, Mazzucato argumenta que o investimento público em artes e cultura tem alto poder multiplicador. Isso significa que o gasto público pode gerar efeitos diretos — vendas, hospedagem, alimentação — e efeitos indiretos de longo prazo, como capital humano, fortalecimento de redes e valorização de identidades culturais.

Para ela, o Carnaval funciona como um microcosmo: envolve música, moda, confecção de fantasias, cenografia, produção técnica e uma cadeia extensa de serviços. Esses elos criam emprego e renda durante o evento e ao longo do ano, quando há políticas que promovam formalização, capacitação e acesso a mercados.

Economia criativa do Carnaval

Transformar o Carnaval numa plataforma significa pensar a festa como infraestrutura cultural contínua, não apenas como um período sazonal. Algumas frentes práticas para isso são:

  • Formalização: apoio a microempreendedores, microcrédito e incentivos fiscais que facilitem a transição da economia informal para a formal.
  • Capacitação: cursos de gestão cultural, produção de eventos, marketing e logística para agregar valor ao trabalho local.
  • Fortalecimento da cadeia: investimentos em fornecedores locais — costura, marcenaria, gráfica, tecnologia para eventos — que ampliam o multiplicador econômico.

Quando esses elementos são articulados, cada real público tende a atrair investimentos privados e gerar maior renda local. A pesquisa da UCL, com apoio da UNESCO e parceria com o Ministério da Cultura, busca justamente criar métricas que evidenciem esses efeitos para subsidiar decisões governamentais.

Missões públicas e financiamento estratégico

Mazzucato propõe políticas orientadas por missões: definir objetivos públicos ambiciosos e usar ferramentas estratégicas — compras públicas antecipadas, subsídios condicionados, contratos com cláusulas sociais — para reduzir riscos e catalisar investimentos privados. Essa abordagem já é usada em outras áreas quando há prioridade política; a diferença seria aplicar a mesma visão para cultura.

Em vez de subsídios genéricos, o Estado poderia, por exemplo, contratar empresas criativas para projetos sociais, financiar laboratórios culturais e assegurar contrapartidas sociais em contratos de patrocínio. Esses sinais de mercado ajudam a profissionalizar o ecossistema cultural e a aumentar seu valor econômico.

Impacto social e segurança pública

O benefício do investimento em cultura vai além do PIB. Atividades culturais têm impacto comprovado em coesão social, autoestima e redução de violência entre jovens quando há infraestrutura comunitária ativa. Escolas de samba e blocos frequentemente funcionam como espaços de aprendizado informal, formação de redes e fortalecimento de identidades locais.

Por isso, políticas culturais bem desenhadas podem atuar também como políticas de prevenção social. Ainda assim, há riscos: se não houver mecanismos de distribuição, o crescimento do Carnaval pode concentrar renda em poucos atores e deixar as comunidades criadoras sem os ganhos que geram.

Riscos e armadilhas: comercialização e concentração de renda

O avanço do setor depende de garantir que os recursos circulem nas bases criadoras. Questões-chave incluem:

  • Para quem vão os recursos dos patrocínios?
  • As comunidades recebem infraestrutura e formação para capturar valor?
  • Há regras que exijam reinvestimento social ou contratação local em grandes contratos?

Ferramentas de mitigação envolvem cláusulas de reinvestimento em contratos de patrocínio, exigência de contrapartidas sociais, transparência nos fluxos financeiros e indicadores que monitorem a distribuição de renda gerada pelo evento.

Como medir o retorno: indicadores e políticas públicas

Um dos objetivos da parceria entre UCL, UNESCO e o Ministério da Cultura é criar indicadores que deixem visível o impacto econômico e social da cultura. Possíveis métricas incluem:

  • Indicadores econômicos: contribuição ao PIB, empregos gerados (formais e informais), receita turística vinculada a eventos.
  • Indicadores de cadeia: faturamento de fornecedores, número de empresas criativas formalizadas, fontes de receita ao longo do ano.
  • Indicadores sociais: participação comunitária, redução de índices de violência local, medidas de bem‑estar e saúde mental.

Com dados robustos, fica mais fácil desenhar políticas públicas orientadas por missões e justificar investimentos que articulem setor público e privado em favor das comunidades criadoras.

Conclusão

Tratar o Carnaval apenas como espetáculo é perder uma oportunidade de desenvolvimento. As evidências apresentadas por Mariana Mazzucato — retorno econômico por real investido potencialmente superior ao de certos setores industriais, além de benefícios sociais significativos — mostram que é preciso repensar prioridades públicas. Políticas eficazes exigem indicadores claros, mecanismos de financiamento estratégico e garantias de que o ganho econômico seja distribuído às comunidades que produzem a cultura.

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