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Fundepag saiu do agro: como virou ponte entre pesquisa, clima e tech

Fundepag amplia atuação além do agro, conectando pesquisa, clima e tecnologia com gestão de projetos e parcerias para diversificar receitas.

Atualizado em

Fundepag e a ponte para o mercado

A Fundepag deixou de ser apenas uma peça do ecossistema do agronegócio e se transformou em uma ponte operativa entre pesquisa, setor privado e políticas públicas. Em 2025 a fundação registrou um crescimento de 92% na receita com execução de projetos e serviços, alcançando R$ 130 milhões — um sinal claro de que a demanda por gestão profissional de pesquisa aplicada cresceu muito além do setor agrícola.

Crescimento e diversificação

Apesar do salto em faturamento, o agronegócio ainda respondeu por 74,8% dos recebimentos em 2025. No entanto, as frentes ambiental e agroambiental passaram a representar, cada uma, 12,6% do total, indicando uma estratégia deliberada de diversificação. A Fundepag trabalha com mais de 15 instituições de ciência e tecnologia (ICTs) e vem ampliando sua atuação para áreas como meio ambiente, meteorologia e tecnologia da informação.

Modelos de atuação

A Fundepag opera essencialmente em três modelos:

  • Intermediação contratual: empresas contratam institutos de pesquisa por meio da fundação; a ICT executa o conteúdo técnico e a Fundepag cuida da gestão administrativa, financeira e de pessoal.
  • Gestão de recursos de fomento: a fundação atua como interveniente entre agências financiadoras e instituições, administrando recursos e garantindo prestação de contas.
  • Execução direta: em projetos específicos a Fundepag pode assumir a execução operacional, indo além da gestão.

Esses modelos reduzem atritos burocráticos, oferecem compliance e liberam pesquisadores para se concentrar no desenvolvimento científico, enquanto a fundação assume processos de compras, contratos e folha de pagamento.

Parceiros e projetos que ilustram o impacto

Os valores movimentados em 2025 mostram a relevância da atuação conjunta com institutos de pesquisa. Entre os maiores parceiros estiveram:

  • Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital): R$ 41,9 milhões
  • Instituto Biológico (IB): R$ 27,1 milhões
  • Instituto de Economia Agrícola (IEA): R$ 17,3 milhões
  • Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen): R$ 15,4 milhões

Exemplos práticos ajudam a visualizar a entrega: o centro de pesquisa de colágeno da JBS instalado no Ital tem gestão administrativa e financeira feita pela Fundepag; o Instituto Biológico desenvolveu kits para diagnóstico de brucelose e tuberculose bovina; e o Cacau 360° reúne pesquisas sobre qualidade do cacau, fermentação e biotecnologia para aproveitamento de resíduos. Esses projetos demonstram como a fundação conecta infraestrutura científica à demanda do mercado, gerando produtos e serviços com impacto real.

Projetos ambientais e parcerias climáticas

A atuação ambiental da Fundepag inclui monitoramento marítimo em áreas com presença de grandes empresas desde 2008, além de acompanhamento de rios afetados pelos rompimentos de barragens em Mariana e Brumadinho e estudos sobre impactos de chuvas intensas na Serra do Mar. Um movimento recente e estratégico é o aprofundamento da parceria com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) para projetos relacionados a clima e meteorologia, áreas que exigem integração entre dados, sensores e modelos analíticos.

Marco legal, financiamento e novas fontes

A expansão da Fundepag ocorreu em paralelo ao Marco Legal de Ciência, Tecnologia e Inovação (2016) e regulamentações posteriores que facilitaram parcerias entre empresas e ICTs. Além de contratos com o setor privado e editais de fomento, a fundação passou a operar com recursos de emendas parlamentares, funcionando como interface entre instituições de pesquisa e esses recursos destinados à execução de projetos.

Governança e desafios para sustentabilidade

Transformar crescimento em impacto sustentado exige atenção a uma série de desafios:

  • Governança e compliance: com recursos públicos e privados em jogo, é essencial garantir transparência, prestação de contas e mecanismos para mitigar conflitos de interesse.
  • Escalabilidade técnica: projetos em clima e tecnologia exigem infraestrutura de dados (estações, sensores, plataformas) e profissionais qualificados em ciência de dados e modelagem.
  • Sustentabilidade financeira: reduzir a dependência do setor agro por meio de diversificação — universidades, financiamentos internacionais e parcerias com o setor público — é chave para estabilidade.
  • Transferência de tecnologia: contratos claros sobre propriedade intelectual e modelos de comercialização aceleram o acesso ao mercado e evitam disputas.

Como aponta o presidente Álvaro Duarte, “A Fundepag exerce o papel de ter a interface, de ter a comunicação entre a ciência e tecnologia produzida pelas instituições de pesquisa do Brasil e a sociedade”. A avaliação dele reforça a ideia de que fundações de apoio são fundamentais para a operacionalização da pesquisa aplicada.

Recomendações práticas

Para consolidar a expansão, recomenda-se que a Fundepag e fundações similares invistam em governança robusta e auditoria externa, ampliem equipes técnicas com competências em gestão de dados e modelagem climática, formalizem métricas de impacto para projetos e diversifiquem fontes de financiamento. Padronizar contratos de transferência de tecnologia também é uma medida prática para acelerar a comercialização de resultados científicos.

Conclusão

A trajetória recente da Fundepag é um exemplo de como uma fundação de apoio pode evoluir de um papel setorial para um hub multidisciplinar que conecta pesquisa, mercado e políticas públicas. O salto de receita em 2025 demonstra demanda por esse tipo de ponte: o verdadeiro teste será manter governança, qualidade técnica e sustentabilidade financeira à medida que a atuação se diversifica.

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Revisão editorial: Bruno Quintela - LinkedIn