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Extrativa dispara 1.366% em 27 anos — transformação ficou pra trás

Estudo da FGV mostra que investimento na industria extrativa cresceu 1.366% entre 1997 e 2024, enquanto transformacao estagnou.

por Bruno QuintelaPublicado em

Extrativa dispara 1.366% em 27 anos — transformação ficou pra trás

Um levantamento da Fundação Getulio Vargas (FGV) mostra que, entre 1997 e 2024, os investimentos na indústria extrativa cresceram 1.366,42%, enquanto os da indústria de transformação avançaram apenas 88,02%. Esse deslocamento setorial alterou o mapa de alocação de capital no Brasil e ajuda a explicar por que a taxa de investimento do país permaneceu relativamente baixa nas últimas décadas.

O salto da extrativa: números que chamam a atenção

Os números do estudo "O destino dos investimentos" são claros: a indústria extrativa registrou um crescimento relativo expressivo nos aportes de capital ao longo de 27 anos. Em termos absolutos, a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) total ficou em R$ 251,4 bilhões em 2024 e foi estimada em R$ 258 bilhões em 2025. Em 2024, os investimentos na extrativa somaram R$ 9,4 bilhões, enquanto na transformação o valor foi de R$ 41,2 bilhões. O que chama a atenção é a mudança de patamar: a extrativa saiu de R$ 630,2 milhões em 1997 para R$ 9,4 bilhões em 2024, um crescimento que supera em muito outros segmentos.

Produtividade e sinal de investimento

Os pesquisadores mediram produtividade como valor adicionado em volume por pessoa ocupada. Entre 1995 e 2021, os resultados se distribuíram assim: agropecuária +216,8%; indústria extrativa +120,2%; indústria total −5,3%; transformação −7,2%; construção −16,7%. Esses números reforçam uma relação direta entre lucro, investimento e ganhos de produtividade: onde o retorno é maior e mais previsível, o capital tende a se concentrar.

Por que a indústria de transformação ficou para trás

A pesquisa aponta fatores econômicos e estruturais que explicam a menor cadência de investimento na indústria de transformação:

  • Carga tributária e custo Brasil, que reduzem a margem esperada sobre novos projetos;
  • Juros elevados em períodos relevantes, elevando o custo do capital para projetos de longo prazo;
  • Baixa exposição ao mercado externo de muitos produtos de transformação, o que limita escala e oportunidades de exportação;
  • Rentabilidade concentrada em commodities, que desloca recursos para setores com retorno mais imediato.

Na prática, esses fatores reduziram o estímulo à modernização, à adoção de novas tecnologias e ao investimento em P&D no setor de transformação. Em consequência, a participação da transformação no PIB caiu de cerca de 35% nos anos 1980 para aproximadamente 13,7% até 2025.

Impactos macro e setoriais

A concentração de investimentos em setores ligados a commodities tem efeitos ambivalentes. Por um lado, gera ganhos de produtividade e superávits em períodos favoráveis de preços internacionais. Por outro, aumenta a vulnerabilidade da economia a choques externos e tende a limitar o desenvolvimento de cadeias produtivas de maior valor agregado.

Algumas consequências práticas:

  • Maior volatilidade das receitas públicas e privadas ligada às flutuações de preços internacionais;
  • Risco de especialização excessiva, com perda de complexidade produtiva;
  • Queda relativa na geração de empregos qualificados pela indústria de transformação;
  • Taxa de investimento agregada relativamente baixa, que dificulta saltos estruturais de produtividade.

Recomendações práticas para gestores

Gestores e diretores financeiros precisam equilibrar retorno de curto prazo com estratégia de médio e longo prazo. Algumas medidas concretas:

  • Reavaliar critérios de CAPEX considerando não só ROI contábil, mas também efeitos estratégicos (proteção da cadeia de valor, inovação e resiliência);
  • Construir reservas financeiras para preservar capacidade de investimento em ciclos baixos de preços de commodities;
  • Priorizar modernização e automação que reduzam custos unitários e aumentem competitividade internacional;
  • Buscar parcerias e integração em cadeias globais de valor para aumentar exposição a mercados externos;
  • Modelar cenários de stress ligados a preços internacionais e custos de financiamento, usando hedges e instrumentos financeiros quando aplicável.

Recomendações para estudantes e futuros gestores

Para quem está começando ou quer se preparar para cargos de decisão, dominar métricas e ferramentas é essencial:

  • Estude FBCF, deflatores de preços, valor adicionado por ocupado e indicadores de produtividade;
  • Aprenda análise de viabilidade econômica com custo de capital realista e inclusão de cenários de risco;
  • Aprofunde-se em temas de internacionalização, trade finance e gestão de cadeias globais de valor;
  • Desenvolva habilidades técnicas em automação, dados e gestão de projetos para liderar processos de modernização industrial.

Conclusão

O estudo da FGV deixa claro que houve uma realocação de investimentos para setores vinculados a commodities, com ganhos de produtividade concentrados na extrativa e na agropecuária e perda relativa de fôlego na indústria de transformação. Esse padrão ajuda a explicar a estagnação da taxa de investimento agregada e os desafios de diversificação da economia.

Para gestores, a mensagem é agir: combinar gestão de caixa com visão estratégica de longo prazo que priorize modernização e internacionalização. Para estudantes e profissionais, o convite é claro: adquirir competências em finanças aplicadas, produtividade e tecnologia para poder planejar e executar investimentos que deem sustentabilidade à atividade industrial.

Fonte:Fonte

Revisão editorial: Bruno Quintela - LinkedIn