O contexto histórico da escravidão no Brasil
Muitos questionam atualmente as diferenças entre a escravidão moderna, controlada pelos Europeus e a escravidão entre africanos. Quanto a essas diferenças, podemos destacar inicialmente que a segunda mantinha características da antiguidade. Ou seja, entre os povos africanos havia sim escravidão, mas diferente do que os europeus fizeram.A escravidão dentro do continente africano era realizada a séculos, mas não se norteava pelo lucro mercantilista. Na África, pessoas eram escravizadas:- Como espólios de guerras;
- Como forma de pagar dívidas ou tributos;
- Como trocas entre grupos diferentes.
O início da escravidão africana no Brasil
A chegada dos portugueses à América marcou o início de uma nova relação dos homens com a terra. Enquanto os nativo-americanos a exploravam apenas para a subsistência, os portugueses iniciaram um trabalho baseado no sistema de plantation. Com grandes latifúndios, fruto da devastação de florestas, os portugueses usaram a terra para a grande plantação da cana de açúcar.Inicialmente, a escravidão indígena chegou a ser utilizada como forma de mão de obra nas lavouras. Entretanto, o contato com os europeus dizimou a população nativa das Américas. Aos poucos, tornou-se difícil encontrar nativos para esses trabalhos. Além disso, os indígenas brasileiros possuíam um maior conhecimento geográfico, o que facilitava suas fugas e resistência. Assim, com a escassez de indígenas e o desconhecimento dos nativos do trabalho em grandes lavouras exigiu mudanças. Visto isso, a exportação de africanos para o trabalho nos engenhos de açúcar se mostrou uma opção lucrativa. Logo, milhares de navios, a partir do século XVI, passaram a realizar o tráfico de africanos para a América.Os que aqui chegavam com vida eram vendidos nos mercados negreiros a preços variados. Os africanos jovens e mais saudáveis possuíam preços ainda exorbitantes. Desta forma, eram vendidos separados de seus familiares e de outros que falassem a mesma língua. Essa tática de isolamento evitava rebeliões e conspirações. Logo, como resultado dessa venda, o escravizado se tornava uma posse de um senhor de escravos (o termo correto, atualmente, é “escravizados”).Destinado ao trabalho braçal nas lavouras, sendo castigado com chibatadas e vivendo sob condições desumanas, esses homens morriam cedo.[caption id="attachment_178519" align="alignnone" width="512"]
Comerciante de Minas Gerais barganhando no mercado de escravos no Rio de Janeiro. Fonte: Flickr.[/caption]
A brava resistência africana à escravidão no Brasil
Apesar da desumanização provocada pela escravidão, os africanos e seus descendentes jamais deixaram de resistir, foi preciso muita bravura e resiliência. Dentre as principais formas de luta contra esse sistema opressor, podemos citar:- Fugas;
- Rebeliões e guerras;
- Formação de quilombos;
- Manutenção de práticas culturais e religiosas;
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Festa de Santa Rosália. Johann Moritz Rugendas e M. de Golbery (1835)[/caption]
Os homens escravizados de ganho: quem foram?
As formas de resistência citadas acima se relacionam principalmente ao campo. Durante o período colonial ela tiveram uma expressão muito maior. Entretanto, já no século XVIII e XIX, com a maior urbanização, novas formas surgiram. A principal delas, muito estudada, é a resistência através do trabalho urbano. Os chamados “escravos de ganho” eram negros que possuíam permissão para lucrar com pequenos trabalhos. Muitos realizavam pequenos ofícios, sobretudo como comerciantes e repassavam parte do que ganhavam aos seus senhores como tributo.Entretanto, com os trabalhos urbanos, alguns escravizados conseguiam acumular dinheiro. Esses lucros, muitas vezes, eram utilizados para comprar suas cartas de alforria, documentos que garantiam a liberdade. Alguns, inclusive, conseguiam maiores lucros e compravam a alforria de outros escravizados.Consequências da escravidão africana até os dias atuais
Em 1888, a assinatura da Lei Áurea enfim decretou o fim da escravidão no Brasil.Após séculos de resistência da população escravizada e anos de luta dos grupos abolicionistas, a escravidão chegou ao fim. Entretanto, os anos posteriores à abolição não foram muito melhores do que se imagina.Durante o século XIX, o racismo científico aprofundou-se, construindo ao redor do mundo o mito da superioridade branca. A partir dessas noções, a visão do mundo sobre negros e africanos era a de selvagens, marginais à civilização e modernidade. No Brasil, os negros escravizados também sofreram com esse peso, com a imagem de uma população selvagem.Logo, o início do século XX ainda manteve essas ideias. A população negra, portanto, apesar de liberta, sofria com o racismo e com os séculos de exploração. Poucos possuíam terras, estudos ou capacidade de ascensão social. Assim como, não contaram com a assistência do Estado após a libertação.Desta forma, a população liberta continuou marginalizada e jogada à própria sorte. Seja no interior do Brasil ou nas grandes capitais, os ex-escravizados continuavam morrendo na miséria e por doenças. Revoltas como as de Canudos e do Contestado são exemplos dessas dificuldades e da continuidade das opressões. Além disso, o surgimento de novas ideias científicas, como a eugenia e o higienismo marginalizam ainda mais essas pessoas. Através das políticas higienistas, a população negra dos centros foi cada vez mais marginalizada e favelizada. Enquanto a eugenia, sob as bases do racismo, defendia a exclusão genética dessa população. Enfim, os mais de 300 anos de escravidão legaram à população negra um considerável peso. Ao longo do século XX, a marginalização e o racismo se tornaram ainda mais latentes, inclusive com a perseguição e censura às práticas afro-descendentes. Músicas como o samba, religiões como o candomblé e festas tradicionais chegaram a ser proibidas, por exemplo.[caption id="attachment_178510" align="alignnone" width="600"]
A realeza brasileira, com a Princesa Isabel ao centro, durante missa campal celebrando a abolição da escravidão no Brasil, em 17 de maio de 1888. Fonte: Wikipedia.[/caption]
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