Deeptechs do RN: startups que saíram do laboratório e já salvam vidas
Pesquisadores potiguares estão transformando descobertas de laboratório em produtos e empresas com impacto social e potencial comercial. No Parque Tecnológico Metrópole Digital, iniciativas como a Neuromate e a ISnano passam por incubação, recebem subvenções e hoje entregam soluções que vão desde o neuromonitoramento neonatal em tempo real até insumos nanotecnológicos derivados da biodiversidade. Esse movimento combina ciência, engenharia e mercado para resolver problemas reais do Sistema Único de Saúde e da indústria.
O que são deeptechs e por que importam
Deeptechs são startups baseadas em conhecimento científico profundo — biotecnologia, nanotecnologia, engenharia biomédica, inteligência artificial e outras áreas que dependem de pesquisa avançada. Ao contrário de ideias que escalam apenas com marketing, deeptechs exigem validação científica, infraestrutura e investimentos mais longos. O retorno, porém, tende a ser alto: produtos com maior barreira tecnológica, maior valor agregado e potencial de exportação.
Neuromate: neuromonitoramento neonatal em tempo real
A Neuromate nasceu dentro da UFRN e desenvolveu uma plataforma nacional e de baixo custo para neuromonitoramento neonatal em tempo real. Na prática, a tecnologia captura sinais elétricos do cérebro do recém-nascido (EEG), processa esses sinais e alerta a equipe clínica sobre eventos como convulsões ou padrões de risco, permitindo intervenções mais rápidas e reduzindo possibilidade de sequelas.
Componentes principais da solução:
- Hardware: sensores e interfaces robustas que funcionam em hospitais com infraestrutura limitada.
- Processamento de sinal: filtragem e detecção de artefatos para extrair informações clínicas confiáveis.
- Software e inteligência artificial: algoritmos que automatizam a detecção de padrões e geram alertas em tempo real.
O projeto se originou da colaboração entre corpo clínico da Maternidade Escola Januário Cicco e pesquisadores do Instituto do Cérebro da UFRN. Em aproximadamente seis meses a iniciativa ganhou estrutura de negócio — um exemplo de como a ciência aberta e parcerias hospital-universidade podem acelerar a transição para mercado. A Neuromate também já foi reconhecida em competições nacionais, o que ajuda na atração de recursos e parceiros.
ISnano: nanotecnologia aplicada à biodiversidade
A ISnano surgiu a partir de um grupo de pesquisa do Departamento de Farmácia da UFRN e desenvolve insumos nanotecnológicos a partir de óleos e extratos da biodiversidade brasileira. O diferencial técnico é a nanoencapsulação, que protege ativos sensíveis (como óleo de copaíba e extrato de urucum), aumenta a estabilidade contra oxidação, melhora a entrega do ativo em formulações e permite liberação controlada.
- Vantagens técnicas: maior eficácia, vida útil ampliada e possibilidade de reduzir a dose necessária do ativo.
- Aplicações: cosméticos, farmacêuticos e produtos veterinários.
- Tração: desde 2020 a empresa captou subvenções e programas de aceleração, totalizando aproximadamente R$ 1,5 milhão, e já opera com clientes e vendas recorrentes.
Os próximos passos incluem ampliar a infraestrutura de produção, otimizar logística e iniciar exportações. Para chegar lá, a ISnano precisa garantir controles de qualidade rigorosos e cumprir certificações sanitárias dos mercados-alvo.
Impacto para o Brasil
Deeptechs como Neuromate e ISnano contribuem para três frentes estratégicas: soberania tecnológica (redução da dependência de importados), tropicalização da tecnologia (adaptação ao SUS e à realidade operacional brasileira) e geração de novos mercados com alto valor agregado. Segundo o relatório Deep Tech Radar Brasil 2025, já existem centenas de empresas desse tipo no país, indicando massa crítica para formar polos regionais de inovação.
Principais desafios para escalabilidade
Transformar pesquisa em produto envolve obstáculos práticos:
- Financiamento contínuo: além de subvenções iniciais, escalar exige capital de risco ou receita estável.
- Regulação e certificação: produtos médicos e insumos cosméticos precisam passar por testes, documentação e conformidade com órgãos como ANVISA.
- Produção em escala: manter controle de qualidade (BPF/GMP) ao aumentar a capacidade produtiva.
- Proteção de propriedade intelectual: equilibrar ciência aberta com proteção comercial.
- Talento multidisciplinar: montar equipes que combinem ciências, engenharia, dados e gestão.
Parcerias com parques tecnológicos, incubadoras e programas de aceleração são mecanismos que reduzem esses riscos ao oferecer infraestrutura, mentoria e acesso a redes de mercado.
Oportunidades para estudantes e empreendedores
Quem estuda Análise e Desenvolvimento de Sistemas, engenharia biomédica, farmácia ou áreas afins encontra espaço para atuar em deeptechs. Recomendações práticas:
- Aprenda processamento de sinais, machine learning aplicado à saúde e sistemas embarcados (IoT).
- Busque experiências em projetos interdisciplinares e em incubadoras universitárias.
- Entenda requisitos regulatórios e conceitos de validação clínica.
- Desenvolva habilidades de gestão de produto e de negociação com indústrias e hospitais.
Conclusão
Os casos da Neuromate e da ISnano mostram que a combinação entre pesquisa acadêmica, incubação e políticas públicas pode gerar soluções que salvam vidas e movimentam a economia. Deeptechs exigem tempo, investimento e rigor científico, mas entregam tecnologias de alto impacto e capacidade exportadora. Se você quer entrar nesse ecossistema, investir em formação técnica e experiência prática é o primeiro passo.
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