Da pesquisa ao mercado: por que nem toda descoberta vira produto (e como mudar isso)
Transformar uma descoberta científica em uma solução comercial envolve muito mais do que publicar artigos ou registrar patentes: é preciso validar, adaptar, estruturar e, acima de tudo, articular um ecossistema que permita que a tecnologia cumpra sua função em condições reais. No Brasil, parques tecnológicos como o Supera Parque, em Ribeirão Preto, têm se apresentado como pontes essenciais entre laboratórios e mercado, fornecendo infraestrutura, programas de aceleração e conexões com investidores e empresas.
Por que os parques tecnológicos importam
Parques tecnológicos reduzem barreiras práticas e comportamentais. Eles oferecem desde equipamentos e laboratórios até suporte jurídico, mentoria e acesso a redes de investidores — tudo isso facilita que invenções avancem em maturidade e se aproximem de um produto comercial viável. No caso do Supera Parque, o ecossistema hoje reúne cerca de 90 empresas, com 55 startups incubadas e 35 empresas no Condomínio da Inovação, além de várias iniciativas ranqueadas nacionalmente em HealthTech e BioTech.
Entenda os níveis de maturidade tecnológica (TRLs)
Uma maneira prática de mapear a jornada da pesquisa ao mercado é usar os Technology Readiness Levels (TRLs), que indicam o quão próxima a tecnologia está da aplicação real:
- TRL 1–3: descoberta e prova de conceito em laboratório.
- TRL 4–6: desenvolvimento de protótipos e validação em ambientes relevantes.
- TRL 7–9: demonstração e operação em escala real, com processos industriais consolidados.
Subir esses níveis exige comprovar robustez, segurança e repetibilidade — especialmente em setores regulados, como saúde e biotecnologia, onde etapas adicionais (ensaios pré-clínicos, clínicos e certificações) são obrigatórias e custosas.
Obstáculos que não são técnicos — e como superá-los
Muitas iniciativas travam por questões que não são, estritamente, de engenharia: ausência de cultura empreendedora entre pesquisadores, desconhecimento sobre modelos de negócio, falta de estratégia regulatória, dificuldades para captar recursos e desalinhamento entre métricas acadêmicas e exigências do mercado. O desafio é combinar saber científico com competências em gestão, regulação, proteção de IP e comercialização.
Exemplo prático: Kimera Biotecnologia
A trajetória da Kimera, instalada no Supera Parque, ilustra bem esse percurso. A empresa começou usando laboratórios universitários, passou por programas de aceleração, estruturou seu P&D e, ao longo de mais de uma década, conseguiu implantar uma operação industrial própria. Esse avanço gradual mostra que a transição exige tempo, capital, mentorias e acesso a infraestrutura adequada.
Checklist prático para levar pesquisa ao mercado
Aqui estão passos concretos para pesquisadores e estudantes que querem acelerar a transformação de ideias em soluções aplicadas:
- Mapear o TRL: saiba em que estágio sua tecnologia está e quais etapas faltam.
- Validar o problema: converse com potenciais usuários e clientes para confirmar a relevância do problema que você resolve.
- Proteger o IP: registre patentes e documente know‑how quando apropriado.
- Buscar ambientes de apoio: incubadoras, parques tecnológicos e aceleradoras oferecem infraestrutura e networking.
- Planejar regulação e qualidade: envolva especialistas regulatórios cedo, sobretudo em HealthTech/BioTech.
- Construir um MVP relevante: pilote em ambiente real com parceiros industriais ou institucionais.
- Modelar o negócio: teste hipóteses de receita, custo e canais de distribuição.
- Planejar escala: pense em produção, cadeia de suprimentos e parceiros desde fases iniciais.
- Buscar financiamento adequado: edições, fundos, investidores-anjo e VC em diferentes momentos.
- Desenvolver competências complementares: gestão, regulação, pitch e vendas são tão importantes quanto a técnica.
Onde Sistemas de Informação entra
Profissionais formados em Sistemas de Informação têm papel estratégico nesses ecossistemas: conectam software e processos, estruturam pipelines de dados, implementam integrações entre dispositivos e sistemas, garantem segurança da informação e apoiam a automação de processos industriais e clínicos. Para projetos em HealthTech e BioTech, conhecimentos em DevOps, interoperabilidade e modelagem de processos são diferenciais que aproximam a solução do uso real.
Impacto sistêmico
Quando pesquisas chegam ao mercado, geram empregos qualificados, fortalecem a base tecnológica nacional e reduzem dependência de importações. Ambientes como o Supera Parque potencializam esses efeitos ao reunir infraestrutura, apoio regulatório, mentoria e conexão com a indústria.
Conclusão
Levar uma pesquisa ao mercado é um processo multidimensional que exige maturidade tecnológica, suporte institucional, visão de negócio e competências complementares. Casos como o da Kimera mostram que o caminho é possível — mas exige estratégia, tempo e redes de apoio. Se você quer transformar sua pesquisa em solução real, desenvolva tanto a excelência técnica quanto habilidades empreendedoras e regulatórias.
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