Bolsa Família não afasta mulheres do mercado, mas cuidado pesa — FMI revela por quê
Um estudo do Fundo Monetário Internacional (FMI) conclui que o programa Bolsa Família, por si só, não reduz de forma sistemática a participação das mulheres no mercado de trabalho. A análise, baseada em microdados da PNAD-Contínua (IBGE), mostra que fatores estruturais — sobretudo a sobrecarga de tarefas de cuidado não remunerado e a desigualdade salarial — explicam boa parte da menor participação feminina na força de trabalho.
O que diz o estudo do FMI
Segundo o levantamento, das 18,84 milhões de famílias atendidas em fevereiro, cerca de 84,38% são chefiadas por mulheres, o que indica que são majoritariamente elas que administram os recursos do benefício. O FMI estima ainda que reduzir a diferença de participação entre homens e mulheres (por exemplo, de 20 para 10 pontos percentuais até 2033) poderia elevar o crescimento anual do Brasil em aproximadamente 0,5 ponto percentual durante esse período — um ganho macroeconômico relevante.
A pesquisa controla variáveis como idade, escolaridade, raça, setor e cargo, e conclui que não há evidência robusta de que a transferência de renda do Bolsa Família desencoraje sistematicamente as mulheres a buscar trabalho. Em outras palavras: o benefício não é a causa principal da menor presença feminina no mercado de trabalho.
Economia do cuidado: a barreira central
O conceito de ‘‘economia do cuidado’’ reúne tarefas domésticas e de cuidado de pessoas (crianças, idosos e dependentes) que são, em grande parte, não remuneradas. No Brasil, estudos apontam que as mulheres dedicam em média 9,8 horas a mais por semana a esse tipo de trabalho em comparação com os homens. Entre mulheres negras, essa diferença chega a 22,4 horas semanais.
Essa sobrecarga tem consequências práticas: pesquisas indicam que cerca de 50% das mulheres deixam o mercado de trabalho até dois anos após o nascimento do primeiro filho. Ao mesmo tempo, a disparidade salarial persistente — em torno de 22% a menos para mulheres quando se controlam fatores ocupacionais — reduz o retorno esperado do trabalho remunerado, tornando menos atrativa a combinação entre emprego e responsabilidades de cuidado.
Evidências complementares: Ipea e PNAD
Levantamentos do Ipea, com base na PNAD-Contínua, avaliaram o impacto do aumento do valor mínimo do Bolsa Família (implementado a partir de 2023) e não identificaram migração em massa do emprego formal para a informalidade por conta do reajuste. Ainda assim, 34,4% das pessoas que saíram da força de trabalho relataram como principal motivo a necessidade de cuidar de filhos ou de outros parentes.
Esses resultados reforçam a interpretação de que o problema não é a renda de transferência em si, mas a ausência de serviços e políticas que reduzam o custo do cuidado para as famílias, especialmente para as mulheres que são responsáveis por grande parte dessa tarefa.
Medidas que tendem a ampliar a participação feminina
- Expansão de serviços de cuidado: creches e centros de atendimento a idosos acessíveis e de qualidade diminuem a carga de tempo das cuidadoras e aumentam a disponibilidade para o trabalho remunerado.
- Licença parental mais equilibrada: políticas que incentivem o compartilhamento da licença entre pais e mães ajudam a redistribuir a responsabilidade de cuidado.
- Igualdade salarial e transparência: fiscalização mais rigorosa da Lei da Igualdade Salarial e políticas de transparência podem reduzir a diferença de remuneração entre gêneros.
- Integração entre transferência e inclusão produtiva: combinar benefícios com políticas ativas de emprego (capacitação, horários flexíveis, busca ativa) torna a transição para o trabalho mais viável.
- Investimento na economia do cuidado como setor: criar empregos formais no setor de cuidado pode simultaneamente gerar renda e aliviar a carga não remunerada.
Implicações para gestão e políticas públicas
Para gestores públicos e profissionais de recursos humanos, a mensagem é clara: políticas de transferência de renda e medidas de inclusão produtiva devem caminhar juntas. Desenhos que considerem a disponibilidade de serviços de cuidado, jornada flexível, e incentivos para corresponsabilidade dentro de casa tendem a ser mais eficazes para aumentar a oferta de trabalho feminino e reduzir desigualdades.
Conclusão
O diagnóstico do FMI e de pesquisas nacionais indica que o Bolsa Família não é, por si só, um fator que afasta mulheres do mercado de trabalho. O que efetivamente limita a participação feminina são a economia do cuidado e a desigualdade salarial. Investir em creches, assistência a idosos, políticas de licença parental compartilhada e mecanismos que garantam salários justos é uma estratégia que combina justiça social e crescimento econômico.
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