— Vejo, disse ele com algum acanhamento, que o doutor não é nenhum pé-rapado, mas nunca é bom facilitar… Minha filha Nocência fez 18 anos pelo Natal, e é rapariga que pela feição parece moça de cidade, muito ariscazinha de modos, mas bonita e boa deveras… Coitada, foi criada sem mãe, e aqui nestes fundões. […]
— Ora muito que bem, continuou Pereira caindo aos poucos na habitual garrulice, quando vi a menina tomar corpo, tratei logo de casá-la.
— Ah! é casada? perguntou Cirino.
— Isto é, é e não é. A coisa está apalavrada. Por aqui costuma labutar no costeio do gado para São Paulo um homem de mão- cheia, que talvez o sr. conheça… o Manecão Doca…
— Não, respondeu Cirino abanando a cabeça.
— Pois isso é um homem às direitas, desempenado e trabucador
como ele só… fura estes sertões todos e vem tangendo pontes de
gado que metem pasmo. Também dizem que tem bichado muito
e ajuntado cobre grosso, o que é possível, porque não é gastador
nem dado a mulheres. Uma feita que estava aqui de pousada…
olhe, mesmo neste lugar onde estava mecê inda agorinha, falei-lhe
em casamento… isto é, dei-lhe uns toques… porque os pais devem
tomar isso a si para bem de suas famílias; não acha?
— Boa dúvida, aprovou Cirino, dou-lhe toda a razão; era
do seu dever.
TAUNAY, A. d’E. Inocência. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br.
Acesso em: 29 fev. 2024.
Apesar do protagonismo da mulher na obra, neste trecho específico, nota-se o apagamento de Inocência, que é descrita com base em atributos físicos, de modo decorativo. Tal traço é comum no contexto romântico, fundamentado na idealização da mulher.