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Redação Exemplar

Caminhos para combater a intolerância religiosa no Brasil

Complexo de Narciso

Em seu “Tratado sobre a tolerância”, Voltaire expõe o caso de Jean Calas, um calvinista condenado à morte pela maioria católica de Toulouse, na França, acusado de ter assassinado o próprio filho, que pretendia se converter ao catolicismo. Diante disso, o filósofo afirma que “é preciso olhar todos os homens como os nossos irmãos”. Em 2016, o problema não é diferente: saindo de um terreiro no Rio de Janeiro, uma menina de onze anos foi atingida por uma pedra, vítima, também, de preconceito. Apesar das inúmeras medidas lançadas para tratar o problema, percebe-se um claro desafio no combate à intolerância religiosa no Brasil. Nesse sentido, é necessário entender como isso se construiu a fim de apontar intervenções que resolvam o problema que, aqui, é caso de empatia.

Antes de tudo, é crucial observar como o contexto de discriminação vivido hoje começou a tomar forma. Já na chegada dos portugueses, no século XVI, a imposição do catolicismo sobre as diferentes crenças dos nativos comprova que o problema não é de hoje. No período de colonização, o sentimento também fazia parte da relação entre os senhores e escravizados: a música “Sinhá”, de Chico Buarque, por exemplo, conta a história de um negro que, acusado de ter visto sua senhora tomando banho no rio, implora pela sua vida em iorubá, mas ora por Jesus, confirmando a imposição de um modelo religioso que, no Brasil, domina a população há muitos anos.

Além disso, cabe apontar o que já tem sido feito com relação ao problema. Além da Constituição de 1988, que consagra a liberdade religiosa e de culto como direitos fundamentais, 20 anos depois, umbandistas e candomblecistas criaram a Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, no Rio de Janeiro, que reúne representantes de todas as manifestações e busca formular medidas, a nível nacional, que impeçam o crime. Com a participação da Polícia Civil, o sistema de registro de ocorrências carioca foi atualizado, prevendo pena, também, para os atos relacionados ao assunto, por meio da Lei Caó. Isso comprova a existência de medidas que buscam resolver o problema, mas mostra, também, pela necessidade de novas propostas, que a questão se arrasta até hoje no país.

É evidente, portanto, que, apesar das muitas propostas, a situação ainda é crítica atualmente, sendo necessários novos projetos para resolvê-la. Em primeiro lugar, por meio de mais cartilhas e campanhas de conscientização, o poder público, em parceria com a mídia, pode trabalhar a questão nas escolas e canais de comunicação, investindo na chamada “cultura da paz”, de Paulo Freire. As próprias instituições de ensino podem promover palestras e seminários, abordando a diversidade de religiões e fiscalizando qualquer ação preconceituosa em seu ambiente. Por fim, ONGs que levantam a bandeira da tolerância podem levar o assunto a locais coletivos, debatendo o valor de o Brasil deixar de achar feio o que não é espelho, como o Narciso de Caetano Veloso, e passar a respeitar a expressão do outro, como nos ensinou Voltaire.

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