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Cidade ideal

A professora Larissa Rocha fala sobre Política Platônica. Confira!

Justiça

Divisão social

Sofocracia

Formas de governo

Política platônica

A República e o projeto político de Platão

Em sua obra A República, Platão nos apresenta a cidade ideal (Calípolis). É precisamente nesse diálogo que ele desenvolve, de maneira completa e bem acabada, o seu projeto político. Embora a Teoria das ideias, que também se desenvolve no diálogo A República, sirva como o eixo central que sustenta todo o pensamento platônico, para pensar estritamente a sua concepção política nos ocuparemos de duas noções fundamentais, a saber, a definição de justiça e a importância da educação na cidade justa. 

O primeiro debate se inicia na casa de Céfalo, onde ele e Sócrates discorrem sobre os bens e os males da velhice. Para Céfalo, homem financeiramente bem estabelecido, o período que corresponde à velhice é muito bom já que, livre das paixões, ele pode se dedicar ao estudo e à filosofia, bem como oferecer muitos sacrifícios aos deuses. A primeira indagação de Sócrates a esse repeito é: “o que faz uma vida justa, o fato de ter ganho dinheiro ou a vida justa antecede qualquer outro bem? De modo, que o melhor seria viver de maneira adequada, isto é, virtuosa”. Note-se que aqui a ideia de justiça é entendida como uma síntese de todas as virtudes. A partir daí temos o fio condutor que servirá de base para o desenvolvimento de todo o diálogo, qual seja, a definição da ideia de Justiça.

Ao longo do Livro I, diversas respostas são apresentadas para a pergunta o que é a justiça. Céfalo propõe a seguinte definição: "justiça é dar a cada um o que lhe pertence", Sócrates aceita essa primeira definição, mas a questiona mais ou menos nos seguinte sentido: Se eu tenho um amigo que não está bem, isto é, que não dispõe de suas faculdades mentais, porém ele me emprestou uma arma e a pede de volta. Sabendo que de posse da arma ele poderá fazer mal a si ou a outra pessoa, é justo, nesse caso, que eu lhe restitua a arma, isto é, lhe dê o que lhe é próprio?". Dando-se conta de que essa não  pode ser a definição de justiça, pois não se aplica a todos os casos, Céfalo se retira e dá a palavra a Polemarco, seu herdeiro.

Para Polemarco,  “justiça é fazer bem aos amigos e mal aos inimigos", Sócrates refuta também essa definição dizendo: "fazer o mal nunca é compatível com a ideia de justiça." Nesse momento, o sofista Trasímaco, irritado, toma parte no diálogo dizendo: "justiça é a conveniência do mais forte". Note-se que nessa definição a justiça não se relaciona com o bem em si, mas é uma produção, uma convenção humana, exercida pelo mais forte, conforme a ocasião. Sócrates então apresenta o exemplo de um homem muito forte, lutador de pancratio (uma espécie de vale-tudo), que é capaz de devorar um boi por dia e diz: "se a justiça é a conveniência do mais forte, nós seremos justos se também devoramos um boi por dia".

Trasímaco, ainda mais irritado, propõe uma nova definição: "justiça é, não apenas a conveniência do mais forte, mas a máxima conveniência. Ou seja, ser injusto, mas parecer justo, pois a vida do injusto é sempre melhor". Para Trasímaco, todas as atividades humanas são realizadas visando a utilidade, assim, o médico cuida do paciente porque quer ganhar dinheiro, não por se preocupar com a saúde, o mesmo acontece com o pastor que cuida das ovelhas para tosquiá-las. Ao que Sócrates refuta dizendo: cada atividade cumpre uma finalidade própria, a medicina visa a saúde e o pastoreio visa o bem das ovelhas". Nessa perspectiva, o bem é a realização de uma finalidade que já está inscrita na própria atividade, sendo a arte de ganhar dinheiro uma outra arte.

No livro II, apenas Glauco e Adimanto continuam o diálogo com Sócrates. Glauco provoca Sócrates fazendo uma apologia (defesa) da injustiça. Diz ele: "a experiência nos mostra que as pessoas que agem segundo a sua própria conveniência são sempre bem-sucedidas. Além disso, nós não somos justos por natureza, mas sim por sermos coagidos." Para ilustrar a sua tese, Glauco narra o primeiro mito de A República, conhecido como o mito do Anel de Giges. Conta-se que Giges era um pastor, que após um terremoto, encontrou, numa das fendas abertas na terra, o cadáver de um homem que usava um belíssimo anel. De posse do Anel, Giges percebeu que, ao girá-lo no dedo, ele lhe conferia o poder da invisibilidade. Invisível, ele armou um plano para seduzir a rainha, de modo que ambos terminam por assassinar o rei. Assim, Giges se torna o maior tirano da região. Glauco conclui, portanto: "se todos nós tivessemos o poder de Giges, agiríamos da mesma maneira". Ao que Sócrates responde dizendo: "é necessário ler em letras grandes, para depois entender as letras pequenas". Ou seja, para definir o que é a justiça na alma do homem, é preciso definir o que é a justiça num plano mais amplo, a cidade.   

Segundo eles, os homens formam a cidade para satisfazer as suas necessidades básicas. A cidade justa é, portanto, constituída por três classes: a classe dos artesãos e comerciantes (responsáveis pela produção dos bens materiais, bem como de tudo o que é necessário à manutenção da cidade); a classe dos guerreiros (responsáveis pela defesa da cidade, seja de ataques externos, seja de conflitos internos) e, por fim, a classe dos guardiões (ou magistrados, a depender da tradução), responsáveis pelo governo da cidade, bem como pela elaboração das leis. 

Passa-se então à discussão acerca de como deve ser a educação nessa cidade. Note-se que a educação é fundamentada em dois pilares: a ginástica e a música ("musiqué" se refere às artes das musas e engloba não só o canto e a harmonia, mas também a poesia). Vale lembrar que a poesia é a base educacional no contexto em que vivia Platão. É pela poesia que as crianças aprendem a ler, bem como aprendem os mais diversos mitos da tradição. É aqui que surge a primeira crítica platônica à poesia. Para Platão, a poesia tal como era ensinada no seu tempo não poderia fazer parte da cidade justa, pois os deuses são apresentados como modelos para os jovens, porém esses modelos, nas poesias de Homero e Hesíodo, são ambíguos, ora são deuses, ora agem de maneira passional, isto é, se vingam, traem, seduzem etc. Por isso, é necessário reformar ou banir a poesia da cidade.  A segunda crítica é de natureza ontológica, isto é, referente à realidade do ser e se estende à arte de modo geral. De acordo com Platão, o artista faz cópias das coisas do mundo sensível, que já são cópias do mundo inteligível.  Portanto, a arte está a três graus de distância da Verdade.

Os livros III e IV aprofundam a discussão acerca da cidade ideal, até que Sócrates possa finalmente definir a justiça: “a justiça é a harmonia entre as partes da cidade, cada qual cumprindo a sua função”. Nesse sentido, a função é dada pela aptidão de cada cidadão ao exercer as suas tarefas na cidade. Desse modo, assim como a cidade é dividida em três classes, a alma do homem também tem três partes, são elas: a parte apetitiva ou concupiscente (alma de bronze, relativa à classe dos artesãos e comerciantes), a parte irascível ou impetuosa (alma de prata, relativa à classe dos guerreiros) e a parte racional (alma de ouro, relativa à classe dos guardiões). Disso decorre que a justiça na alma também corresponde a uma harmonia entre as partes, preservando-se a ideia de que a razão realiza uma função de comando, de coordenação e de educação das outras partes.

Nesse ponto, os interlocutores de Sócrates percebem que muitas coisas ficaram para trás e passam a discutir sobre três problemas fundamentais para a cidade, conhecidos como três ondas. A primeira onda diz respeito à comunhão de bens entre os governantes, onde se estabelece que os governantes não devem ter nem propriedade privada, nem família. A segunda onda, diz respeito à igualdade entre homens e mulheres no que se refere tanto ao governo da cidade quanto à participação na guerra, onde se estabelece que ambos podem exercer as duas funções. A terceira onda, diz respeito à seguinte frase de Sócrates: "a cidade não será justa enquanto os reis não forem filósofos ou os filósofos não forem reis", onde se estabelece a chamada sofocracia, isto é, o governo dos sábios. Dessa perspectiva, aquele que tem aptidão para governar deve receber uma educação adequada para tal. Essa educação só pode ser uma educação filosófica, porque só a filosofia capacita o governante a contemplar a ideia do Bem, que é a ideia máxima no plano das ideias.