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Ser mulher e estudar no Brasil (ainda) é complicado

Educação no Brasil é uma parada muito complexa. E eu explico isso em números: por aqui, mais de 1 milhão de mulheres entre 15 e 29 anos não trabalham, não estudam, não têm nenhuma atividade remunerada. Não preciso ir muito longe para explicar, né? Isso não significa que essas mulheres estejam dentro de casa, sem fazer nada, de pernas para o ar. O trabalho doméstico não-remunerado, que é esse cuidado com filhos, irmãos e outros parentes, ocupa muito tempo. O estudo também fica em segundo plano diante da realidade da pobreza: a questão é “por que estudar se preciso trabalhar?”. E, tenho certeza, você já questionou isso. dia da mulher - descomplica social

Ser pobre e estudar no Brasil é muito difícil, independentemente de gênero. Mas quando mergulhamos nas diferenças entre homens e mulheres, vemos que as realidades impostas a cada um são terríveis, mas hoje, pela agenda da semana, destaco essa barra que é ser mulher e querer estudar. 

Uma pesquisa recente mostra que, na proporção, o grupo de mulheres entre 15 e 29 anos que deixaram a escola e têm filhos tem quase o dobro de pontos percentuais em relação àquele que não têm filhos. E aqui nós vamos incluir várias dificuldades: falta de creches públicas, educação inacessível para todos, faltas de vagas em boas escolas públicas. Diante disso tudo, como ter ânimo para encarar os estudos, a vida? E lá vamos nós, quietinhas, dentro de casa, sem ser alçadas ao futuro.

Há também outro problema, que não é da ordem do estar na escola mas do que fazer na escola. Ainda há muitos estereótipos de gênero em torno do que mulheres podem ou não fazer. Estudar Física? Estranho. Matemática? Difícil. Mulher, via de regra, tem que “ser de humanas” e olhe lá. Essa é uma dificuldade cruel, porque delimita o querer, o desejo, o saber. E se eu for apaixonada por números? Decidir pelo outro, tutelar o outro, ou melhor, a outra, se impõe como uma das complicações que saltam aos nossos olhos.

As engenharias, as tecnologias e as exatas se mantêm hostis às mulheres. E não é a hostilidade um fator de afastamento? Acho que o 8 de março suscita várias reflexões nesse sentido, e a reflexão não vale muito sem proposição. O que eu tenho tentado fazer com as meninas mais jovens, e até crianças, à minha volta é incentivar. As potencialidades têm de ser exploradas, expostas, faladas. Uma pequena criança que gosta de números? Ótimos, temos talvez uma futura matemática. Por que não?

A educação tem que ser ampla, universal e, sempre que possível, gratuita. Isso inclui, portanto, estar disponível com a mesma gama de possibilidades a todos os gêneros, todas as cores, todas as idades, todas as pessoas. E em todos os níveis de hierarquia.

A educação não é só sala de aula, mas também é pesquisa. Nas principais etapas da carreira científica no Brasil, mulheres são maioria na base da pirâmide, mas conforme os degraus vão aumentando, com mais valor, a quantidade de mulheres vai diminuindo. Na graduação, elas são maioria, bem como no mestrado. Mas no doutorado, a proporção em relação aos homens já é mesma. Docência universitária, liderança de grupo de pesquisa e bolsa de produtividade: liderados por eles.

Parece que os dados da educação do Brasil mostram que às mulheres está reservado sempre menos.

E como a gente pode mudar isso? A insistência, a cobrança de boas políticas públicas direcionadas a esse grupo demográfico, criar rede de apoio para aquelas que estão à nossa volta e, principalmente, não partir do princípio que a vida do lado é igual a sua. Se você irá fazer algo neste dia da mulher, reflita junto com a gente: estamos indo rumo a uma educação mais equânime?

Assinatura_Lola_Ferreira

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Tenho 20 anos e trabalho a 2 anos , a 3 venho tentando vaga em uma faculdade pública . Não gosto de pensar quem é o culpado pela possibilidade quase zero de entrar na faculdade que quero . Sei que preciso trabalhar pois gosto e acima de tudo necessito para completar a renda de casa e agora com meu pai desempregado . A última coisa que penso é em desistir , posso ter dias de falhas , de frustações, de ansiedade . Acho que para mim o mais difícil é ter que respeitar o meu limite , ter que chegar em casa e saber se realmente estou cansada , se ainda aguento algumas horinhas de estudo , só para não perder o dia .

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