Modelo de Redação: Adaptação de clássicos no Brasil: é válido facilitar?
Sabe aquele tema de redação que nós indicamos para você no Plano de Estudos da Semana 2? Ele virou um modelo de redação aqui no blog, feito pelo monitor Bernardo Soares, para você se inspirar e comparar com a sua própria redação. Confira!
Veja aqui a coletânea de textos completa para este tema: A questão das adaptações de clássicos no Brasil: é válido facilitar?
Facilitar é o primeiro passo
No livro “A ordem do discurso”, ao apontar “Odisseia”, de Homero, em uma de suas explicações acerca da construção desse discurso, Michel Foucault o apresenta como o “texto primeiro”, o original, de onde partem outras versões que o autor chama de comentários, fieis à essência do primeiro da linhagem. Hoje muito comuns, essas adaptações despertam amor e ódio por parte de estudiosos e leitores. Diante de opiniões positivas e negativas, a discussão toma outro rumo: em prol do interesse por parte dos alunos e da manutenção dos clássicos na agenda das escolas, é válido pensar nas adaptações como um passo para a apresentação dos textos primitivos em sala de aula.
Em um primeiro plano, é válido analisar a opinião daqueles que chegam a criminalizar outras versões das obras. De acordo com esses críticos, considerados puristas, as mudanças trazem perdas na essência da história, além de transformações no ritmo e nas palavras do livro. Uma vez que alguém pretende adaptar um texto, é fato que o vocabulário e o andamento obedecerão a determinado contexto, entretanto, buscando encanto por parte dos alunos – que, em sua maioria, têm aversão ao que é mais antigo –, essa pode ser uma estratégia interessante. Um exemplo claro disso está em “Ciumento de carteirinha”, versão de Moacyr Scliar para “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, muito recomendado para leitura em escolas.
Nesse contexto de busca de um atrativo, há quem sustente a ideia de que essas mudanças são válidas e não tiram o valor das obras originais. Muitas das novas versões são apresentadas com outras narrativas, mantendo apenas a ideia original, como é o caso do livro de Scliar. Ao ver dos que apoiam a estratégia, a série é tão legítima quanto adaptações feitas por grandes nomes, como o próprio Machado de Assis, que traduziu – e, no processo de tradução, trouxe para a obra a sua essência – “O corvo”, de Edgar Allan Poe. Diante disso, é importante considerar a facilitação como uma forma de levar a atenção dos estudantes até os originais. Conhecendo a história, a sequência dos fatos, a linguagem pode não ser mais um fator de repulsão.
Torna-se evidente, portanto, que, a fim de evitar esse impasse, conciliar as duas posições é o melhor caminho. Assim, para apresentar as adaptações como um passo para os clássicos, governo e escolas, em parceria, podem promover palestras desses adaptadores, de forma que mostrem a verdadeira inspiração para seus livros. Além disso, a mídia, inserida nessa parceria, pode trabalhar campanhas que mostrem texto primeiro e revisitado, de forma que tal conexão também seja feita pelos leitores. Só assim, facilitando e abrindo portas para o mais complexo, a associação feita por Foucault em 1970, destacando a fidelidade entre obra original e comentário, poderá se aplicar aos dias atuais.



Camila 


