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Como aplicar a dialética em uma redação do vestibular?

No último post, falamos um pouco sobre os métodos de dedução e indução. De fato, precisamos de maneiras de organizar o raciocínio, de forma que nossa redação do vestibular fique bem clara, objetiva. Os métodos de raciocínio são, então, uma fonte de construção de pensamento muito valiosa para o nosso trabalho na Redação. Porém, nem tudo são flores: nem sempre podemos organizar a nossa cabeça apenas por métodos com premissas e evidências. Às vezes, é preciso chegar mais longe, e o método dialético consegue dar conta do recado. Vamos falar dele hoje?

Dialética

A dialética e o princípio de não-contradição das afirmações

O raciocínio dialético é um pouco mais complicado, mas garante uma redação muito bem vista pelos corretores. Funciona como uma evolução da lógica dos raciocínios indutivo e dedutivo.

Aristóteles, quando construiu o raciocínio indutivo apresentado anteriormente, criou um princípio de não-contradição das afirmações, ou seja, para o filósofo, só se poderia chegar a uma conclusão de ordem lógica se as afirmações não fossem contraditórias. Por exemplo: se alguém diz que uma casa é amarela e não é amarela ao mesmo tempo, a única conclusão possível é que esse objeto não existe. Dito de outro modo, seria considerada uma falha do raciocínio a afirmação e a negação de um mesmo elemento.

Porém, vivemos em um mundo um pouco mais complexo, onde as coisas não só são e não são e, por isso, esse princípio acaba se tornando um pouco mais complicado de ser afirmado. Por exemplo, em um tema de redação onde se pergunte se as adaptações de clássicos no Brasil são válidas ou não, é muito comum encontrar benefícios e prejuízos na sua aplicação – é muito comum, então, encontrarmos opiniões favoráveis e contrárias à proposta. Percebe-se, então, que as coisas, às vezes, podem ser e não ser ao mesmo tempo. Dessa forma, a dedução, a indução e a não-contradição se tornam limitantes do raciocínio humano, sendo necessário o método dialético.

Aristóteles

Apesar da grande ajuda de Aristóteles na organização do pensamento, se precisamos falar de dualidades, é necessário que haja uma evolução nesses métodos.

A palavra dialético deriva de aptidão para falar de dualidades, ou seja, contradições. Diferentemente da indução e da dedução, a dialética não se baseia em evidências ou premissas, mas em três elementos muito importantes: a tese, a antítese, elemento oposto, contraditório, e a síntese, momento em que se associa as duas afirmações de forma que se possa falar da contradição. Vamos ver um exemplo? O tema é “A influência da TV na sociedade brasileira do século XXI”:

É fácil perceber que os efeitos negativos da televisão nascem na difusão de valores como o individualismo e a violência, veiculados por imagens a que estão submetidas muitas pessoas sem senso crítico. Paradoxalmente, esse mesmo meio de comunicação de massa permite um contato com o mundo distante, permitindo ao público ter acesso ao poder da informação. Na verdade, a discussão sobre a influência da TV só fará sentido se for considerado o uso que cada telespectador faz do veículo, o que depende de sua formação prévia, e não do que é reproduzido.

Note que o tema trata de dois lados da discussão acerca da influência da televisão na sociedade. Por um lado, podemos identificar a difusão de valores negativos, que podem ser prejudiciais (tese). Entretanto, há também um lado positivo que precisa ser levado em conta (antítese). Dessa forma, a discussão se desloca, um impasse é superado: a discussão, aqui, não é sobre o que é veiculado nesse meio, mas sobre o uso que se faz dele (síntese). Viu como é simples? 🙂

 

Vantagens e desvantagens do raciocínio dialético

Como vantagens do uso do método dialético, podemos destacar, então, superação de um impasse argumentativo e o aprofundamento do argumento, que vai além da discussão míope dos benefícios e prejuízos de alguma coisa, por exemplo. Isso mostra que o aluno sabe trabalhar bem os dois lados de uma discussão, o que é muito bem visto pelas bancas de vestibular. Por outro lado, a desvantagem é a dificuldade de construção da síntese, de forma que, se inadequada ou ineficaz, o aluno tende a ficar “em cima do muro”. A fim de evitar tal problema, falaremos, então, de dois tipos de síntese que podem te ajudar a não ter problemas e superar esse impasse com louvor! 🙂 Vamos?

 

A síntese conciliadora

O primeiro tipo de síntese é a conciliadora que, como o próprio nome diz, traz harmonia, associação aos elementos que, a princípio, são contraditórios. Na discussão da TV, podemos, por exemplo, concluir que tudo depende do veículo e do programa em questão, afinal, a TV é um meio com múltiplos usos, alguns positivos, outros negativos. Esse seria um exemplo de síntese conciliadora, onde esclarecemos os termos, mostrando que, de certa forma, não há uma contradição no que está sendo apresentado. Podemos, também, nessa síntese, deslocar a questão, como uma “fuga” à discussão anterior, o que fica muito claro no parágrafo que vimos anteriormente sobre o mesmo tema.

A síntese conciliadora pode apresentar opiniões que, a princípio, são contraditórias, chegando a uma conclusão que concilia as duas ideias!

A síntese reafirmadora

Já a síntese reafirmadora, o segundo tipo, reafirma a tese apresentada, destruindo o argumento antitético. Dessa forma, apresenta- se um argumento, tenta-se contestar tal argumento com a antítese e, por fim, usa-se a síntese para reafirmar e convencer o leitor da invalidez da antítese. Vamos ver um exemplo?

Em primeiro lugar, deve-se ressaltar que o investimento em educação é fundamental para o nosso país, pois constitui a principal base para o desenvolvimento. Há quem sustente, no entanto, que a “chave” para o sucesso está na escolha de bons administradores como governantes. Os defensores dessa ideia parecem se esquecer de que, por mais capacitada que seja a autoridade governante, o verdadeiro desenvolvimento só ocorrerá com indivíduos realmente qualificados em todos os setores. Esse ideal, somente a educação de qualidade permitiria atingir. 

No exemplo, podemos perceber facilmente os três elementos do raciocínio:

Tese: O investimento em educação é fundamental para o nosso país, pois constitui a principal base para o desenvolvimento.

Antítese: Não é a educação, mas a escolha de bons administradores como governantes que permite o desenvolvimento.

Síntese (reafirmadora): Ainda que o governante seja competente, o verdadeiro desenvolvimento só virá de indivíduos qualificados em todos os setores – o que só pode ser atingido com boa educação.

A síntese reafirmadora, então, destrói o argumento antitético e reforça a tese, ou seja, o ponto de vista do autor do texto.

É muita coisa, eu sei. Se você treinar, porém, tudo fica muito natural, acredite. Assista às monitorias, aos Aquecimentos de Redação, às aulas ao vivo e nada vai ser tão fácil! Confie em mim. Vamos treinar o método com uma redação? Antes disso, dê uma olhada no exercício de revisão do assunto!

Bom texto e bom 1000!

 

Exercício

1. No nosso blog, disponibilizamos duas redações exemplares construídas com o uso do método dialético. Como você sabe, utilizamos a dialética para falar de contradições, dualidades. Com base no resumo que você já leu, analise os dois textos e identifique, em cada um, os elementos da dialética apresentados – e o tipo de síntese, conciliadora ou reafirmadora.

Redação 1: A questão das adaptações de clássicos no Brasil: é válido facilitar?

Redação 2: A redução da maioridade penal e seus efeitos em discussão no Brasil

VEJA COMO RESOLVER PASSO-A-PASSO ESTA QUESTÃO!