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Resenha de 5 obras Machadianas

Você já sabe que Machado de Assis é um dos autores mais cobrados pelos vestibulares do Brasil. Para ajudá-lo ainda mais, selecionamos cinco obras machadianas e produzimos pequenas resenhas sobre elas, que, até hoje, ainda causam grande repercussão entre estudiosos, ensaístas, cronistas, amantes da leitura e você, vestibulando!

DOM CASMURRO (Romance)

A história é narrada pelo próprio personagem, Dom Casmurro, também conhecido como Bentinho durante sua infância, adolescência e uma parte de sua vida adulta. Dom Casmurro decide escrever relatos sobre a sua vida, no entanto, embora abordasse aspectos de sua infância, memórias de seu convívio familiar; as lembranças dos bons tempos, da temporada religiosa no seminário e a relação com alguns personagens secundários, o foco da história é narrar seu envolvimento amoroso com sua grande amada: Capitu.

É interessante observar o caráter persuasivo do narrador-personagem ao descrever Capitu, incitando o leitor sobre o poder sedutor e manipulador da personagem. Além disso, a leitura narra a relação dos dois, desde os tempos de infância, em que eram vizinhos, até, futuramente, a vida de casados. A história começa a entrar em seu grande ápice quando, o melhor amigo de Betinho, Escobar, morre afogado pelas águas do mar e, no funeral, começa a observar que Capitu o olhava de uma maneira diferente, olhos de uma mulher apaixonada e que lamentam uma perda irreparável, “como se quisesse tragar também o nadador da manhã.”

Quadrinho representando a cena do funeral de Escobar.

Após tamanha desconfiança, Bentinho passa a acreditar que Capitu o traía com o seu melhor amigo e fica envolve-se em um sentimento de ódio e raiva, incitando o leitor a acreditar sobre a possível traição. O protagonista fica tão possesso de suas crenças, que passa a perceber em seu filho, Ezequiel, traços de Escobar, acentuando ainda mais o seu desespero. A narrativa prolonga-se, evidenciando as suspeitas de Bentinho e, por sim, o divórcio em seu casamento com sua amada, enviando Capitu e seu filho para a Europa.

O fim da trama mostra a amargura de Bentinho, mas depois, contrasta com um sentimento de alívio e indiferença do personagem ao longo dos anos com os fatos ocorridos. Mais tarde, é apelidado de Dom Casmurro por seu caráter recluso, hostil e teimoso, que passa a adquirir com a idade e com as mágoas do passado.

MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS (Romance)

A história já se inicia com um ponto interessante, pois Brás Cubas, o narrador e principal personagem da obra explica que irá narrar alguns acontecimentos ao longo de sua vida, mas com um diferencial: como um defunto autor. Dessa forma, o posicionamento crítico e de julgamento do narrador é produzido da forma que lhe convém, sem amenizações ou receio do que os outros podem pensar, já que o protagonista se encontra morto.

Com bastante digressões temporais, Brás Cubas narra a sua vida – após retornar de seus estudos na Europa – abordando as futilidades de um jovem pertencente à classe nobre e suas relações com outros personagens. É necessário atentar-se para o modo que os outros envolvidos na trama estão apresentados, ajudando a construir o caráter de Brás Cubas. Na infância, o protagonista descreve sua personalidade agressiva e de empoderamento sobre o escravo Prudêncio, além de descrever brevemente a amizade que teve com Quincas Borba. Na adolescência, destaca-se o envolvimento amoroso com Marcela, uma prostituta de luxo, e a descrição de um relacionamento movido a interesses, como o próprio trecho da obra diz: “Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis.”

Minissérie baseada na obra “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Na foto, a prostituta Marcela e Brás Cubas.

Já na vida adulta, Brás Cubas narra seu romance adúltero com Virgília, esposa do político Lobo Neve e desmascara a hipocrisia das relações, mantidas para manter as aparências e os valores morais da sociedade. Além disso, temos a presença da personagem Nhã Loló, com quem Brás Cubas se casaria, mas essa acaba falecendo precocemente; o desprezo por Eugênia, o reencontro com Prudêncio (que se tornara senhor de escravos) e o tratamento com Dona Plácida, escrava que ajudava o protagonista a ocultar seus romances adúlteros.

Brás Cubas relata sua inserção na vida política, era um deputado, mas exercia a profissão de forma amena, sem alguma dedicação ao cargo, acomodado aos benefícios propiciados pela classe social em que estava inserido. Outro ponto significativo, é que o personagem se envolveu com projetos sociais de caridade, ações beneficentes, mesmo que, internamente, não apresentasse nenhum tipo de compaixão ou solidariedade pelos atos proferidos. É importante destacar que a narrativa é marcada pela quebra que expectativa que o narrador incita no leitor, o tom irreverente e irônico sobre as relações humanas e a mediocridade de sua vida, marcada pela arrogância e melancolia da existência vazia do próprio personagem.

MISSA DO GALO (Conto)  

O estudante Nogueira se hospeda durante uma temporada na casa do escrivão Meneses, que fora, em seu primeiro casamento, casado com uma de suas primas. Nas férias, ao invés de retomar a Mangaratiba, decide ficar na casa de Meneses para ir à Missa do Galo, na noite de Natal. Moravam na casa o escrivão, sua mulher, sua sogra e mais duas escravas.

O escrivão era casado com Conceição, uma esposa passiva e submissa às vontades do marido, de tal modo que consentia as relações extraconjugais que o marido possuía com uma amante.  Na noite natalina, o escrivão foi dormir na casa da amante e Nogueira marcou com o vizinho de irem à missa do galo. Enquanto aguardava na sala pelo horário da missa, a fim de policiar-se para não pegar no sono, Conceição aparece na sala e puxa assunto com o estudante.

A conversa, iniciada por Conceição sobre os gostos de leitura de Nogueira, desperta o interesse no jovem, que se sente estimulado a manter um contato com esta, incitando vários assuntos aleatórios, a fim de não perderem o diálogo. Ao longo da conversa, Nogueira, que antes achava a moça tão passiva e sem atrativos, começa a acha-la bonita e interessante, à medida que falavam baixinho e mais próximos um ao outro, para não acordarem a mãe de Conceição ou as escravas. A atmosfera de intimidade torna-se sazonal, num percurso de altos e baixos, que ora se soltam, ora se reprimem com o que acontece entre os dois.

O conto termina com o vizinho batendo à porta, alertando ao horário da missa do galo, de modo que interrompe com a conversa ou qualquer possibilidade de envolvimento dos personagens. Nogueira se despede e vai à missa. No dia seguinte, não houve retorno ao assunto ou do interesse da noite anterior, e Conceição volta a ser vista por Nogueira sem alguma significância. Mais tarde, o jovem narra que o escrivão havia falecido e que sua mulher se casara com outro, mas ainda, depois de tanto tempo, não consegue explicar o que aconteceu naquela noite natalina.

 

BONS DIAS! 1888-1889 (Crônica)

A crônica relata um provável homem com significativa ascensão social, concedendo a liberdade a um de seus escravos mais jovens, Pancrácio, quando uma parte da sociedade já ansiava pela Abolição da Escravatura, que só ocorreria em 13 de Maio de 1888.

Para exaltar seu feitio, o senhor promove um banquete para poucos convidados e se surpreende com a gratidão de seu escravo com o ato. No entanto, é preciso se atentar para a ironia machadiana de tal feitio e para o poder de persuasão do personagem ao conversar com seu escravo, Pancrácio. Embora seu servo tenha sido alforriado, ainda é vassalo às vontades e os mandatos de seu, então, antigo dono.

O que devemos perceber no discurso libertário do senhor de escravo é que há um falso anseio democrático em sua atitude, demonstrando a hipocrisia daqueles que defendiam a Abolição pelo oportunismo, para continuar mantendo seus escravos sobre um novo regime de trabalho, agora, assalariados, como se isso fosse um “merecimento” por sua condição de obediência àqueles que dispõem de poder e autoridade. Além disso, devemos lembrar que, após a Abolição da escravatura, não houve nenhum tipo de integração desses negros ao âmbito social, o que fez com que muitos ainda trabalhassem para seus donos, com a garantia de terem moradia e alimentação. É claro que não podemos generalizar todos os casos, mas a crônica aborda que essa liberdade é relativa.

A novela “Lado a Lado”, produzida em 2012 pela Globo, entre outras problemáticas da época, mostrava a dificuldade de inclusão do negro no âmbito social.

Outro ponto muito relevante na obra é perceber que o narrador personagem diz que seu antigo escravo, após adquirir melhores condições, se tornou professor de filosofia no Rio das Cobras. Na verdade, o que Machado de Assis deseja dizer é que a escravidão não permaneceu no passado, só está mascarada na sociedade pelo trabalho assalariado e, principalmente pela hierarquização das classes e a desigualdade social.

A CARTOMANTE (Conto)

O Conto, narrado por um narrador onisciente conta a história de um triângulo amoroso, que termina em uma grande tragédia. Vilela possui um amigo de infância, chamado Camilo e, após muitos anos esses se reencontram já na vida adulta. Vilela é casado com uma bonita mulher, chamada Rita e, com a convivência entre os amigos, a moça também se aproxima de Camilo.

A trama começa a ganhar maior intensidade quando a mãe de Camilo falece, fazendo com que Rita se tornasse mais íntima do amigo de seu marido. É interessante observar como o narrador descreve a personagem de forma sedutora, induzindo Camilo a cometer um adultério.

Observe o trecho, retirado da obra: “Rita, como uma serpente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca.”

Os dois se envolvem e vivem um intenso relacionamento amoroso, até que um dia, Camilo recebe uma carta de um anônimo, que diz saber de seu caso secreto com a mulher de Vilela. Receoso com a situação, afasta-se um pouco da amada, que sem saber do ocorrido e insegura com a relação, procura uma cartomante para saber de seu futuro com o amante. A cartomante, leva a moça na conversa e garante que seu relacionamento está bem.

No entanto, tempo depois, Camilo continua a receber cartas e, com medo, decide parar de visitar com frequência o amigo, que desconfia da atitude. O ponto significativo do ponto se encontra, quando, o amante recebe um bilhete de Vilela, pedindo para que o encontre em sua casa. Com mil suposições do assunto em sua cabeça, este que sempre foi cético a superstições ou magias, procura a cartomante para saber as possíveis intenções do bilhete do amigo. A profetisa o assegura que tudo acabará bem e o jovem vai à casa de Vilela mais confiante.

Ao chegar, o marido de Rita mostra-a morta com um tiro no chão, aterrorizando o rapaz. Antes que Camilo tentasse se manifestar com Vilela, também é morto com dois tiros de revólver.