#Resumão: Vidas Secas, de Graciliano Ramos

28/06/2017 Larissa Coelho

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“Vidas Secas” fala da vida difícil do nordeste durante a década de 1930, quando a economia do país não ia muito bem das pernas e as secas prejudicaram a população local. A linguagem é super inovadora, ninguém tinha visto nada parecido até aquele momento, e é uma marca da segunda fase do Modernismo, o Regionalismo, em que alguns autores escrevem sobre os lugares onde nasceram. Graciliano Ramos, alagoano, entrou no movimento com outros autores, como o gaúcho Érico Veríssimo e o paraibano José Lins do Rego.

Na literatura

“Vida Secas” é o primeiro trabalho do autor que é contado em terceira pessoa e usa o discurso indireto livre para explorar diferentes pontos de vista sobre a mesma realidade. A obra não segue uma ordem cronológica e seus 13 capítulos podem ser lidos individualmente. O narrador, que não sabemos quem é, conta a história  dos pensamentos de cada personagem. O livro apresenta a vida de uma família de retirantes. Pai, mãe, dois filhos e uma cachorrinha batalham contra um momento de seca terrível, que mata as chances do grupo de se fixarem no sertão para começarem uma nova vida. Isso faz com que os “infelizes” fiquem nesse ciclo de migração sem fim.

O sertão

A caatinga, lugar onde se passa “Vidas Secas”, influencia diretamente todos os aspectos do livro. A completa pobreza do ambiente faz com que Graciliano Ramos use uma linguagem seca na obra. Os personagens vivem em total miséria e, logo na primeira cena, eles haviam se alimentado de raízes durante dias. Como alguém que mal come vai conseguir falar, nem que seja o mínimo? É por isso que os personagens conversam basicamente por gestos, sons guturais e diálogos entrecortados.

Fabiano

O vaqueiro protagonista da história, por conta da pouca instrução, sofre muitas explorações no trabalho. Não pensa em mudar de vida, porque seu pai e avô foram vaqueiros, assim como seus filhos também seguirão a mesma profissão. Essa vida foi passada para ele geneticamente e isso faz com que Fabiano tenha uma postura conformista. O “bicho”, como ele mesmo se chama, é uma representação física da caatinga. A pele é seca como a terra que não vê chuva há meses, os pelos são ruivos e queimados por causa do sol à pino. Seus olhos são azuis porque refletem o céu sem nuvens. Ele apenas existe, é um produto do meio em que vive.  

A “coisificação” dos personagens

Graciliano Ramos faz uma crítica quando descreve os filhos pequenos e a cachorrinha. Nenhuma das crianças tem nome próprio. São chamadas como “menino mais velho” e “menino mais novo”. Ironicamente, o bicho de estimação, elemento que deveria ter menos importância, tem uma marca. A cachorrinha “Baleia” é a única que demonstra sentimentos. Ela é carinhosa com seus donos, cuida das crianças e fica triste quando é ignorada. Isso representa uma inversão de valores: os personagens acabam se coisificando enquanto os seres irracionais demonstram alguns traços de humanidade.

Crítica social

O autor também denuncia a sociedade daquela época. A indústria da seca, dominada pelos coronéis, explorava os marginalizados que não tinham outra opção para sobreviver a não ser topar os trabalhos que eles encontravam. Pagando menos do que o combinado e impondo condições de trabalho terríveis, o dono da fazenda tinha Fabiano em suas mãos. Em uma cena do livro, Fabiano joga uma partida de cartas com um soldado de uniforme amarelo. Vai preso por implicância do militar e, mais uma vez, sofre os abusos do poder do qual ele não consegue se defender.

Adaptação para o Cinema

“Vidas Secas” também ganhou uma adaptação para o cinema dirigida pelo cineasta Nelson Pereira dos Santos, um dos maiores representante do nosso cinema. Nelson foi um dos pioneiros do Cinema Novo, movimento cinematográfico que defendia produções de baixo custo que representassem a realidade. Além de “Vidas Secas”, também fazem parte “Rio, 40 Graus ”, do próprio Nelson, e “O Desafio”, de  Paulo Cezar Saraceni.

 

Exercícios

1. (Unicamp) Em Vidas Secas, após ter vencido as dificuldades postas no início da narrativa, Fabiano afirma:“Fabiano, você é um homem…”. Corrige-se logo depois: “Você é um bicho, Fabiano”. Em seguida, encontrando-se com a cadelinha, diz: “Você é um bicho, Baleia”. Ao chamar a si mesmo e a Baleia de “bicho”, Fabiano estabelece uma identificação com ela. Na leitura de Vidas Secas, podem-se perceber vários motivos para essa identificação. Cite dois desses motivos.

 

2. (Unicamp)  Leia o seguinte trecho do capítulo “Contas”, de Vidas Secas.

Tinha a obrigação de trabalhar para os outros, naturalmente, conhecia do seu lugar. Bem. Nascera com esse destino, ninguém tinha culpa de ele haver nascido com um destino ruim. Que fazer? Podia mudar a sorte? Se lhe dissessem que era possível melhorar de situação, espantar-se-ia. (…) Era a sina. O pai vivera assim, o avô também. E para trás não existia família. Cortar mandacaru, ensebar látegos – aquilo estava no sangue. Conformava-se, não pretendia mais nada. Se lhe dessem o que era dele, estava certo. Não davam. Era um desgraçado, era como um cachorro, só recebia ossos. Por que seria que os homens ricos ainda lhe tomavam uma parte dos ossos? Fazia até nojo pessoas importantes se ocuparem com semelhantes porcarias.

(Graciliano Ramos, Vidas Secas. 103ª. ed., Rio de Janeiro: Editora Record, 2007, p.97.)

a) Que visão Fabiano tem de sua própria condição? Justifique.
b) Explique a referência que ele faz aos “homens ricos” com base no enredo do livro.

3. Leia as afirmações abaixo e responda ao que se pede:

(I) A dureza do clima, que se manifesta principalmente nas grandes secas periódicas, explica todas as aflições de Fabiano, ao longo da narrativa de Vidas secas, de Graciliano Ramos.

(II) Apesar de quase atrofiadas na sua rusticidade, as personagens de Vidas secas, de Graciliano Ramos, conservam um filete de investigação da interioridade: cada uma delas se perscruta, reflete, tenta compreender a si e ao mundo, ajustando-o à sua visão.

a) Você concorda com a afirmação (I)? Justifique sucintamente sua resposta.
b) Você considera essa afirmação (II) correta? Justifique brevemente sua resposta.

4.  (FUVEST) Um escritor classificou Vidas secas como “romance desmontável”, tendo em vista sua composição descontínua, feita de episódios relativamente independentes e sequências parcialmente truncadas.

Essas características da composição do livro:

a) constituem um traço de estilo típico dos romances de Graciliano Ramos e do Regionalismo nordestino.

b) indicam que ele pertence à fase inicial de Graciliano Ramos, quando este ainda seguia os ditames do primeiro momento do Modernismo.

c) diminuem o seu alcance expressivo, na medida em que dificultam uma visão adequada da realidade sertaneja.

d) revelam, nele, a influência da prosa seca e lacônica de Euclides da Cunha, em Os sertões.

e) relacionam-se à visão limitada e fragmentária que as próprias personagens têm do mundo.

 

 

GABARITO

  1. A animalização é constante em toda a obra. A comparação entre homem e animal em Vidas Secas remete às obras naturalistas, que também se aproveitam dessa animalização. A comparação com o bicho tem a ver com a sobrevivência apresentada na obra. O bicho usa do instinto, assim como Fabiano e sua família fazem no meio da caatinga. Além disso, a comunicação dos personagens é muito limitada e se aproxima com a linguagem dos animais. Os seres humanos falam por meio de gemidos e sons guturais. E, por fim, os protagonistas têm um pensamento limitado. Eles têm dificuldade de processar raciocínios os comparam com a irracionalidade dos animais.
  2. a) Fabiano tem uma visão extremamente conformista e resignada da própria vida. Podemos dizer até que é alienada. Para ela, viver daquela forma era o destino de Fabiano e sua família. Determinismo: muito presente no trecho lido, prega que o homem é determinado pelo meio, pela raça e pelo tempo.
    b) São os homens de posse, donos de grandes fazendas para quem Fabiano trabalhava e por quem era explorado. Eles já são ricos e mesmo assim tiram o que podem dos miseráveis.
  3. a) Não somente a seca, apesar de ser uma problemática muito importante na história. Temos problemas de ordem cultural, como a linguagem precária impossibilita Fabiano de interagir com outros personagens. O vocabulário raso não dá a chance de Fabiano protestar pelos seus direitos. Problemas de ordem econômica também o aflige por causa da exploração que sofre por parte dos fazendeiros para quem trabalha. Ele é a base da indústria da seca.
    b) Sim. Por mais que eles tenham dificuldade de entender o que se passa com eles, há uma certa escavação. Essa é uma das vantagens do narrador em terceira pessoa, já que esse recurso consegue, com o uso do discurso indireto livre, flertar com a interioridade dos personagens.
  4. Letra a): Não. Esse é um caso singular, por isso chama tanta a atenção. A descontinuidade da obra tem muita relação com a descontinuidade da vida dos personagens de Vidas Secas.Letra b): Não. A fase inicial de Graciliano Ramos é marcada por romances de primeira em pessoa, em que havia um aprofundamento psicológico muito maior. Ex: São Bernardo, Caetés e Angústia.Letra c): Não. Esse recurso foi um pensado justamente para aumentar o caráter expressivo da obra.Letra d): Não, os estilos dos autores citados é completamente diferente. Os trabalhos de Euclides da Cunha eram tudo menos sucintos, pelo contrário, eram fruto de pesquisas de campo muito aprofundadas.

    Letra e): Sim! Perfeito!

Larissa Coelho

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