• Aumentar Fonte
  • Diminuir Fonte
  • Trocar contraste

Língua Portuguesa e a Mídia II

Olá, Galera!

E a propaganda? Perceberam a produtividade das orações subordinadas?

Hoje vamos continuar nosso papo sobre a subordinação que, embora seja uma forma muito utilizada para a construção de períodos compostos, se tornou um assunto muito árido na relação de ensino/aprendizagem. Ouço muitas frases do tipo: “oração subordinada é muito difícil”, “são muitas classificações, não consigo gravar…”; de fato, quando apresentamos as orações subordinadas e suas divisões em substantivas, adjetivas e adverbiais que, por sua vez, são subdivididas, o susto é inevitável.

Mas, a despeito dessas listas que nos parecem intermináveis, quero mostrar a vocês o uso dessas orações pela mídia a fim de não mais temermos e rechaçarmos as orações subordinadas. Como um segundo exemplo da relação entre o discurso da mídia e a subordinação, observem abaixo o anúncio do canal GNT:

Ela não sabe que o homem chegou à Lua.
Que a vida é um contagem regressiva.
Que Berlim já foi duas.
Que na Idade Média a igreja vendia lugar no céu.
Que homens e dinossauros nunca conviveram.
Que muitos remédios não curam, mas viciam.
Que o voto do povo salvou Barrabás e condenou Jesus.
Que o computador foi criado para resolver problemas que não tínhamos.
Que o sudeste alaga e o nordeste seca.
Que sexo pode ser feito sem amor.
Que o cientista que inventou a bomba atômica recebeu um prêmio por isso.
Que somos divididos em 1º e 3º  mundo.
Que você vai fazer de tudo para não repetir os erros dos seus pais.
Que Getúlio saiu da vida para entrar na História.
Que esmola é imposto informal da injustiça social.
Que somos julgados pela aparência e condenados pela cor da pele.
Que o homem ainda não decidiu se veio do macaco ou de Adão e Eva.
Que todo Mulçumano deve ir à Meca pelo menos uma vez na vida.
Que quem faz aniversário no natal  não é o Papai Noel.
Que o cinema já foi mudo.
Que existe Aids.
Que não existe cura.
Quem vai explicar: você ou a vida?

GNT. Informação que forma opinião.

(GNT / Canal Globosat – Folha de S. Paulo, 3/12/2000)

A relação entre o texto e a imagem permite a construção de sentido pretendido pela propaganda. Observem a primeira frase do texto: “Ela não sabe que o homem chegou à Lua.”, há dois verbos; portanto, duas orações. A pergunta é: de que forma essas duas orações se estruturam? Reparem que há um elemento – que – o qual liga as orações “Ela não sabe” e “o homem chegou à Lua.” e forma com o restante da frase – que o homem chegou à Lua – uma oração subordinada em relação à oração denominada principal – Ela não sabe. Agora olhem novamente o texto e percebam que quase todas as frases que constroem o texto começam com o conectivo “que” e estão ligadas ao verbo “saber” da oração principal, ou seja, estão subordinadas à oração “Ela não sabe” a qual inicia o anúncio.

O uso desse tipo de construção sintática é completamente coerente ao sentido de dependência intencionado pelo anúncio. Da mesma forma que há uma dependência entre a criança e a mãe ilustrada na imagem, há uma dependência, uma subordinação entre as orações “Que a vida é uma contagem regressiva.”, “Que Berlim já foi duas.”, “Que o cinema já foi mudo” etc. e “Ela não sabe”. O conjunto das orações subordinadas, que expressam as informações e conhecimentos que a menina deverá adquirir ao longo da vida, completam sintática e semanticamente o verbo “saber”, cumprindo a função sintática de objeto direto (direto porque não há preposição entre o verbo e complemento). Como existe um verbo nesse objeto direto, forma-se uma oração cuja denominação é oração subordinada substantiva objetiva direta.

Fiquem atentos à importância desse tipo de construção sintática para a formação de sentido pretendido pelo anunciante. Releiam o texto com calma e relacionem forma e conteúdo. Mais uma vez, com outros olhos.

Até mais!