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O que você aprendeu esse ano sobre Filosofia? O filósofo Martin Heidegger pode te ajudar com essa questão

Enfim, é chegado o fim da jornada de 2014. E, no entanto, se nos perguntassem o que aprendemos, poderíamos respondê-lo? E não adianta dizer que aprendemos matéria para concurso. Com efeito, por mais que eles sejam importantes para caramba, a vida de cada um de nós vale muito mais do que o Enem ou qualquer outro vestibular. O que passamos juntos não pode ter se resumido à aprovação em um concurso. Nós valemos muito mais do que isso. E, então, para além disso, o que aprendemos este ano? Do que nos valeu, para a vida, estudar filosofia e sociologia?

Devo confessar que, por mais que o admire profundamente, o alemão Martin Heidegger (1889–1976) não é propriamente meu filósofo predileto e que, por vezes, é uma tarefa hercúlea ler seus textos – tão difícil é o modo como escreve. No entanto, há um escrito seu muito interessante, que acredito que irá nos servir em algo aqui. Este pequeno texto é “O que é isto – a filosofia?” e nele, como o próprio nome indica, Heidegger procura responder o que caracteriza a atividade filosófica. Pois bem, a certa altura, diz lá o filósofo:

Quando é que a resposta à questão “Que é isto – a filosofia?” é uma resposta filosofante? Manifestamente apenas então quando entramos em diálogo com os filósofos. Disto faz parte que discutamos com eles aquilo de que falam. Este debate em comum sobre aquilo que sempre de novo, enquanto o mesmo, é tarefa específica dos filósofos, é o falar, o legein no sentido do dialegesthai, o falar como diálogo. (…) Uma coisa é verificar as opiniões dos filósofos e descrevê-las. Outra coisa bem diferente é debater com eles aquilo que dizem, e isto quer dizer, do que falam. (…) Nosso falar deve corresponder àquilo pelo qual os filósofos foram interpelados. Se formos felizes neste corresponder, respondemos, de maneira autêntica, a questão “Que é isto – a filosofia?”

Um resumo sobre a atividade filosófica por Martin Heidegger

Martin Heidegger

Para além de sua escrita um tanto hermética e de suas citações do grego, o texto de Heidegger é bem claro. De fato, pode-se estudar a história da filosofia por ela mesma, sem refletir em nada, se a meta é apenas passar no Enem. Mas, se o interesse ultrapassa concursos, se o objetivo é agregar algo à própria vida, então, não faz sentido estudar os filósofos para simplesmente para conhecer suas teorias, para saber o que pensavam, mas sim para pensar com eles os problemas que eles pensaram, para que suas teorias nos ajudem a pensar por nós mesmos. Heidegger está mais do que certo. A melhor resposta à pergunta “O que é a filosofia?” não é uma frase feita, com uma definição precisa. A melhor resposta à pergunta “O que é a filosofia?” é a própria atitude filosofante, de quem se deixa interpelar pelos problemas que os grandes filósofos levantaram, que os sente como se fossem seus, que se desespera ao não saber resolvê-los e que, se recorre aos filósofos, é para poder pensar melhor por si mesmo. Em uma palavra, filosofia só faz sentido para quem faz dela um problema pessoal.

Espero que tenhamos aprendido isto este ano. Espero que tenhamos aprendido a desenvolver juntos uma postura filosófica diante do mundo. Deixe seu comentário e compartilhe com a gente os seus aprendizados! 😀

 

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Muito bom. Ainda que você tenha partido de Heidegger e de uma obra que merece bastante “acuidade” na leitura, a reflexão foi bem clara. Gostei também da escolha do texto porque Heidegger é muito desconhecido no Brasil. Popularizar o filósofo que já é tido por muitos como o mais importante do século XX, em pé de igualdade com Kant e Hegel, e com uma originalidade vista só em Aristóteles é tarefa árdua, mas gratificante, porque Heidegger é profundo. A “atitude filosofante” no diálogo com os filósofos na busca por respostas, ou ainda, mais problemas, a partir de suas filosofias, para questões por eles tratadas e que nos afligem também, já é uma grande resposta da tua parte.

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