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Atualidades: A história do Grafite

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Nos muros da sua cidade, nas ruas, na música: o grafite faz mais parte do seu cotidiano do que você imagina ou percebe. Agora, com toda a treta que envolve o prefeito de São Paulo, João Doria, apagando as pinturas do maior mural de grafite a céu aberto da América Latina, localizado na Av. 23 de Maio, o assunto voltou à tona e com muita polêmica.

Na função de “limpar” a cidade e deixá-la “mais bonita”, Doria tem gerado muitas questões na cabeça da galera. Grafite é um movimento cultural? Grafitar é um ato de vandalismo? Grafite não é uso comum de espaço urbano? Grafite é arte?

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Avenida 23 de Maio, em São Paulo

Para tentar responder qualquer uma dessas questões, e até mesmo para refletir sobre elas, precisamos entender, de fato, o que é o grafite. Vamos nessa?

 

De onde surgiu o Grafite?

Você vai ficar meio pasmo, mas a real é que o grafite existe desde o Império Romano. Calma, a gente explica isso melhor: grafite é a definição para inscrições feitas em paredes, ou locais que não são próprios para receber desenhos e caligrafias. Por isso existem registros dessa atividade desde a Antiguidade. Foi só na Idade Contemporânea que essa prática se tornou uma forma de expressão vinculada a um movimento cultural de peso.

Nova York, berço do Hip hop

Final da década de 1960, início da década de 1970. Negros e latinos, em sua maioria, encaravam a pobreza, a violência, o racismo, o tráfico de drogas, a falta de infraestrutura e educação nos subúrbios de Nova York. Foi nessa época que o Hip hop nasceu como uma subcultura nos guetos norte-americanos, como uma manifestação artística nas ruas.

Segundo o criador do termo Hip hop, Afrika Bambaataa, essa cultura tem quatro elementos principais: o rap, o DJ, o breakdance… e o grafite. E é daí que nasce a ligação do grafite com uma expressão mais politizada, uma expressão de resistência, como denúncia feita através da intervenção na paisagem urbana. Sacou?

Metrôs grafitados em Nova York

Metrôs grafitados em Nova York

 

Afrika Bambaataa, conhecido como o padrinho do Hip hop

Afrika Bambaataa, conhecido como o padrinho do Hip hop

 

Cena da série "The Get Down", que retrata a origem do Hip hop

Cena da série “The Get Down”, que retrata a origem do Hip hop

É certo que, desde essa época, o grafite esteve muito ligado à transgressão e à resistência. Vinculado a uma cultura majoritariamente negra e pobre, o grafite não é visto com bons olhos por muitas pessoas preconceituosas, né?. E é por isso que ele sempre está no meio das polêmicas.

Alguns reconhecem a imensa qualidade artística do grafite, como Paulo Mendes da Rocha, arquiteto e urbanista brasileiro. Ele afirmou que o grafite é “a voz mais candente, hoje, das artes gráficas em geral”. Outros, entretanto, consideram o grafite apenas como poluição visual e vandalismo. Antes de formar a sua opinião sobre o assunto, você precisa conhecer dois caras.

 

Jean-Michel Basquiat

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Jean-Michel Basquiat

Aos 17 anos, Jean-Michel Basquiat grafitava paredes, casas e metrôs de Nova Iorque. Tinha habilidades artísticas incríveis – prova disso eram os grafites feitos em construções abandonadas de Manhattan na década de 1970. Para todos os desenhos que fazia nas ruas, deixava uma assinatura: “SAMO” ou “SAMO shit” (que podemos traduzir como “same old shit” ou “sempre a mesma merda”), que começou a gerar uma curiosidade sobre as intenções do cara com seus grafites. Foi aí que começou a ficar popular.

Grafite de Basquiat, assinado como SAMO: "Para aqueles de nós que quase meramente tolera a civilização"

Grafite de Basquiat, assinado como SAMO: “Para aqueles de nós que quase meramente tolera a civilização”

Depois de exposições que trouxeram um pouco mais de fama, sua obra começou a ser reconhecida internacionalmente – e rolou até uma grande amizade e parceria com Andy Warhol, o grande expoente da pop art. O grafiteiro foi considerado, após sua morte, um neo-expressionista e o tema de suas obras quase sempre transitava entre a cultura negra, o caos e a desmistificação de grandes ícones da história da arte.

Jean-Michel Basquiat, Mona Lisa, 1983.

Jean-Michel Basquiat, Mona Lisa, 1983.

Jean-Michel Basquiat, Sem título (Duas Cabeças em Ouro), 1982

Jean-Michel Basquiat, Sem título (Duas Cabeças em Ouro), 1982

 

Keith Haring

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Keith Haring

Keith Haring foi um artista e ativista americano que influenciou muita a cultura do grafite na década de 1980 em Nova York. Para você ter noção, o cara começou a grafitar com giz nas estações de metrô da cidade e, por isso, começou a ganhar popularidade.

Keith Haring grafitando no metrô de Nova York

Keith Haring grafitando no metrô de Nova York

Inserido dentro da pop art, foi reconhecido por ter uma linguagem própria dentro do movimento – silhuetas feitas com uma única linha, coloridas e sem nenhum detalhe adicional. Pintou murais em vários países do mundo e em locais famosos – Muro de Berlim, Times Square -, fazia artes públicas com mensagens sociais e até criou o logo do National Coming Out Day (o “Dia Nacional de Sair do Armário”).Um artista celebrado e controverso.

Logo para o "National Coming Out Day" (Dia Nacional de Sair do Armário, feito por Keith Haring

Logo para o “National Coming Out Day” (Dia Nacional de Sair do Armário), feito por Keith Haring

 

Tuttomondo, Keith Haring, Pisa, 1989

Tuttomondo, Keith Haring, Pisa, 1989

 

Grafite é arte?

Pensando na trajetória desses dois gênios que citamos aqui em cima: ambos começaram sua carreira nas ruas e foram parar em museus. São amplamente reconhecidos enquanto artistas, fundadores e influenciadores de movimentos artísticos. Já pensou se o prefeito Doria, lá em São Paulo, está apagando o próximo Basquiat ou o próximo Haring ao pintar de cinza as obras feitas legalmente nas avenidas?

E mais importante do que isso: estará ele censurando uma forma de expressão tão intrínseca à paisagem, política e resistência urbana? O que você acha?  Conta pra gente nos comentários! 🙂

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Assiste aê

Preparamos uma lista irada de filmes para quem quer saber mais sobre o grafite. Sente só:

  • The Get Down (2016)

A série produzida pelo Netflix, The Get Down, se propõe contar — mesclando fatos reais e ficção — a gênese do hip hop no Bronx.

  • Cidade Cinza (2013)

Este documentário compila as vozes de reconhecidos artistas urbanos que colorem a cidade com grafites e se manifestam contra as autoridades que cobrem suas obras com a cor do cimento.

  • Pixo (2010)

O documentário mostra a realidade dos pichadores, acompanha algumas ações, os conflitos com a polícia e mostra um outro olhar sobre algumas intervenções já muito exploradas pela mídia. O filme não traz respostas, mas fornece argumentos para o debate: pichação é arte ou é crime?

  • Saída Pela Loja (2010)

Um documentário que acompanha o dono de uma loja que decide tentar a sorte como cineasta e sai para filmar famosos vândalos. Ele encontra um artista de rua chamado Bansky, que se apodera da câmera com resultados inesperados.

  • Graffiti Fine Art (2013)

Jared Levy gravou entrevistas com diversos artistas urbanos para o documentário “Graffiti Fine Art” e uma das questões abordadas era que se o grafite deixa as ruas e vai para dentro das galerias e museus, ainda pode ser considerado grafite?