Atualidades: Beyoncé explica Black Lives Matter


Você lembra quando a internet inteira foi derrubada com o clipe de Formation, da Beyoncé? Não lembra? Então saca só:
O que esse clipe tem de tão especial e o que ele tem a ver com Black Lives Matter? Bem, você deve ter notado: todos os dançarinos no clipe são negros, e a trama faz um grande apanhado da história negra nos Estados Unidos. Além disso, presta atenção na letra:
“Eu gosto da minha herdeira com cabelos de bebê e afros”
“Eu gosto do meu nariz negro com narinas como as do Jackson Five”
“Dou meu máximo, sou negra”
O nome disso é representatividade, e Beyoncé usa de toda sua influência para chamar atenção para o movimento negro – em especial, o movimento Black Lives Matter.
Já dá para perceber que Beyoncé está armada e pronta para combater o racismo. Mas será que você sabe do que ela está falando? O movimento Black Lives Matter existe desde 2013; tudo começou nos Estados Unidos, com o assassinato de Trayvon Martin, afro-americano de 17 anos, alvejado pelo segurança George Zimmerman, de ascendência hispânica, que, por sua vez, alegou que agiu em legítima defesa e foi inocentado. O caso fez barulho e surgiram acusações de racismo, que acabaram ganhando a internet com a hashtag #BlackLivesMatter (vidas de negros importam, em tradução livre).


O movimento ganhou força em 2014, com protestos após o assassinato de Michael Brown, um garoto negro de 18 anos, morto pelo policial Darren Wilson. Michael, que não tinha antecedentes criminais, tinha roubado vários pacotes de cigarros, e, mesmo desarmado, foi alvejado sete vezes por Wilson. O caso gerou revoltas contra a violência policial, culminando nos tumultos em Ferguson – uma série de protestos que chamou a atenção para o movimento. Desde então, o Black Lives Matter vem ganhando a mídia e levantando discussões sobre o racismo no dia a dia e a violência que as populações negras sofrem.
Quer saber como o movimento negro vem sendo retratado na mídia? Dá uma olhada nesses dois textos que vão te explicar tudinho sobre o Black Lives Matter – com Beyoncé envolvida!
TEXTO I
Superbowl 50: Beyoncé faz críticas à violência policial e causa alvoroço nos EUA


O clipe da nova música denuncia a forma como a população negra de Nova Orleans sofreu com as consequências do furacão Katrina, em 2005 (foto: CHRIS GRAYTHEN / AFP )
A apresentação de Beyoncé no show de intervalo do Superbowl 50 deu o que falar: a cantora americana fugiu do repertório “mainstream” habitual, dando lugar a críticas veladas contra a violência policial e a referências aos Panteras Negras, movimento radical de luta pelos direitos civis.
Na noite de domingo, diante de 111,9 milhões de telespectadores nos Estados Unidos – a terceira maior audiência da história da TV americana -, a estrela cantou sua nova música “Formation”, lançada na véspera, para a surpresa de todos.
Suas dançarinas usavam boinas pretas e erguiam o punho, como membros dos “Black Panthers”, e fizeram uma coreografia na qual formavam um X, possível referência ao líder negro Malcom X, no gramado do Levi’s Stadium de Santa Monica, palco da finalíssima do futebol americano.
Beyoncé deveria ter sido apenas a coadjuvante do show comandado pela banda britânica Coldplay, aparecendo nos minutos finais ao lado de Bruno Mars, mas acabou roubando a cena, usando um figurino inspirado em Michael Jackson.
Amplamente divulgado na Internet, o clipe da nova música denuncia a forma como a população negra de Nova Orleans sofreu com as consequências do furacão Katrina, em 2005.
As letras também criticam a violência policial e enaltecem a beleza negra e a cultura afro-americana.
A diva pop de 34 anos, que, ao lado do marido, o rapper e produtor Jay-Z, comanda um império musical avaliado em um bilhão de dólares, nunca tinha ido tão longe no engajamento político.
Nos últimos anos, ela chegou até a dar uma guinada feminista, mas sua carreira foi construída em cima de hits mais comerciais, que celebram o amor, o glamour e a ostentação.
‘Bill Gates negra’
Em “Formation”, Beyoncé se descreve como um “futura Bill Gates negra”, referindo-se ao bilionário fundador da Microsoft, que doa parte de sua fortuna a causas beneficentes. “Ganhei esse dinheiro todo, mas nunca abandonei minhas raízes”, continua a música, que relata a origem da cantora, nascida em Houston, no Texas, de pais oriundos de Louisiana e do Alabama, dois estados do sul marcados pelo passado escravocrata.
O clipe também reverencia os protestos do movimento “Black Lives Matter”, que agita o país há um ano e meio, desde a morte do adolescente Michael Brown. Desarmado, ele foi morto a tiros por policiais em Ferguson, no Missouri, episódio seguido por vários casos semelhantes em outras cidades americanas.
“Parem de atirar na gente”, diz uma mensagem escrita no clipe, enquanto uma criança dança na frente de policiais.
Em outro trecho do vídeo, gravado em Nova Orleans por Milana Matsoukas, um homem lê um jornal onde aparece na capa uma foto de Martin Luther King, com o título “Mais do que um sonhador”, em referência ao famoso discurso “I Have a Dream” (Eu tenho um sonho).
O clipe também mostra a filha de Beyoncé, Blue Ivy, de quatro anos, com cabelo black power, no momento em que a cantora defende a beleza negra: “gosto do meu nariz negro, com narinas tipo Jackson Five”.
Reações divididas
A apresentação de Beyoncé no Superbowl foi bastante elogiada nas redes sociais, mas a estrela também sofreu duras críticas.
No Facebook, membros da Associação Nacional dos Xerifes disseram ter baixado o volume e virado as costas para a televisão durante o show do intervalo, em sinal de protesto.
O ex-prefeito republicano de Nova York Rudy Giuliani, conhecido por ter reduzido a violência na cidade ao reforçar o esquema policial, lamentou o fato de a cantora não ter passado uma mensagem de unidade. Ele também fez um apelo para que a comunidade negra respeite mais as autoridades.
Já a co-fundadora do “Black Lives Matter” Opal Tometi fez questão de homenagear a diva no Twitter.
Beyoncé e Jay-Z nunca esconderam suas orientações políticas. Ambos apoiaram o presidente Barack Obama desde o início e até organizaram eventos para arrecadar fundos para sua campanha para a reeleição, em 2012.
A iniciativa foi retribuída com um convite para cantar o hino americano durante a posse do segundo mandato de Obama.
No passado, porém, os astros já foram criticados pela falta de engajamento.
Conhecido por ser um militante de longa data dos direitos civis, o cantor Harry Belafonte afirmava em 2012 que o casal tinha “virado as costas para suas responsabilidades sociais”.
Em meio à controvérsia, Beyoncé mostrou que não perdeu o talento com os negócios: minutos depois do Superbowl, a cantora anunciou uma nova turnê de 40 datas na América do Norte e na Europa.
Em 2013, a diva foi atração do Rock in Rio e chegou a dançar funk no final da apresentação.
O Superbowl 50 também foi marcado por uma apresentação surpreendentemente contida da sempre polêmica Lady Gaga, muito elogiada pela interpretação sóbria do hino americano.
Disponível em: http://www.em.com.br/app/noticia/internacional/2016/02/09/interna_internacional,732842/beyonce-causa-alvoroco-nos-eua-com-postura-mais-engajada.shtml
TEXTO II
O movimento #BlackLivesMatter ecoa no Brasil


Mais da metade dos 200 milhões brasileiros se identificam como negro ou negra. Todos os dias, 82 jovens brasileiros são mortos, 77% desses jovens são negros. Na selva de pedra de São Paulo, os jovens negros são três vezes mais sujeitos a serem mortos por violência policial do que os jovens brancos.
Por Katherine Jinyi Li *
Nos últimos anos, o movimento americano #BlackLivesMatter colocou a questão de violência racista da policia na primeira pauta dos meios de comunicação social e política. Ao outro lado do Hemisfério, as vozes negras do Brasil estão plantando as suas próprias sementes de um apelo crescente à justiça.
“A questão não é de copiar [os americanos] mas de ver o que fazem, o que dá certo, ficar observando e tentar adaptar isso a nossa realidade brasileira,” diz Silvia Nascimento, fundadora da primeira mídia negra no Brasil, Site Mundo Negro, que proclama uma visão pro-africana de negritude universal.
“Eles têm uma história de luta que precede a nossa – no Brasil a escravidão acabou muito tempo depois,” Nascimento nos lembra. “Estamos em um grau de desenvolvimento agora que reflete muitas coisas que já aconteceram nos EUA nos anos 60, 70.”


(Manifestante na Marcha contra o genocídio da juventude negra, São Paulo, 2014. Crédito da foto: Katherine Jinyi Li.)
Quando considera o movimento #BlackLivesMatter, Nascimento ressalta uma força altamente qualificada de professores, advogados, políticos, jornalistas, e atores negros que apoia o movimento construído de protestos de rua e as redes sociais de massa. No Brasil, ainda um pais em desenvolvimento, essa mobilidade socioeconômica ainda está no processo de ser fortalecida para os negros, que só constituem 6.3% de todos os alunos no ensino superior.


Sheila de Carvalho no escritório da Conectas na Avenida Paulista, 2015. Crédito da foto: Katherine Jinyi Li
Mais do que um movimento de protesto de rua, os negros brasileiros levantam a dignidade negra através de mídias independentes e marchas pacíficas. Negros brasileiros saem às ruas todo ano na Marcha contra o Genocídio da Juventude Negra e a Marcha das Mulheres Negras. Estas marchas estão rigorosamente vigiadas pela policia mas ficam relativamente pacíficas, não como os confrontos violentos entre os manifestantes negros e os policiais americanos nos protestos #BlackLivesMatter.


Capa da revista TIME dos protestos #BlackLivesMatter em Baltimore, 2015. Crédito da foto: Devin Allen.)
O primeiro censo racial do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) esse ano revelou que 85% dos juízes e 78% dos advogados no Brasil são brancos, que condenam uma população carceraria que é 67% negra.
“Essa proposta de ter políticas de ação afirmativa no sistema de justiça vai deixar a carreira mais representativa da sociedade… e trazer pessoas que entendam os problemas que a sociedade tem,” diz de Carvalho. “Esses juízos [das políticas de ação afirmativa] acabam trazendo uma diversidade de vivências que juízos que tiveram mais privilégios não tenham visto.”
De Carvalho lembra de ser a única aluna negra em uma sala de mais de 100 na Faculdade de Direito na Mackenzie. “Aqui no Brasil você entra em um espaço de ‘elite’ e você não vê a figura de uma pessoa negra – uma ausência de negros que já foi normalizada na nossa sociedade,” ela explica.
Brasileiros negros muitas vezes mostram saber pouco sobre sua própria história no ensino fundamental. Sem falar das batalhas dos heróis ex-escravos que lutaram para as comunidades negras, as escolas veneram os colonizadores e imigrantes brancos (igual à narrativa histórica ensinada nas escolas americanas). Como resultado, muitas referências do empoderamento negro no Brasil vêm dos EUA ou da África.
Comparado ao Brasil, os negros americanos já conseguiram construir uma fortaleza na conversa da nossa geração. Referências desde Obama a Oprah, Malcolm X a Muhammed Ali, Angela Davis a Beyoncé, Black Panthers e #BlackTwitter e tudo demais, os negros lideram os americanos em uma diversificação das vozes na mídia de massas e no espaço político.
Para os negros na America Latina, uma identidade negra solidária ainda está obscura pela lenda colonial de miscegenação. Ex-presidente FHC que disse a famosa frase “Também tenho um pé na cozinha,” se declarando descendente de escravos apesar da sua óbvia brancura e pertencimento à classe elite. Depois negando ter falado a frase, Cardoso ainda assim deu o exemplo perfeito da ficção latina que o racismo não existe porque todos nós somos “um pouco negros”.
Na realidade, o racismo segue sendo a guia das normas sociais entre os negros e os brancos no Brasil. Tula Pilar, poetisa autodidata e ex-trabalhadora doméstica, escreve frequentemente sobre o abuso das suas empregadoras brancas. “Tiravam os cadernos das minhas mãos, rasgavam e falavam que estudar não era para as pessoas como eu,” ela recorda.
Ainda hoje, uma poeta reconhecida com aparências frequentes na mídia, Pilar enfrenta discriminação no mundo artístico. “Quando vou nos saraus no centro, eles me param na porta e me perguntam o que eu estou fazendo lá enquanto os brancos entram sem problema. Mas depois eu entro no palco e essas mesmas pessoas conseguem até chorar com as minhas poesias.”


Tula Pilar Ferreira, em frente ao Museu de Arte de São Paulo (MASP), 2015. Crédito da foto: Katherine Jinyi Li
A mãe da Pilar, também uma trabalhadora doméstica, também não apoiou os sonhos de perseguir os seus estudos: “Minha filha, somos negros, pobres – não fica sonhando que o nosso mundo é outro!”
Hoje, Pilar organiza saraus “eróticos” para as mulheres na periferia. Ela ensina os seus filhos de usar os seus turbantes com orgulho e de dialogar com a policia sabendo dos seus direitos.
“Se amar, se aceitar é um ato político em si,” diz Nascimento sobre a ênfase cultural no Site Mundo Negro. “A geração da minha mãe, da minha avó abaixaram as cabeças, mais as minhas filhas não irão.”
*Katherine Jinyi Li é uma jornalista americana morando no Brasil, cobrindo temas de luta comunitária, empreendedorismo local e justiça racial.
Essa reportagem foi publicada pela primeira vez no site americano The Seatle Globalist
Disponível em: https://www.mundonegro.inf.br/o-movimento-blacklivesmatter-ecoa-no-brasil/
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Redação 


