Protagonistas das Reforma e Contra Reforma

19/01/2018 Isadora Bombonatti
Martinho Lutero na Dieta de Dorms, assembleia deliberativa da epoca. Fonte: Cancao Nova

Martinho Lutero na Dieta de Dorms, assembleia deliberativa da época. Fonte: Canção Nova

São os indivíduos que mudam a história? Ora, os acontecimentos são, em grande medida, produtos das circunstâncias. Todavia, são homens e mulheres que os protagonizam. São eles quem proferem discursos, pegam em armas, assinam tratados e são queimados na fogueira. Para o filósofo espanhol Ortega y Gasset: “Eu sou eu e minha circunstância, se eu não a salvar, não hei de me salvar.

É exatamente por isso que, para entendermos as reformas protestantes, precisamos olhar para alguns indivíduos que tiveram a audácia de desafiar e questionar a Instituição mais poderosa da Europa. Para isso, vamos dividi-los em dois grupos: os que romperam com a Igreja, fundando uma nova religião (os excluídos); e os que tentaram ajustar pelo lado de dentro (os infiltrados).

Os Excluídos

  • Martinho Lutero (1483-1546)

    Lutero foi um monge católico, nasceu em Eisleben (cidade Alemã), foi um estudioso árduo das escrituras sagradas e do filósfo grego Aristóteles. Após alguns anos de estudos, ele se juntou à ordem dos Augustinianos e decidiu levar uma vida reclusa, que incluía horas de jejum, orações e leituras. Nesse período, na Universidade de Wittenberg, desenvolveu sua doutrina de justificação, que revolucionaria o mundo católico. Segundo ela, a salvação só poderia ser obtida pela Fé, jamais concedida ou vendida por uma instituição mundana.

  • Além de sua astúcia e audácia, Lutero contava com os príncipes germânicos, que viam na autoridade do papa uma ameaça a seu poder. Lutero também se preocupou em como tornar a palavra de Deus acessível e traduziu a Bíblia para o Alemão, um esforço digno de admiração. De fato, seu pensamento foi visto como uma ameaça à igreja. Pagou caro pela sua rebeldia e foi excomungado após se recusar a voltar atrás. Seu legado viveria por muito tempo, tendo o Luteranismo milhões de adeptos. O ex-padre casou se com uma ex freira e com ela teve 5 filhos – desnecessário dizer que na nova religião o celibato não era uma exigência, certo? Morreu em 1546 em sua cidade natal, depois de ter iniciado um movimento que influencia ainda hoje milhões de fiéis em todo o mundo.
  • Henrique VIII (1491-1547)

    você, aos 17 anos, está estudando para alcançar um bom resultado no ENEM. Henrique Tudor, com a mesma idade, estava sendo coroado rei da Inglaterra.  O rei Tudor foi um caso bastante emblemático de “vira casaca”. Isso porque criticou enfaticamente os trabalhos de Lutero, tendo sido nomeado Defensor da Fé pelo papa Leão X. Porém, o rei tinha um casamento sem herdeiros com sua primeira esposa, Catarina de Aragão, filha do rei da Espanha. Apaixonou-se pela jovem Ana Bolena. Quando o Papa recusou-se a lhe conceder o divórcio, o rei rompeu com Roma e criou a sua própria Igreja: A Igreja Anglicana ou Igreja da Inglaterra. A história de amor por trás da fundação da Igreja Anglicana não teve um final feliz, pelo menos não para Ana Bolena, que foi decapitada. Apesar de ter rompido com a Igreja Católica, o ato de Henrique VIII foi muito mais uma demonstração de poder e independência, do que de fato um rompimento dogmático. A grande transformação foi negar a autoridade do Papa e concentrar o poder em suas mãos, um caso emblemático do absolutismo em voga. Henrique, por exemplo, se recusou a permitir a tradução da bíblia para o inglês. Morreu em 1547, depois de ter mandado executar centenas de pessoas – inclusive cogitou mandar decapitar a própria filha, que se negou a lhe jurar lealdade.

  • João Calvino (1509-1564) 

    Nasceu na França, mas foi um verdadeiro peregrino, tendo escrito a maior parte de seu trabalho em Genebra, na Suíça. Começou seus estudos de teologia na Universidade Paris, porém, seguindo os conselhos de seu pai, se formou em direito. Aderiu ao movimento reformista em 1533, tendo participado de um golpe contra o rei da França Francisco I. Obrigado a se exilar na Suíça, conheceu William Farel, que o convenceu a permanecer em Genebra – onde  publicaria boa parte de suas obras. Assim como Lutero, Calvino também se casou. Viveu na Suíça por muitos anos onde trabalhou em suas teses. Sua maior contribuição foi a teoria da Predestinação, segundo a qual Deus havia escolhido alguns homens para serem salvos, enquanto outros estariam eternamente condenados. Apesar dessa escolha caber inteiramente a Deus, havia alguns sinais da predestinação, como a riqueza obtida pelo  trabalho árduo. Isso só era possível aos setores da burguesia, uma vez que aristocratas não trabalham e camponeses jamais enriqueciam. Escreveu incansavelmente até sua morte, aos 54 anos.

  • Ultrich Zwinglio (1484-1531) 

    Zwinglio faz parte dos reformadores suíços considerados muito mais radicais do que Lutero. Assim como o monge, o suíço também foi padre, mas casou-se, em segredo, com a viúva Anna Reinhart, de modo que o rompimento com a Igreja se tornou também conveniente. Zwinglio aproveitou-se da efervescente Suíça para defender sua tese de que a verdade só poderia ser alcançada através das escrituras. Além disso, preocupado com os aspectos práticos da Reforma, propôs uma união entre o movimento alemão e suíço. Dessa forma, buscou um entendimento com Lutero, mas não chegaram a um consenso sobre a consubstanciação (Zwinglio não acreditava). Entre suas teses destaca-se a importância dada ao Estado para controlar a Igreja. Zwinglio, mais do que um teólogo, foi também um grande articulador político. Percebeu que precisaria fazer concessões, como aceitar o batismo de crianças, para angariar adeptos e estabelecer o protestantismo nos cantões suíços.

Os Infiltrados

  • Erasmus de Rotterdã (1466)

    Nasceu em Rotterdã, filho ilegítimo de um padre. Órfão aos 14, entrou para a vida monástica por conta da falta de dinheiro e seguiu seus estudos na Universidade de Paris em pleno Renascimento. Antes mesmo das 95 teses de Lutero, Erasmus já criticava a venda de indulgências e a veneração de imagens. Sua obra Adages e suas novas versões do Novo Testamento, em Latim e Grego, ficaram conhecidos por toda europa. Tamanho foi o seu prestígio que recebeu do Papa os benefícios da Igreja, aos quais estava banido por ter sido filho ilegítimo. Defendia a necessidade de reforma do catolicismo, mas acreditava que a reforma deveria ser séria e gradual. Um pacifista em seu coração, Erasmus queria evitar conflitos e manter-se longe das turbulências que sacudiam a europa, por isso  manteve-se neutro o quanto pode em relação à Lutero. Contudo, teve de se posicionar, condenando o luteranismo. Foi um expoente do movimento renascentista, principalmente pela sua forma de “New learning”, de difusão do conhecimento das artes, política e filosofia clássica. Condenou veementemente a guerra, propondo uma Europa unida. Tamanha é sua importância que, hoje, o programa de troca de estudantes entre países da União Europeia leva seu nome.

  • Ignacius de Loyolla (1491-1556) 

    O maior sonho do Espanhol era se tornar cavaleiro, mas a empreitada não durou muito: uma bala de canhão destruiu sua perna. Durante o seu período de recuperação viu-se limitado a ler livros religiosos, o que despertou seu interesse. Foi assim que fez as principais anotações para o que viria ser a sua maior obra, “Spiritual Exercises”. Decidiu seguir uma vida de peregrinação, passando por Jerusalém, Barcelona, Veneza. O momento crucial em sua vida aconteceu quando declarou, junto com um grupo de amigos, votos de pobreza, e a vontade de viver como Cristo. Decidiram estabelecer um nova ordem religiosa, com o propósito de disseminar a palavra de Deus, a Companhia de Jesus. O método seria a peregrinação dos padres jesuítas, que levariam a palavra de Deus pelo mundo. Foram recebidos com entusiasmo em muitas partes. Chegaram ao Novo Mundo, ao Japão, Sri Lanka e à China. No Brasil, desembarcaram junto com o Governador Geral Tomé de Souza, em 1549, ficando à cargo do Padre Manuel da Nobrega a catequisação dos “gentis” da terra brazilis.Foram expulsos em 1759 pelo Marquês de Pombal, por representarem uma ameaça à autoridade do poder central.

 

Isadora Bombonatti

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