O que você precisa saber sobre Sócrates (ou As palavras finais de um grande filósofo)

18/01/2015 Camila Paula
Morte de Socrates

“A Morte de Sócrates”, 1787, de Jacques-Louis David.

A “Apologia de Sócrates”, relato da defesa feita pelo pensador ateniense no tribunal que o condenou a morte, é o texto fundador da noção de filósofo. É olhando para atitude altiva de Sócrates, sua postura destemida diante da morte e do perigo, unicamente devotada ao compromisso da verdade, que os homens de todos os tempos podem compreender, por um exemplo concreto, o que significa a atitude filosófica. Nesta, pois, peço a vocês a liberdade de transpor alguns dos mais belos trechos da “Apologia”. Que ao olharmos para Sócrates, nos sintamos convidados a assumir a atitude que ele assumiu, atitude daquele para quem nada, nem a morte, nem o dinheiro, nem as honrarias e vaidades humanas, são mais significativas do que a busca incessante do conhecimento:

“Ora, é possível que alguém perguntasse: ‘Sócrates, não poderias viver longe da pátria, calado e em paz?’ Eis justamente o que é mais difícil fazer e aceitar a alguns dentre vós. Se digo que seria desobedecer ao Deus e que, por essa por essa razão, eu não poderia ficar tranquilo, não acreditaríeis em mim, supondo que tal afirmação é, de minha parte, uma fingida ingenuidade. Se, ao contrário, digo que o maior bem para um homem é justamente este, falar todos os dias sobre a virtude e os outros argumentos sobre os quais me ouvistes raciocinar, examinando a mim mesmo e aos outros e, que uma vida sem esse exame não é digna de ser vivida, ainda menos acreditaríeis ouvindo-me dizer tais coisas. Entretanto, é assim, como digo, ó cidadãos, mas aqui não é fácil ser persuasivo

(…)

Por não terdes querido esperar um pouco mais de tempo, atenienses, ireis obter, da parte dos que desejam lançar o opróbrio sobre a nossa cidade, a fama e a acusação de haverdes sido os assassinos de um sábio, de Sócrates. Porque, quem vos quiser desaprovar me chamará, sem dúvida, de sábio, embora eu não o seja. Pois bem, tivésseis esperado um pouco de tempo, a coisa seria resolvida por si: vós vedes, de fato, a minha idade. E digo isso não a vós todos, mas àqueles que me condenaram à morte. Digo, além disto, mais o seguinte a esses mesmos: É possível que tenhais acreditado, ó cidadãos, que eu tenha sido condenado por pobreza de raciocínios, com os quais eu poderia vos persuadir, se eu tivesse acreditado que era preciso dizer e fazer tudo para evitar a condenação. Mas não é assim. Caí por falta, não de raciocínios, mas de audácia e imprudência, e não por querer dizer-vos coisas tais que vos teriam sido gratíssimas de ouvir, choramingando, lamentando e fazendo e dizendo muitas outras coisas indignas, as quais, é certo, estais habituados a ouvir de outros.

Mas, nem mesmo agora, na hora deste grande perigo, eu faria nada de inconveniente, nem mesmo agora me arrependo de me ter defendido como o fiz; antes prefiro mesmo morrer, tendo-me defendido deste modo, a viver daquele outro.

Nem nos tribunais, nem no campo, nem a mim, nem a ninguém convém tentar todos os meios para fugir da morte. Até mesmo nas batalhas, de fato, é bastante evidente que se pode evitar morrer, jogando fora as armas e suplicando aos que perseguem; e muitos outros meios há, nos perigos individuais, para evitar a morte quando se ousa dizer e fazer alguma coisa.

Mas, ó cidadãos, talvez o difícil não seja fugir da morte. Bem mais difícil é fugir da maldade, que corre mais veloz que a morte. E agora eu, preguiçoso como sou, e velho, fui apanhado pela mais lenta, enquanto os meus acusadores, válidos e lépidos, foram apanhados pela mais veloz: a maldade.

Assim, eu me vejo condenado à morte por vós, condenados de verdade, que sois criminosos de improbidade e de injustiça. Eu estou dentro da minha pena, vós dentro da vossa. E, talvez, essas coisas devessem acontecer mesmo assim. E creio que cada qual foi tratado adequadamente”

(…)

É a hora de irmos: eu para a morte, vós para as vossas. vidas; quem terá a melhor sorte? Só os Deuses sabem.”

Já pensou em quantas coisas você pode contextualizar o discurso de Sócrates? Na sua redação, em questões dissertativas, sem contar que isso pode te ajudar até mesmo em alguma questão de múltipla escolha sobre o filósofo! Dúvidas? Sugestões? Deixe seus comentários! 🙂

 

Camila Paula

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1 Comentário para este artigo

  • Menezes
    10/02/2015

    Querido Pedro que ótimo, você esta de volta! Valeu pela post.

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