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Que medicina não é fácil, todo mundo sabe, né?

Que medicina não é fácil, todo mundo sabe, né? Não é fácil de entrar e, acredite, não é fácil de sair do curso também. Teremos tempo pra falar sobre isso também, mas hoje gostaria de focar no desafio da aprovação e no monstro quase intransponível que o vestibular de medicina parece ser (não sei como é na cabeça de vocês, mas na minha, era mais horripilante que filmes de terror).

Eu não tenho dúvida que esse era um sonho meu de infância. Talvez tenha sido influenciada pelo meu avô que é médico, depois influenciada pelo meu tio, que também é médico. Fato é que ambos se formaram enfrentando as suas provações – e isso só me mostra que o caminho não é fácil pra ninguém. Meu avô, em meados da década de 70 começou fazendo farmácia, fez um período de odonto e ainda tinha que conciliar com a criação de 04 filhos, vida militar e sempre pensando na carreira do sonho dele: a medicina. Meu tio, ele já conseguiu um acesso mais rápido, na década de 90, fez 6 meses de cursinho apenas, é aquele aluno estrelinha que todo mundo detesta ser comparado com, sabe? Mas, também teve que abdicar ficar perto da família pra estudar na USP Ribeirão Preto, enquanto a família permanecia na capital paulista.

Comigo não foi muito diferente, também tive que enfrentar meus medos e desafios. Os pontos comuns com meu avô, meu tio e muito provavelmente com você também, é que a primeira vez que eu prestei medicina em 2003, percebi que eu estava muito atrasada em relação aos meus concorrentes e que eu teria que me virar do avesso se eu realmente quisesse seguir esse sonho. Vim de escola pública e, conversando com os diretores do cursinho que eu conseguia pagar na época, eu tomei o primeiro choque de realidade, ouvindo as palavras: “você vai precisar refazer seu ensino médio, através de cursinhos, conseguindo assim equilibrar a base de conhecimento necessária para começar a brigar pela sua vaga. Ainda assim, não vai ser fácil. O ensino está muito defasado.” Senti isso na pele nos vestibulares pra tentar entrar na faculdade em nos anos de 2005 a 2007. Essa hora você deve estar pensando que eu consegui entrar em medicina no ano de 2008, então, né?

Bom, não! Não foi dessa vez. Pela primeira vez, eu mudei a minha primeira opção de Medicina para Psicologia, na principal faculdade que eu queria entrar: USP São Paulo. E, pela primeira vez eu consegui nota suficiente pra ir pra segunda fase da FUVEST. Essa informação é muito importante, pois ela tem tudo a ver com a carga emocional que existe quando a gente faz uma escolha que é tão carregada de pressão externa (dos pais, dos concorrentes, dos familiares, dos amigos, enfim, de todo mundo).

Em 2008, então, entrei pra psicologia na USP e lá eu fiquei até 2012, quando concluí o curso, peguei canudo, diploma e vesti a tão sonhada beca de formatura. Não posso negar a importância que esse curso teve na minha formação de caráter e de pessoa, o curso de psicologia é, sem dúvida, muito transformador. Mas se eu estava feliz? Bem…

Já em 2013 eu não estava feliz, era nítido que eu tinha problemas com a minha escolha profissional. Não conseguia amar o que eu fazia no trabalho. Apostei em novos empregos, mas a frustração pessoal bateu de novo à minha porta. E isso começava a atrapalhar nas minhas outras relações: com a família, com o namorado (hoje marido) e com os amigos. Pra mim, sempre foi muito triste ver todo mundo trabalhando, sendo feliz, ganhando bem e eu insatisfeita com tudo que eu tinha conquistado.

Numa das minhas viagens de trabalho, tive uma conversa muito profunda e reflexiva com um colega de trabalho que era especialista em carreira profissional e não consegui conter tanta frustração profissional, desabei a chorar. Estávamos naquela cidade, atendendo nossos clientes e eu me via em pleno desespero. Não conseguia fazer aquilo por amor e sentia que não iria conseguir fazer por dinheiro também. Naquele dia, foi plantada a sementinha em mim que hoje em dia floresce e dá inúmeros frutos como esse texto aqui. Aquele meu colega de trabalho, também psicólogo, me disse no alto da sua serenidade e competência profissional: “Você só vai saber se é isso que você precisa na sua vida, voltando a enfrentar o vestibular de medicina e fazendo o que você sonha em fazer.”

Fiquei incrédula, achando que estava ouvindo a maior bobagem do mundo neguei veementemente aquela ideia, no auge dos meus 26 anos, eu estava certa que já era ‘velha demais’ para voltar pra essa vida de vestibulando, que eu já tinha esgotado as minhas tentativas, lá no começo dos anos 2000. Mal sabia eu que 2 semanas depois dessa conversa, estava eu pedindo demissão para o meu chefe e realizando minha matrícula no cursinho. Era como seu eu tivesse tirado um elefante das minhas costas. Eu estava correndo atrás do meu sonho, novamente! E dessa vez era definitivo, eu só ia parar quando conseguisse, mesmo que demorasse mais 10 anos.

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Foi necessária muita paciência e muita determinação, pra depois de estudar filósofos, antropólogos, Freud, Lacan, Psicanálise e fenomenologia, voltar a estudar geometria analítica, regra de três, cinemática e classes gramaticais. Naquela época o Descomplica estava se firmando como alternativa digital para quem não podia arcar com custos de um cursinho presencial, e ele foi INDISPENSÁVEL pra que eu chegasse até aqui. Eu queria usar todas as ferramentas possíveis, não tinha mais tempo a perder, eu ia pro Centro Cultural São Paulo estudar, passava longos sábados e domingos por lá, me auto aplicava simulados com provas dos anos anteriores. Sentia que a minha garra, o meu desejo por ser médica tinha alcançado outro patamar. Nada conseguiria me parar.

 

Foi um ano de muito trabalho, com certeza, de muitas abdicações, de muito choro, muita insegurança, claro. Se eu disser que não tive medo, que não sofri, estaria mentindo pra vocês. Em janeiro de 2015 comecei a colecionar os resultados de tudo isso, fui aprovada na Santa Casa SP (na época, ainda com o vestibular realizado pela FUVEST, unificado com a USP), obtive nota suficiente para entrar na Universidade Federal Fluminense (UFF) e na Universidade Federal do Ceará – Sobral (UFC) e, claro, a faculdade que eu escolhi fazer, a FAMERP – Faculdade Estadual de São José do Rio Preto/SP, localizada no interior paulista, minha casa, meu orgulho.

Escrever tudo isso me faz relembrar, me faz reviver o sonho, que hoje em dia é realidade. Me enche os olhos de lágrima e o coração de emoção. Sábia é a Elis que canta “Viver é melhor que sonhar”. Que bom que a semente foi plantada em mim e agora em você. Que os teus galhos te fortaleça e que vc perceba que por mais tortuosos que eles sejam, os seu frutos serão os mais doces da sua vida.

Te vejo na medicina ou no curso dos seus sonhos. Te vejo mês que vem.

Com amor,

Assinatura_Thaís_Albuquerque