Atualidades: Editorial de Guerra do Jornal Extra

06/12/2017 Isadora Bombonatti

Segundo o relatório do aplicativo “Fogo Cruzado”, veiculado à Anistia Internacional, houve 2,6 mil tiroteios na cidade do Rio de Janeiro apenas entre Janeiro e Junho de 2017. Ainda neste ano, um relatório do Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro divulgou que 843 territórios da capital são controlados por alguma forma de crime organizado. 

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A decisão do Jornal Extra

Diante do constante estado de alerta que os moradores cariocas vivem, em meados de agosto (16), o jornal carioca “Extra” declarou a criação de uma editoria de guerra para tratar das questões policiais na cidade. A capa do dia trazia a manchete “É guerra”. A publicação, que faz parte do Grupo Globo, tem um público mais popular em comparação ao jornal “o Globo” – periódico pioneiro e atual carro chefe do conglomerado de mídia.

O editor Octavio Guedes argumenta que o que está ocorrendo na capital carioca não é normal. Segundo o jornalista: “o crime é pontual. Ele ocorre, será solucionado e haverá uma punição”, afirma Guedes, “já a guerra, não. A guerra é tempo, recurso e requer inteligência”, conclui. Logo, caberia ao jornalismo reconhecer o nível exacerbado de violência presente na cidade. A matéria explicava que mudar tanto o nome quanto o enfoque para “Jornalismo de Guerra” expunha a indignação da equipe do jornal. Reconhecer que a situação do Rio de Janeiro é, de fato, uma guerra é uma parte necessária para solucionar o problema.

A Polícia Militar do Rio de Janeiro aplaudiu a decisão pelas redes sociais. A corporação reconheceu que nenhuma força policial no mundo passa pelo o que seus oficiais enfrentam todos os dias. Um fato surpreendente levantado pelo Extra é que 6 das dez áreas mais violentas da capital carioca são coordenadas por uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP).

Posicionamentos contra

Porém, nem todos concordaram com a postura do “Extra”. Os críticos afirmam ao legitimar o discurso de guerra da polícia, o jornal estaria justificando as ações de exceção. Seria uma forma de reafirmar a existência de um “inimigo”. Afinal, baixas são comuns e podem ocorrer em comunidades.

Um exemplo é o do manifesto do movimento “Maré Vive”. A declaração afirma que, se há uma guerra na cidade, é a travada contra a pobreza – escamoteada de luta contra o tráfico. Além disso, sociólogos argumentam que os jornais legitimam o discurso de ordem da polícia, em particular, quando a violência atinge áreas de elite. Parcela que representa a maior parte dos leitores dos jornais do Grupo Globo.

O que diz a lei

Por outro lado, reconhecer a situação carioca como a de “guerra” ainda tem uma série de implicações jurídicas. O combate envolve leis que dizem respeito ao Direito Internacional. Por exemplo, lidar com prisioneiros de guerra envolve condutas específicas para esse caso.  Assim como em outras situações: armas, negociações de trégua, sequestros, etc. As regras da guerra funcionam apenas na circunstância “de guerra”.

O Estado tem a obrigação de protege e garantir a vida de todos dos cidadãos – inclusive, a dos criminosos. O ato transgressor deve ser repudiado, porém a integridade do indivíduo deve ser defendida conforme a lei. Numa guerra o inimigo pode e deve ser eliminado.

A decisão é polêmica. Embora pareça correta é adequada abre implicações perigosas. Legitima ainda mais a morte de civis pela polícia. Para conferir a matéria na íntegra, clique aqui.

Isadora Bombonatti

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