Polifonia? Modalizadores? Cinco fenômenos linguísticos que você precisa saber para mandar bem!

Você sabe quais são os fenômenos linguísticos que podem aparecer no seu vestibular? Não? Leia esse resumão com amor e esteja afiado para o que der e vier! 😀

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Polifonia

A polifonia é o fenômeno de várias vozes no texto, pois, em um mesmo texto, pode-se ter a presença de mais de um enunciador falando. Este é um fenômeno interessante, pois, sendo as vozes explícitas ou implícitas, é permitido que o emissor mostre perspectivas diversas da sua, para se identificar com elas ou refutá-las.

A polifonia vem sendo utilizada na linguística para analisar os enunciados nos quais várias “vozes” são percebidas simultaneamente. Determinados elementos gramaticais podem funcionar como índices da presença, no texto, de outra “voz”. Alguns dos principais são:

  1. Determinados operadores argumentativos
  2. Os marcadores de pressuposição
  3. Em alguns casos, as aspas e outros recursos gráficos como o itálico e o negrito
  4. A intertextualidade
  5. O discurso indireto livre

Marcadores de Pressuposição

Como a expressão já indica, marcadores são elementos que reforçam uma pressuposição. Pressuposição vem de pressuposto, algo que está implícito, escondido, subentendido. Nesse caso, marcadores de pressuposição são elementos linguísticos que permitem o entendimento de informações secundárias, não-explícitas nos enunciados.

Veja, por exemplo, o segmento: Jorge parou de fumar. A presença da locução “parar de” nos permite pressupor que, antes, Jorge fumava. Perceba, também, que o emissor, ao proferir esse enunciado, parte do princípio de que seu receptor já domina esse conteúdo pressuposto, sob pena de a comunicação se tornar incoerente ou, no mínimo, pouco eficiente. Essa característica possibilita ao emissor trabalhar os conteúdos pressupostos para construir enunciados interessantes do ponto de vista argumentativo.

Além dos operadores, podem instituir conteúdos pressupostos os seguintes marcadores, por exemplo:

  1. Verbos auxiliares que modificam o aspecto verbal, indicando mudança ou permanência de estado (começar a, deixar de, continuar, passar a, tornar-se, etc.)
  2. Verbos que introduzem uma noção ou um estado de espírito diante de um fato (lastimar, sentir, saber, etc.)
  3. Verbos que indicam um ponto de vista sobre o fato expresso pelo seu complemento(por exemplo, pretender, supor, alegar, presumir, imaginar)
  4. Conectores circunstanciais, especialmente quando a ideia por eles introduzida vem anteposta (desde que, visto que, antes que, etc.)

Modalizadores

Modalizadores são palavras ou expressões que projetam um ponto de vista do enunciador acerca do que está sendo enunciado, revelando diferentes intenções comunicativas. Os elementos linguísticos são, portanto, capazes de determinar a maneira como aquilo que se diz é dito. Nesse caso, passam a ser essenciais para a correta compreensão do texto. Observe os enunciados a seguir:

  1. O Brasil terá crescimento inferior ao esperado nos próximos semestres devido à crise no exterior.
    Neste caso, o autor se responsabiliza pela afirmação e, caso sua ideia seja contestada por outros especialistas, terá de sustentar sua opinião.
  2. É possível que o Brasil tenha crescimento inferior ao esperado nos próximos semestres devido à crise no exterior.

Neste caso, o autor faz apenas uma previsão, ou seja, não afirma concretamente, não assume a responsabilidade do erro. Embora seja também uma afirmação, é uma maneira mais segura de afirmar.

Alguns dos elementos linguísticos capazes de traduzir esse fenômeno são:

  1. expressões cristalizadas (é provável, é possível, é obrigatório, etc.)
  2. advérbios e locuções adverbiais (talvez, provavelmente, certamente, obrigatoriamente, etc.)
  3. determinados verbos auxiliares (dever, poder, etc.)
Os verbos no futuro do presente evidenciam a certeza do que está sendo dito! ;)
Os verbos no futuro do presente evidenciam a certeza do que está sendo dito! ;)

Intertextualidade

A intertextualidade acontece quando um texto retoma uma parte ou a totalidade de outro texto, ou seja, é a relação que se estabelece entre textos, em que um deles faz referência a elementos existentes no outro. A relação que se estabelece entre textos, em que um deles faz referência a elementos existentes no outro, ocorre em forma de diálogo, mesmo que os textos sejam distantes no tempo e/ou no espaço.

Geralmente, os textos fontes são aqueles considerados fundamentais em uma determinada cultura e, por isso, o conhecimento de mundo do leitor é fundamental para o pleno entendimento dos textos que contam com o recurso da intertextualidade. Quem desconhece a referência faz uma leitura limitada, pois não avalia as intenções do autor ao lançar mão dela. Quanto mais experiente for o leitor (entenda-se como leitor experiente aquele que leu muito e bem) mais possibilidades terá de entender os caminhos percorridos (e os textos visitados) por um determinado autor em sua produção.

Confira os tipos de intertextualidade:

  • Citação: é uma transcrição do outro texto marcada por aspas ou itálico para mostrar que o trecho ou o texto citado foi tirado de outra fonte.
  • Epígrafe (do grego epi = posição superior + graphé = escrita): é uma citação que inicia um texto.
  • Paráfrase: é a reprodução das ideias de um texto. Na paráfrase, sempre se mantêm os conteúdos do texto original, mas elas são acrescidas de comentários e impressões. Pode-se dizer que parafrasear é dizer com outras palavras o que um texto transmitiu.
  • Paródia: é uma forma de intertextualidade em que se observa a manutenção de estruturas e expressões do texto original, acompanhada por alteração de sentido, com intuito crítico, irônico.
  • Hipertexto: é a leitura não linear, intimamente relacionada ao mundo tecnológico. Em uma página na internet, por exemplo, podemos ser remetidos a uma outra, através de um link, já que a tecnologia nos permite uma outra forma de ler.

Exercícios

1) (ENEM 2009) Texto 1
No meio do caminho
No meio do caminho tinha
uma pedra
Tinha uma pedra no meio
do caminho
Tinha uma pedra
No meio do caminho tinha
uma pedra
ANDRADE, C. D. Antologia poética. Rio de Janeiro/ São Paulo: Record, 2000. (fragmento).
Texto 2

A comparação entre os recursos expressivos que constituem os dois textos revela que
a) o texto 1 perde suas características de gênero poético ao ser vulgarizado por histórias em quadrinho.
b) o texto 2 pertence ao gênero literário, porque as escolhas linguísticas o tornam uma réplica do texto 1.
c) a escolha do tema, desenvolvido por frases semelhantes, caracteriza-os como pertencentes ao mesmo gênero.
d) os textos são de gêneros diferentes porque, apesar da intertextualidade, foram elaborados com finalidades distintas.
e) as linguagens que constroem significados nos dois textos permitem classificá-los como pertencentes ao mesmo gênero.

2) (UERJ 2013)

O personagem parece julgar quase todos que o rodeiam, mas não se exime de julgar também a si mesmo.
Um julgamento autocrítico de Isaías Caminha está melhor ilustrado no seguinte trecho:
a) Confesso que os leio, que os estudo, (l. 10)
b) Mas não é a ambição literária que me move (l. 11-12)
c) Entretanto, quantas dores, quantas angústias! (l. 17)
d) Imagino como um escritor hábil não saberia dizer o que eu senti (l. 37)

3) (UFMG 2009) Leia este texto:
Pressupostos são conteúdos implícitos que decorrem de uma palavra ou expressão presente no ato de fala produzido. O pressuposto é indiscutível tanto para o falante quanto para o ouvinte, pois decorre, necessariamente, de um marcador linguístico, diferentemente de outros implícitos (os subentendidos), que dependem do contexto, da situação de comunicação.

FIORIN, J. L. O dito pelo não dito. In: Língua Portuguesa, ano I, n. 6, 2006. p. 36-37. (Adaptado)

Observe este exemplo: “João parou de fumar”.
Nesse enunciado, é a presença da expressão “parar de” que instaura o pressuposto de que João fumava antes.
Leia, agora, estas manchetes:
1. Petrobrás é vítima de novos furtos (O Tempo, Belo Horizonte, 8 mar. 2008.)
2. Dengue vira risco de epidemia em BH (Estado de Minas, Belo Horizonte, 9 abr. 2008.)
Com base nas informações dadas acima e considerando essas duas manchetes de jornal, indique:
a) os pressupostos que delas se depreendem;
b) os marcadores linguísticos responsáveis pela instauração desses conteúdos implícitos.
4) (UERJ 2010)

Astroteologia

Claro, ao abrirmos a possibilidade de que vida extraterrestre inteligente exista, (l. 22)
No fragmento acima, o vocábulo claro projeta uma opinião do autor do texto sobre o que vai ser dito em seguida.
Outro exemplo em que a palavra ou expressão sublinhada cumpre função semelhante é:
a) Desde então, ideias sobre a pluralidade dos mundos têm ocupado (l. 4)
b) Por mais de 40 anos, cientistas vasculham os céus (l. 28)
c) Infelizmente, até agora nada foi encontrado. (l. 29)
d) Nesse caso, quão diferentes seriam dos deuses (l. 38)

5) (UERJ 2009)

E as ilusões estão todas perdidas (v. 3)
Este verso pode ser lido como uma alusão a um livro intitulado Ilusões perdidas, de Honoré de Balzac. Tal procedimento constitui o que se chama de:
a) metáfora
b) pertinência
c) pressuposição
d) intertextualidade

GABARITO

1) D
2) D
3) a) O pressuposto que se despreende da primeira manchete é que a Petrobrás já foi vítima de furtos. Já na segunda manchete, o pressuposto que se despreende é de que não havia o risco de epidemia da dengue antes em Belo Horizonte.
b) Os marcadores de pressupostos são “novos” e “vira”.
4) C
5) D

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